O interesse dos Estados Unidos na Venezuela não é promover eleições democráticas no país, mas sim garantir o acesso às suas reservas petrolíferas. Essa é a avaliação de Paulo Velasco, professor de Política Internacional da Uerj, em entrevista ao WW de quarta-feira (2).
Segundo Velasco, Donald Trump foi explícito sobre suas prioridades em relação à Venezuela. “Já na entrevista de 3 de janeiro, ele disse que o objetivo era o petróleo, não escondeu de ninguém”, afirmou o especialista.
Para ele, Trump tem a característica de ser direto sobre suas intenções, algo que seus antecessores jamais revelariam de forma tão aberta.
Paulo Velasco destacou que o acordo envolvendo a Venezuela apresenta fragilidades tanto do ponto de vista político quanto jurídico. Politicamente, o cenário é marcado pelos personagens envolvidos: de um lado, Donald Trump; de outro, o que o especialista chamou de “fantoche“, referindo-se à liderança venezuelana.
“Uma mudança de ares, naturalmente, vai levar a um questionamento desse acerto, exatamente pelas cláusulas absurdas que ele contém”, disse Velasco. Ele citou o prazo de 100 anos previsto no acordo, algo que, segundo ele, não tem paralelo na economia política internacional contemporânea.
Do ponto de vista jurídico, o especialista observou que o acordo é frágil e com “cláusulas absurdas“. Ele mencionou que a empresa envolvida promete investir cerca de US$ 100 bilhões na infraestrutura petrolífera venezuelana.
“Isso pode atrair outros investidores, mas sempre com pé atrás, justamente pelo fato de que é um acordo para lá de questionável, e que pode ser eventualmente derrubado por alguma iniciativa um pouco mais contundente”, afirmou.
Personagem controverso
Velasco também chamou atenção para a figura de Alejandro Betancourt, apontado como o controlador da empresa envolvida no acordo. Segundo o especialista, trata-se de um personagem já conhecido e alvo de investigações em países europeus, como Espanha e Suíça.
“Havia ordem de prisão contra ele, pedida por promotores na Suíça, tinha problemas também no Reino Unido. É um personagem controverso“, afirmou.
Para Velasco, a combinação de todos esses fatores lança sérias dúvidas sobre a durabilidade do arranjo. “Tenho muitas dúvidas se ele poderá de fato perdurar por algum tempo”, afirmou o especialista.
O professor ainda observou que Trump utiliza a questão venezuelana também para fins de política doméstica, com vistas às eleições de meio de mandato, as chamadas midterms, em novembro.
A ideia, segundo Velasco, é sugerir que o acesso ao petróleo venezuelano pode contribuir para aliviar os preços dos combustíveis nos Estados Unidos, que se elevaram significativamente em razão, especialmente, da guerra no Irã.

