Anos antes de se tornar uma assessora importante do presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca, Natalie Harp fazia postagens no Twitter que demonstravam uma devoção extraordinária a ele em 6 de janeiro de 2021.
Na data, o processo para certificar a vitória do presidente eleito, o democrata Joe Biden, foi interrompido por apoiadores de Trump que indaviram o Capitólio.
Uma análise da CNN sobre a conta de Harp na rede social X (antigo Twitter) — que foi removida — revelou que ela publicou mais de 150 tweets naquele dia, instando os republicanos a “LUTAREM POR TRUMP” enquanto ele iniciava seu discurso perto da Casa Branca.
Ela ecoou os argumentos do presidente de que a eleição havia sido roubada e amplificou a retórica de seus aliados, que também buscavam minar a legitimidade da vitória eleitoral de Joe Biden.
A conta de Harp no X parece estar suspensa. Não está claro quando a conta foi retirada do ar, nem se foi ela ou a plataforma que removeu suas postagens.
A devoção de Harp não é algo incomum no círculo íntimo de Trump: o presidente preencheu sua Casa Branca com aliados leais. No entanto, suas postagens de 6 de janeiro ofereceram uma demonstração pública de fidelidade, ao elogiar aqueles que lutavam para manter Trump no cargo e retratar repetidamente ele e seus aliados como heróis.
“Ela provou ser uma assessora e funcionária totalmente leal e bajuladora”, disse David B. Cohen, professor de ciência política da Universidade de Akron que estuda a presidência americana.
“Trump gosta disso; ele não gosta de ser questionado. Ele gosta de ser reverenciado, e ela claramente faz isso”, afirmou.
Nem Harp nem a Casa Branca responderam aos pedidos de comentário da CNN.
Enquanto uma multidão chegava a Washington na manhã de 6 de janeiro, Harp — apresentadora da One America News Network cuja biografia no Twitter a descrevia como membro do “conselho consultivo” de Trump — compartilhou comentários de familiares de Trump declarando: “Este movimento nunca, jamais morrerá!” e “Esta luta está apenas começando”.
Harp, então com 29 anos, elogiou os manifestantes pró-Trump que se reuniam para o discurso do presidente, chamando-os de “patriotas”, e desafiou os legisladores a demonstrarem “uma fração da coragem e paixão” da multidão, declarando: “hoje nós VAMOS PARAR O ROUBO!”.
Ela também promoveu o chamado do republicano Rudy Giuliani: “vamos ter um julgamento por combate!” …durante o discurso dele, embora advogados de Giuliani tenham afirmado mais tarde que sua convocação foi “hiperbólica” e não um chamado à violência.
Quando o presidente começou a falar, Harp tuitou “LUTEM PELO TRUMP!” uma dúzia de vezes em uma única postagem, acrescentando: “Hoje, D.C. é TERRITÓRIO DO TRUMP!” Ela fez a cobertura em tempo real do discurso do presidente: “Nunca desistiremos. Nunca cederemos!”.
E depois que uma multidão pró-Trump invadiu o Capitólio dos EUA, Harp compartilhou tuítes insistindo que os invasores “não eram apoiadores de Trump” e divulgou relatos falsos de que o Antifa havia se infiltrado na multidão. Mais tarde, Harp compartilhou os apelos de Trump para que os invasores voltassem para casa.
Horas depois de o ataque ao Capitólio forçar o Congresso a interromper a contagem dos votos do Colégio Eleitoral, Harp novamente repercutiu as falas de Giuliani, citando suas declarações de que a interrupção havia criado “mais algumas opções, particularmente com esse atraso” e que a equipe jurídica de Trump estava trabalhando em “como podemos aproveitar essas opções”, acrescentando um emoji de bandeira americana.
Depois que a Câmara votou pela rejeição da objeção levantada por legisladores republicanos à contagem dos votos eleitorais do Arizona, Harp tuitou: “A América pode não ser mais a América. Mas Deus continua sendo Deus. Não parem de acreditar!!”.
Harp destacou os legisladores que continuaram a contestar os resultados, agradecendo ao deputado Jody Hice por ser “um homem de palavra e fiel à Constituição”, elogiando Marjorie Taylor Greene por sua “coragem” e chamando Josh Hawley de “um verdadeiro patriota” que “se recusa a ser intimidado e a abandonar seu dever para com a Constituição”.
Ela também saudou os seis senadores que votaram a favor das objeções — Ted Cruz, Hawley, Cindy Hyde-Smith, John Kennedy, Roger Marshall e Tommy Tuberville — como “patriotas” que “não vacilaram na luta pelo nosso amado país e pelo @POTUS”.
