A Casas Bahia enfrenta uma grave crise financeira que culminou no pedido de recuperação judicial e no fechamento de 298 unidades em todo o país. Segundo Claudio Damasceno, sócio da consultoria RGF Bizdoc, o setor varejista brasileiro passa por uma mudança estrutural que não é exclusiva de nenhuma empresa em particular.
“Quem se preparou nesse esforço de gestão está bem e avança na turbulência que estamos vivendo com saúde. Quem não se preparou e entrou nessa crise descapitalizada e, sobretudo, alavancada do ponto de vista financeiro, vive problemas graves”, afirmou Damasceno em entrevista ao CNN Agora de domingo (23).
Para Damasceno, o Brasil convive hoje com uma produção mundial deslocada para a China e com o estímulo à compra de produtos mais baratos. Ele citou, como exemplo, a revogação da “taxa das blusinhas”.
“É uma concorrência muito poderosa dentro de uma economia que está fragilizada e é muito cara. E a gente tem um esforço público de governo que não está atendendo simultaneamente necessidades estruturais da indústria e do varejo”, observou o especialista.
Situação da Casas Bahia
Segundo Damasceno, a crise da Casas Bahia tem raízes profundas e antigas. “A gente vive um problema societário que começou há mais de 15 anos”, afirmou.
Para ele, esse problema atrasou as transformações necessárias para que a empresa se adaptasse à disrupção provocada pela tecnologia, algo que o varejo como um todo precisou enfrentar com rapidez.
A situação da varejista já era crítica em 2024, quando a empresa passou por uma recuperação extrajudicial que, segundo o especialista, não foi suficiente para sanar os problemas.
“A fotografia que a gente tem de 2024, quando teve a recuperação extrajudicial, é de uma crise profunda, que não foi sanada nos últimos dois anos”, disse Damasceno.
Agora, em 2026, o pedido de recuperação judicial, ainda não deferido, representa, na avaliação dele, um novo fôlego para a companhia enfrentar seus desafios.
Damasceno também apontou fragilidades estruturais específicas da Casas Bahia. “A gente tem uma composição societária muito frágil, tanto na liderança da gestão quanto na composição do capital”, explicou.
Na prática, na avaliação dele, isso significa que o dinheiro captado pela empresa é caro e a gestão do patrimônio não gera recursos suficientes para cobrir os juros desse capital.
Medidas para impulsionar o varejo
Damasceno elencou três prioridades que poderiam beneficiar o setor varejista como um todo. A primeira é o controle do gasto público, que, segundo ele, é a causa do elevado patamar de juros que prejudica todos os setores da economia.
A segunda é a formulação de uma política de médio e longo prazo voltada para interesses estratégicos brasileiros. A terceira envolve ações de estímulo direcionadas a setores prioritários.
“A gente olha para a China, que faz um planejamento de 50 anos, enquanto o Brasil está com dificuldade de planejar um, dois anos à frente”, lamentou Damasceno.
O especialista também defendeu investimentos em logística para reduzir custos na cadeia produtiva, ampliação do crédito diferenciado para setores estratégicos e políticas de educação voltadas ao aumento da produtividade.
Damasceno finalizou reforçando a necessidade urgente da reforma tributária, descrita por ele como “complexa, desafiadora, mas absolutamente necessária”.

