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Classe C quer ser dona do próprio tempo, diz Renato Meirelles

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Classe C quer ser dona do próprio tempo, diz Renato Meirelles

O que mudou na classe C brasileira nos últimos anos? Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e referência em pesquisas de consumo e opinião pública, a resposta passa menos pelo consumo e mais pela busca por autonomia. Se os sonhos relacionados à compra de bens e à melhoria do padrão de vida continuam presentes, o principal desejo dessa parcela da população ganhou uma nova dimensão: ter controle sobre o próprio tempo.

“Uma coisa importante para a gente entender é o que mudou na classe C. Algo continua: ela busca dignidade. Então, você vai perguntar o que ela quer. Ela quer a dignidade”, afirmou Meirelles em entrevista ao programa WW Especial, da CNN Brasil.

Segundo ele, os sonhos de consumo podem ser realizados ou não, mas a aspiração por uma vida digna permanece. O que mudou é a definição do que significa essa dignidade.

“Os sonhos são contínuos. Do ponto de vista de consumo, alguns foram realizados, outros não, mas ter uma vida digna continua sendo o grande aspiracional da classe C. Só que o que é essa vida digna hoje? Para mim, esse é um dos principais pontos do livro: é ser dono do próprio tempo”, disse.

A mudança ajuda a explicar, na avaliação de Meirelles, a expansão de diferentes formas de trabalho e geração de renda, especialmente aquelas associadas ao empreendedorismo e às plataformas digitais. Mais do que uma discussão conceitual sobre quem pode ou não ser chamado de empreendedor, o fenômeno estaria ligado a uma necessidade concreta de conciliar trabalho, renda e vida pessoal.

“As pessoas falam muito sobre o empreendedorismo, mas o que nós estamos dizendo é que, num país com o trânsito que nós estamos, num país com as regiões centrais distantes das regiões metropolitanas, com um dinheiro que nunca é o suficiente e faz com que aquele ‘corre’ que sempre existiu na classe C, e no brasileiro como um todo, hoje ganhou outros nomes pelas plataformas”, afirmou.

Para o presidente do Instituto Locomotiva, a chamada economia de plataformas não se limita aos trabalhadores mais associados ao universo digital. Ela inclui desde criadores de conteúdo até pequenos empreendedores que passaram a usar plataformas para vender seus produtos.

“Quando falam plataforma, tem o empregador, tem o youtuber, mas tem a boleira que vende por uma plataforma, tem o cara que estampa a camiseta e vende para o Brasil inteiro. Isso ampliou a renda. O que todos eles têm em comum? Eu sou dono do meu tempo”, explicou.

A autonomia, porém, não deve ser interpretada como um privilégio ou um luxo, segundo Meirelles. Ela se tornou parte da própria ideia de dignidade para uma parcela da população que historicamente precisou conciliar longos deslocamentos, jornadas extensas e renda apertada. “E isso não é um luxo”, destacou.

É nesse contexto que Meirelles relaciona a mudança de comportamento da classe C ao debate sobre a jornada de trabalho. Para ele, a discussão em torno da redução da jornada 6×1 dialoga com uma demanda mais ampla por autonomia e qualidade de vida.

“É por isso que, quando uma determinada força política propõe o fim da jornada 6×1, a redução da jornada 6×1, ela está dialogando com esse zeitgeist [espírito da época], que é ser dono do próprio tempo”, comentou.

Na prática, explica Meirelles, a ideia de dignidade está relacionada à possibilidade de fazer escolhas que antes poderiam ser inviáveis diante das exigências do trabalho. Ter tempo para a família, por exemplo, passa a fazer parte daquilo que significa uma vida melhor. “Dignidade é poder decidir se você vai ou não vai buscar a filha na escola”, pontuou.

A possibilidade de trabalhar mais também aparece, paradoxalmente, como parte dessa autonomia. O objetivo não seria apenas trabalhar menos, mas ter liberdade para decidir quando e por que trabalhar mais, de acordo com as próprias necessidades e projetos.

“Se você der um ‘corre’ a mais, você vai conseguir pagar a festa de formatura ou fazer aquela viagem que você estava planejando”, concluiu. 

WW Especial

Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.

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