O “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros tem impulsionado o Brasil a buscar novos acordos comerciais e rotas alternativas de exportação. Com sobretaxas acumuladas de até 37,5% incidindo sobre itens como calçados, máquinas e etanol, o cenário do comércio exterior brasileiro vem se redesenhando em múltiplas frentes, tanto multilaterais quanto bilaterais. O analista de Economia da CNN Victor Irajá explica, ao CNN Novo Dia, como o tarifaço tem impulsionado acordos do Brasil com outros países.
Um dos movimentos mais recentes foi a assinatura de um memorando de entendimento — chamado de MOU — entre o governo brasileiro e a Federação das Indústrias da Índia.
Segundo Victor Irajá, trata-se de um protocolo de intenções que visa promover uma aproximação e um aprofundamento das discussões setoriais entre os dois países. “O que foi firmado foi um acordo de entendimento, um memorando de entendimento chamado de MOU. Isso é, na verdade, um protocolo de intenções”, explicou Irajá.
Oportunidades no mercado indiano
A ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Atração de Investimentos) já mapeou 378 oportunidades para produtos nacionais no mercado indiano, que conta com mais de 1,4 bilhão de consumidores potenciais.
Apesar de a Índia figurar como o décimo destino das exportações brasileiras, o Brasil ocupa apenas a 26ª colocação entre os fornecedores de produtos no mercado interno indiano.
Um dos entraves para uma consolidação mais efetiva dessa relação é a chamada tarifa externa comum do Mercosul, que gira entre 13% e 15%, a depender do país parceiro.
Qualquer mudança tarifária exigiria consenso entre os quatro membros do bloco, o que representa um desafio diplomático adicional.
Abertura de mercados em ritmo acelerado
Desde o início de 2023, o Ministério da Agricultura aponta 639 aberturas de mercado específicas em 97 destinos. Somente em 2025, foram registradas 211 aberturas para 56 países, encerrando o ano com mais de 500 acessos acumulados — o que o governo classifica como o maior avanço em um único ciclo de gestão.
Um levantamento da ApexBrasil indica que esses mercados abertos desde o início desta gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já geraram mais de US$ 3 bilhões em exportações adicionais, com perspectiva de um potencial futuro de mais US$ 4 bilhões.
Além do acordo com a Índia, o Brasil também avançou na consolidação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia — após 30 anos de negociações, ainda que cercado de entraves e processos de judicialização — e firmou acordo com a Indonésia. “Há uma série de medidas que estão sendo discutidas exatamente para mitigar esse impacto do tarifaço de Donald Trump”, afirmou Irajá.
Impacto do tarifaço nas exportações para os EUA
Os dados revelam o impacto direto das sobretaxas norte-americanas sobre o fluxo comercial brasileiro. A fatia dos Estados Unidos nas exportações do Brasil caiu de 12,1% para 9,4% no primeiro semestre deste ano, o menor nível desde o início da série histórica, em 1997.
Irajá ressaltou, no entanto, que a abertura de novos mercados não elimina a necessidade de negociações bilaterais com Washington.
“É muito importante que o Brasil continue as negociações bilaterais com os Estados Unidos para mitigar aquelas tarifas que podem chegar até 37,5%, principalmente pensando em produtos de maior valor agregado”, disse o analista.
Negociações bilaterais com os EUA
Uma reunião entre representantes do Brasil e dos Estados Unidos está prevista para a segunda-feira (31), com o objetivo de retomar os diálogos para um eventual acordo comercial.
O ministro do MDIC (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Márcio Elias Rosa, declarou estar “animadíssimo” com a retomada das negociações. “Eu sou um otimista. Negociador pessimista perde. Agora, é óbvio que vai ser um diálogo difícil, porque já foi no passado difícil. Mas nós já sabemos qual o caminho a percorrer”, afirmou.

