Ações de empresas estrangeiras com projetos de terras raras no Brasil acumularam fortes perdas nos últimos cinco pregões, em um período marcado pela reta final da tramitação e pela aprovação do projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Levantamento da CNN mostra que os papéis das cinco companhias analisadas recuaram entre 9% e 17% entre os fechamentos de 27 de agosto e 3 de setembro.
A maior queda foi registrada pela Rare Earths Americas , negociada nos Estados Unidos. As ações passaram de US$ 14,67 para cerca de US$ 12,15 no período, uma desvalorização de aproximadamente 17,2%.
Nesta quinta-feira (3), recuperou parte das perdas, mas permaneceu bem abaixo do patamar registrado cinco pregões antes.
Na Austrália, a St George Mining acumulou queda de 13,2%, de A$ 0,091 para A$ 0,079. A Brazilian Rare Earths recuou 11,1%, de A$ 4,13 para A$ 3,67.
A Viridis Mining and Minerals perdeu cerca de 9,5%, de A$ 4 para A$ 3,62, enquanto a Meteoric Resources caiu 9,3%, de A$ 0,215 para A$ 0,195.
Parte das empresas chegou a ensaiar uma recuperação nesta quinta, depois da aprovação do projeto, mas os ganhos não foram suficientes para apagar as perdas acumuladas nos pregões anteriores.
Fontes do setor ouvidas pela CNN avaliam que o novo marco regulatório adicionou uma camada de incerteza aos projetos minerais no país, principalmente porque parte relevante de seu alcance ainda dependerá de regulamentação.
Uma fonte ligada a uma das empresas afetadas afirmou, sob reserva, que o projeto trouxe um “novo nível de incerteza” para investidores e potenciais compradores da produção das mineradoras.
Na avaliação dessa fonte, dúvidas sobre a necessidade de homologação de contratos de longo prazo, regras para exportação e mudanças societárias passaram a entrar nas discussões de investidores e empresas interessadas em fechar contratos de offtake.
Esses contratos são acordos de compra futura da produção e têm papel relevante no financiamento de projetos minerais ainda em desenvolvimento.
Segundo a fonte, potenciais compradores passaram a fazer perguntas sobre como as novas regras poderão afetar essas operações, mas as companhias ainda não conseguem oferecer respostas definitivas.
A avaliação é que será necessário aguardar a regulamentação da lei para saber, na prática, quais operações estarão submetidas ao novo modelo e quais critérios serão utilizados.
A fonte também afirmou que parte dos investidores passou a buscar mercados considerados mais seguros diante das novas dúvidas regulatórias.
Não é só o PL
Outra fonte do setor ponderou, porém, que seria uma simplificação atribuir todo o movimento das ações à aprovação do projeto brasileiro.
Segundo essa avaliação, empresas de terras raras sem exposição ao Brasil também enfrentaram pressão nos últimos dias, em meio a fatores geopolíticos, à política dos Estados Unidos para minerais críticos e a acontecimentos específicos de cada companhia.
A fonte citou como exemplos Lynas Rare Earths e MP Materials.
A comparação mostra que houve, de fato, uma pressão mais ampla sobre o setor.
A Lynas caiu cerca de 7% entre 27 de agosto e 3 de setembro. Nos Estados Unidos, a MP Materials acumulou queda próxima de 9% no mesmo intervalo.
Os números mostram que parte do movimento ocorreu também fora do Brasil e dificultam a tentativa de atribuir uma causa única às perdas.
Ainda assim, as empresas diretamente expostas ao mercado brasileiro apresentaram quedas mais intensas. A Rare Earths Americas perdeu cerca de 17%, a St George, 13%, e a Brazilian Rare Earths, 11%.
A avaliação entre fontes ouvidas pela CNN é que o PL se somou a um ambiente já volátil para as empresas de terras raras e adicionou uma variável específica para quem avalia investir em projetos no Brasil.
Regulamentação
O texto aprovado cria novos instrumentos para a política de minerais críticos e amplia a capacidade do governo de acompanhar operações envolvendo projetos considerados estratégicos.
Entre os pontos que geraram preocupação no setor estão as regras envolvendo mudanças de controle societário, contratos comerciais e mecanismos que poderão estabelecer requisitos para exportações e maior agregação de valor dos minerais no Brasil.
A aplicação prática de parte desses dispositivos, no entanto, dependerá de regulamentação.
Integrantes do governo têm buscado reduzir a preocupação de empresas e investidores e defendem que as novas regras serão implementadas com previsibilidade e segurança jurídica.
A avaliação no Executivo é que a regulamentação será fundamental para delimitar o alcance dos novos instrumentos e evitar uma aplicação ampla ou indiscriminada das competências previstas no projeto.

