A St George Mining, o governo de Minas Gerais e o grupo brasileiro Lima & Pergher começaram a estudar a criação de um polo de processamento e refino de terras raras em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, com o objetivo de avançar em etapas da cadeia produtiva que hoje ainda não são desenvolvidas no Brasil.
O projeto ainda está em fase inicial de avaliação. As empresas não definiram o desenho final da planta, o volume de investimento nem exatamente até qual etapa do processamento o centro poderá chegar. A proposta é analisar diferentes rotas e tecnologias antes de uma decisão final de investimento.
O acordo prevê que o centro tenha capacidade para receber diferentes tipos de produtos intermediários da mineração de terras raras, como concentrados, carbonato misto de terras raras — conhecido pela sigla MREC — e oxalatos, e avançar no processamento desses materiais para produzir insumos destinados às etapas seguintes da cadeia, inclusive à fabricação de ímãs.
Na prática, a discussão envolve até onde o novo polo poderá avançar na cadeia.
Depois da extração do minério, as terras raras passam por etapas de beneficiamento para aumentar a concentração dos elementos de interesse. Um dos produtos que pode sair dessa etapa é o carbonato misto de terras raras, no qual diferentes elementos ainda permanecem agrupados.
Quanto mais a cadeia avança, maior tende a ser a complexidade tecnológica. O material pode passar por novas etapas de purificação e separação, até que os diferentes elementos de terras raras sejam isolados e convertidos em produtos de maior valor agregado.
É nessa fase que podem ser separados, por exemplo, elementos utilizados em ímãs permanentes, como neodímio e praseodímio.
A St George afirma que o centro em estudo poderá ter capacidade para separar e refinar terras raras e produzir materiais destinados à fabricação de ímãs, mas o desenho tecnológico ainda não foi fechado. Ou seja, ainda está sendo avaliado se a instalação ficará concentrada em produtos intermediários mais beneficiados ou se avançará para etapas mais sofisticadas de separação e refino.
Essa definição dependerá, entre outros fatores, das tecnologias que forem selecionadas para o projeto. A mineradora australiana informou que mantém conversas com potenciais parceiros internacionais e que algumas empresas já demonstraram interesse em apoiar o centro por meio de diferentes arranjos comerciais, inclusive com licenciamento de tecnologia de processamento.
A proposta faz parte de uma tentativa de estruturar no país uma cadeia que vá da mineração até a fabricação de ímãs — chamada pelo setor de mine-to-magnet, ou “da mina ao ímã”.
Hoje, a mineração é apenas o início dessa cadeia. Depois da extração e concentração, são necessárias etapas químicas de separação e purificação até a obtenção de materiais com especificações adequadas para aplicações industriais.
No caso dos chamados ímãs permanentes, usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e diversas tecnologias de alta performance, elementos como neodímio e praseodímio precisam ser separados dos demais elementos presentes originalmente no minério e transformados em materiais de elevada pureza.
A intenção declarada pelas empresas é que o centro de Minas Gerais possa preencher parte dessa lacuna entre a mina e a fabricação dos ímãs.
MagBras
Uma das possíveis destinatárias dos materiais produzidos pelo centro é a MagBras, iniciativa público-privada criada para estabelecer uma cadeia nacional de fabricação de ímãs de terras raras.
Segundo a St George, a empresa já forneceu material do projeto de Araxá para testes metalúrgicos da iniciativa e poderá abastecer a MagBras futuramente com produtos do projeto ou do novo centro de processamento.
O objetivo declarado no acordo é utilizar matéria-prima brasileira e realizar no país as etapas de processamento necessárias para avançar em direção a uma cadeia doméstica de terras raras.
Planta pode começar a operar até 2030
O centro é estudado para ser instalado dentro do complexo industrial da START, divisão química e industrial do Grupo Lima & Pergher, em Uberlândia.
A área já possui infraestrutura industrial, energia, acesso a produtos químicos e mão de obra especializada. O complexo ocupa mais de 500 mil metros quadrados, segundo a St George.
St George e START avaliam inclusive a criação de uma nova empresa para construir, controlar e operar conjuntamente o centro.
A meta preliminar é iniciar as operações até 2030, mas o cronograma depende da conclusão dos estudos, do licenciamento e de uma decisão final de investimento.
Ainda não existe, portanto, compromisso definitivo de construção da planta.
Cada empresa arcará com seus próprios custos durante a fase de estudos. O valor dos aportes necessários para construção e operação será definido apenas caso as partes decidam seguir adiante com o empreendimento e negociem um acordo definitivo.
Governo de Minas dará apoio ao licenciamento
O governo mineiro participará do projeto principalmente como facilitador institucional.
A Invest Minas deverá auxiliar na interlocução com órgãos públicos, acompanhar os processos de aprovação e licenciamento, aproximar o empreendimento de fornecedores e prestadores de serviços e apoiar pedidos de incentivos fiscais estaduais.
O acordo, porém, não prevê neste momento aporte financeiro do governo nem garante a concessão dos incentivos fiscais.
Já a START poderá disponibilizar terreno, acesso à energia e conhecimento técnico, além de participar da construção e da futura operação da instalação.
A St George, por sua vez, pretende fornecer matéria-prima do projeto de Araxá, desenhos de fluxogramas de processamento e pessoal técnico, além de buscar tecnologias junto a parceiros internacionais.
Araxá
O projeto de terras raras e nióbio da St George em Araxá será uma das potenciais fontes de matéria-prima do centro.
A empresa informou neste mês que o projeto possui recurso mineral total de 111,2 milhões de toneladas, com teor médio de 3,57% de óxidos totais de terras raras (TREO).
Desse total, 75,2 milhões de toneladas estão nas categorias medida e indicada, com teor médio de 3,64% de TREO. A companhia estima que essa parcela contenha aproximadamente 520 mil toneladas de óxidos de neodímio e praseodímio (NdPr).
O projeto está localizado próximo às operações de nióbio da CBMM, em Araxá.

