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Tenente-coronel é preso por fazer segurança de empresa ligada ao PCC em SP

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Tenente-coronel é preso por fazer segurança de empresa ligada ao PCC em SP

O tenente-coronel José Henrique Martins Flores foi preso preventivamente sob suspeita de integrar uma organização criminosa que atuava em um esquema de segurança da Transwolff, empresa de transporte investigada por suposta ligação com a lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital). A prisão foi decretada pela Justiça Militar na sexta-feira (28).

O policial se entregou às autoridades no sábado (29) e foi encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes pela Corregedoria da PM (Polícia Militar). O tenente-coronel passou por audiência de custódia no mesmo dia.

Entenda: MP denuncia PMs por atuação em esquema de segurança da Transwolff em SP

Flores foi denunciado pelo MPSP (Ministério Público do Estado de São Paulo) em 26 de agosto. A acusação foi apresentada por promotores do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e da Promotoria de Justiça Militar.

Segundo a denúncia, o tenente-coronel e outros três policiais militares teriam integrado, de forma estável e permanente, uma organização voltada à obtenção de vantagens ilícitas por meio da prestação de serviços à Transwolff.

“Blindagem” para dirigentes

Para o Ministério Público, a atuação dos policiais não se limitava à segurança privada dos dirigentes da empresa. A acusação sustenta que o grupo também funcionava como uma espécie de “blindagem institucional e reputacional” da Transwolff.

Os PMs fariam proteção pessoal, escolta armada e monitoramento de garagens para os dirigentes Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como “Pandora”, e Cícero de Oliveira, o “Té”.

Segundo os promotores, a presença de policiais militares — inclusive integrantes da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) — teria conferido credibilidade aos empresários e ajudado a afastar suspeitas sobre as atividades da empresa.

A denúncia aponta que a estrutura teria permitido transferir, de maneira ilegal, prerrogativas, treinamento e credibilidade associados ao Estado para interesses privados.

As investigações sobre a Transwolff fazem parte de um conjunto de apurações que apontam para uma suposta utilização de empresas de transporte coletivo para lavagem de dinheiro do PCC, com recursos provenientes de crimes como tráfico de drogas e roubos.

Mais de R$ 800 milhões em recursos públicos

As investigações foram aprofundadas a partir de provas obtidas na Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024.

Segundo o MPSP, 29 pessoas foram investigadas no esquema. Transwolff e UPBus, duas concessionárias apontadas nas investigações como elos de um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC, receberam juntas mais de R$ 800 milhões dos cofres públicos em 2023.

A Justiça também determinou o bloqueio de mais de R$ 600 milhões em patrimônio das empresas para garantir o pagamento de multas relacionadas a danos morais coletivos.

Divisão de tarefas

De acordo com a denúncia, os quatro policiais tinham funções diferentes dentro do núcleo de segurança.

O capitão Alexandre Paulino Vieira é apontado como coordenador do grupo. Segundo o MPSP, cabia a ele indicar, contratar, escalar, fiscalizar, pagar e dispensar os policiais que trabalhavam para a empresa, além de manter contato direto com os dirigentes da Transwolff.

Flores, por sua vez, teria atuado na estrutura empresarial, administrativa e fiscal do esquema. O Ministério Público afirma que ele era o administrador de fato do Grupo AM3, empresa registrada formalmente em nome de sua mãe e de seu padrasto.

Segundo a acusação, a estrutura societária teria sido usada para ocultar a participação do oficial da ativa. A empresa teria sido utilizada para emitir notas fiscais consideradas falsas pelos investigadores, dando aparência lícita aos pagamentos recebidos da Transwolff.

O sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário seria responsável pela execução da segurança, incluindo escolta dos dirigentes e familiares e vigilância das garagens. Ele também teria atuado na captação e intermediação de outros policiais.

Já o sargento da reserva Nereu Aparecido Alves teria participado das escoltas e, segundo a denúncia, seria responsável por manusear, transportar e realizar depósitos de grandes quantias em dinheiro vivo da Transwolff sob orientação do dirigente conhecido como “Té”.

Mala com R$ 1,18 milhão

Durante as buscas realizadas no curso da investigação, a Corregedoria da PM encontrou na residência de Nereu uma mala com R$ 1,18 milhão em espécie.

Segundo o Ministério Público, o militar não apresentou comprovação compatível com a origem do dinheiro. Por isso, ele também foi denunciado por lavagem de dinheiro.

As investigações apontam ainda que os policiais tinham conhecimento da relação dos dirigentes da empresa com integrantes do PCC.

Em setembro de 2020, por exemplo, o sargento Romano teria consultado, no sistema Muralha Paulista, os antecedentes de Robson e Gilberto Flares Lopes Pontes, este último apontado nas investigações como uma liderança financeira da facção.

Mesmo após ordens do comando da Rota para que os policiais se afastassem das atividades e depois da deflagração de operações contra o esquema, os vínculos teriam sido mantidos.

Segundo a denúncia, os contratos de segurança privada firmados com a AM3 continuaram em vigor e foram reajustados ao longo dos anos.

O valor mensal teria passado de R$ 30.905 em 2021 para R$ 44.639,10 em janeiro de 2025.

Para o Ministério Público, a manutenção dos contratos mesmo após a exposição pública do envolvimento de policiais militares na segurança dos dirigentes reforça a suspeita de que a estrutura continuou funcionando de maneira organizada.

Defesa nega acusação

A defesa do capitão Alexandre Paulino Vieira, formada pelos advogados Mauro Ribas e Renato Soares, afirmou à CNN Brasil que o policial é inocente e que nunca integrou nenhuma organização criminosa. Veja:

“A defesa do capitão Alexandre Paulino Vieira, composta pelos advogados Mauro Ribas e Renato Soares, se manifesta no sentido da inocência do seu cliente, afirmando que ele nunca integrou nenhuma organização criminosa.”

A reportagem não localizou as demais defesas dos policiais militares e da empresa. O espaço segue aberto.

Em nota emitida à época das investigações, a Transwolff afirmou que repudia veementemente qualquer tentativa de associação com organizações criminosas. Leia na íntegra: 

“Transwolff repudia qualquer tentativa de associação com organizações criminosas

Empresa de ônibus de São Paulo esclarece que não há fundamento nas alegações de relação da empresa ou de seus representantes com policiais militares citados em reportagem

Sobre as reportagens a respeito da prisão pela Corregedoria de três policiais militares sob alegação de que de 2020 a 2024 faziam segurança para o dono da Transwolff, a empresa esclarece que não há qualquer fundamento nas alegações de suposta relação da empresa ou de seus representantes com atividades ilícitas ou com os policiais militares citados na reportagem.

A empresa repudia veementemente qualquer tentativa de associação com organizações criminosas. A Transwolff segue se defendendo nas instâncias competentes e colaborando com as autoridades.”

O processo criminal contra os policiais militares tramita sob segredo de Justiça na 3ª Auditoria de Justiça Militar do Estado de São Paulo.

A CNN Brasil tenta contato com a defesa do policial José Henrique Martins Flores. O espaço segue aberto.

*Sob supervisão de Carolina Figueiredo

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