No dia seguinte, depois que Trump reconheceu publicamente que uma nova administração assumiria o cargo, Harp compartilhou a mensagem dele de que “nossa jornada incrível está apenas começando”.
Quatorze minutos depois, ela acrescentou sua própria declaração de lealdade: “Nós amamos você, Presidente @realDonaldTrump!” A aparente adesão de Harp à narrativa de Trump sobre a fraude eleitoral não começou em 6 de janeiro de 2021, segundo uma análise da CNN.
Nas semanas que antecederam a invasão do Capitólio, ela publicou para seus seguidores: “Nunca desistiremos – pois a VERDADE está do nosso lado. O dia 6 de janeiro está chegando!!”
“NÓS AMAMOS VOCÊ! NÓS AMAMOS VOCÊ! NÓS AMAMOS VOCÊ! x 71 milhões”, publicou Harp dias após a divulgação dos resultados da eleição. Harp contestou a vitória de Biden em 14 de dezembro, publicando: “ISTO É UM GOLPE”.
Harp atuou como assessora próxima do presidente durante seu segundo mandato. Embora tenha trabalhado majoritariamente nos bastidores, ela ganhou destaque público nesta semana, quando o senador democrata Jon Ossoff a mencionou nominalmente em um discurso de críticas a Trump. Na quinta-feira, o site Daily Beast publicou duas cartas que teriam sido escritas por ela ao presidente, expressando sua lealdade absoluta a ele.
Os tweets analisados pela CNN ilustram a devoção de Harp a Trump, que remonta pelo menos a 2016, quando ele parece ter começado a publicar mensagens sobre o presidente no Twitter.
Harp também tuitou versículos bíblicos referindo-se ao presidente, defendendo-o no dia em que ele sofreu o processo de impeachment em 2019.
“Faze-me justiça, [@realDonaldTrump], meu Deus, e defende a [sua] causa contra uma nação infiel”, e “.@realDonaldTrump, ‘Dou graças ao meu Deus sempre que me lembro de você!!!’”.
Cartas revelam relação íntima
Duas cartas supostamente enviadas por Natalie Harp a Donald Trump trazem expressões e adjetivos que revelam uma relação de intimidade e a devoção da assessora ao presidente dos Estados Unidos.
Segundo o jornal Daily Beast, que revelou o conteúdo das mensagens, em uma das cartas atribuídas a Harp, ela diz a Trump que ele é seu ‘guardião e protetor’ e escreve ‘Você é tudo o que importa para mim’.”
O jornal diz que as “cartas-bombas” foram obtidas com uma fonte do governo americano pelo biógrafo de Trump, Michael Wolff. A CNN não confirmou de forma independente que Harp tenha escrito ou enviado essas cartas ao presidente e procurou a Casa Branca para comentar especificamente o conteúdo das mensagens.
“Quero que as coisas estejam sempre bem entre nós. Também sei que estive distraída durante toda a semana (esquecendo de comer ao longo dos dias e até esquecendo de dormir, conseguindo dormir apenas algumas horas de cada vez)”, diz supostamente a assessora em uma das cartas. A mensagem termina com a assinatura: “Com todo o meu coração, Natalie.”
As cartas teriam sido enviadas em 2023, durante ou logo após Harp acompanhar Trump em uma viagem à Escócia e à Irlanda. Ela tinha 31 anos e Trump, 76. Ela teria dito que sente inveja das mulheres “cujo único trabalho parece ser conversar com você e ficar bonitas”.
Wolff disse ao Daily Beast que as cartas foram “descobertas por integrantes da equipe” entre as pilhas de documentos impressos que Harp entregava a Trump. Elas foram fotografadas e as imagens passaram a circular entre funcionários da campanha.
Harp trabalha do lado de fora do Salão Oval e é conhecida como a “gatekeeper” de Trump, a pessoa que controla o acesso ao presidente.
O Daily Beast afirma que a assessora se refere a si mesma pelo apelido que funcionários de Trump lhe deram: “Human Printer”, porque ela imprimia reportagens e informações positivas para entregar ao presidente.
Os detalhes das cartas foram revelados dias depois de o senador democrata da Geórgia Jon Ossoff ter feito insinuações no domingo (16), que colocaram a relação entre Trump e Natalie Harp no centro do debate político. O senador afirmou que Trump só se importava em “viajar com Natalie”.
Na terça-feira (18), o irmão de Natalie Harp, de quem ela aparentemente está afastada, deu uma entrevista à CNN. Ele disse o seguinte sobre a irmã: “Eu diria que, desde que ela tinha uns 16 anos, ela tem uma obsessão por… nossa, como posso explicar isso? Ela já escreveu cartas para outros presidentes, digamos assim.” Ele disse que estava se referindo a George W. Bush.
Veja a seguir a reprodução, na íntegra, do trecho da reportagem publicada pelo Daily Beast com os conteúdos das supostas cartas:
Uma das cartas tem tom de pedido de desculpas, sugerindo que ela temia ter irritado Trump durante a viagem.
“Desculpe”, escreve Harp. “Achei que eu tivesse sido a única deixada para trás ontem à noite e não fazia ideia de que o carro da Margot também tinha sido parado e mandado de volta ao aeroporto.”
Ela aparentemente se referia à assessora de comunicação Margot Martin. O Daily Beast afirma ter confirmado que Martin participou da viagem.
“Como eu estava sozinha na van do lado de fora da Alfândega, sem meu passaporte, entrei em pânico e deveria simplesmente ter ligado para o Serviço Secreto em vez de ligar para você”, escreveu.
Ela também pediu desculpas por ter caminhado pelo campo de golfe em vez de andar em um carrinho.
“Se houver qualquer outra coisa que eu tenha feito que tenha causado problemas para você, por favor, me perdoe.”
Fotografias mostram Harp caminhando pelo campo, de acordo com a descrição feita na carta.
“Quero que as coisas estejam sempre bem entre nós. Também sei que fiquei distraída durante toda a semana — esquecendo de comer ao longo dos dias e até esquecendo de dormir, dormindo apenas algumas horas de cada vez.”
Ela conta que estava permitindo que comentários de outras pessoas a afetassem: “Não porque eu me importe com o que as outras pessoas pensam, mas porque vejo a mim mesma sendo rebaixada aos seus olhos e na boa opinião que você tem de mim. Esse é o medo que você vê, porque nunca quero trazer nada além de alegria para você.”
Ela então agradece ao ex-presidente — que posteriormente voltaria à Casa Branca — por ser “meu Guardião e Protetor nesta vida”.
A segunda carta é ainda mais íntima. Harp agradece Trump por tê-la obrigado a “se desconectar”.
Ela escreve sobre o quanto gostou de passar tempo no campo de golfe com ele:
“Podíamos ficar no campo, sem máquinas, e até esquecer que horas eram! Eu não precisava ser a ‘Impressora Humana’. Podia aproveitar uma boa conversa e ainda assim terminar todo o meu trabalho no fim do dia.”
Ela diz que chegou a ter tempo para fazer longas caminhadas de manhã e à noite para apreciar o nascer e o pôr do sol — “embora eu tenha esquecido de comer e dormir!”.
Harp escreve que percebeu que Trump havia notado seu humor “ligeiramente negativo” em alguns momentos. “Eu não fazia ideia da rapidez com que estava me aproximando de um burnout e começando a sentir inveja daquelas cujo único ‘trabalho’ parece ser conversar com você e ficar bonitas. Eu quero esse trabalho!!”
Ela continua: “Muitas vezes estou simplesmente tentando me manter à tona com tudo o que está chegando para você e pareço uma corcunda que não teve tempo nem de se arrumar. (Pelo menos você sabe como eu deveria parecer!). Sinto falta dos meus dias de talk show”.
A ex-apresentadora da OAN (One America News Network) diz que sentia falta da época em que apresentava um programa e Trump ligava para ela. “Sempre me senti em uma posição intermediária, em algum lugar entre a equipe e aquelas pessoas com quem você gosta de conversar no avião ou durante o jantar, porque era isso que eu costumava ser para você quando era uma ‘apresentadora de talk show’ — por mais que eu odiasse aquele trabalho!”
Ela acrescenta: “Gostaria de poder ouvir todas as conversas, porque é quando você está se divertindo, se afastando de tudo, pelo menos por alguns instantes.”
Descrevendo a própria carta como uma espécie de “autoanálise”, Harp afirma que seu objetivo era deixar Trump orgulhoso.
“E, por favor, quando eu falhar, você vai me dizer? Você tem todo o direito de me xingar, se for necessário, quando eu merecer, porque ninguém me conhece ou se importa comigo mais do que você.”
À CNN na terça-feira, o porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, defendeu Harp como “uma das assessoras mais leais e dedicadas da equipe do presidente Trump”. A declaração não foi feita especificamente em resposta a perguntas sobre as cartas.
A CNN entrou em contato com a Casa Branca para solicitar comentários sobre as cartas. A CNN não confirmou de forma independente se Natalie Harp escreveu ou enviou essas cartas ao presidente.

