Araras, papagaios, periquitos e cacatuas fazem parte do grupo dos psitacídeos, conhecido pela elevada capacidade de aprendizagem, memória e associação. Algumas dessas aves conseguem estabelecer associações entre vocalizações a objetos, cores, formas, quantidades ou situações, mas isso não significa, necessariamente, que compreendam essas vocalizações da mesma forma que os seres humanos compreendem a linguagem.
Segundo a bióloga e mestre em Botânica Joana Corbellini, não há evidências de que uma arara tenha consciência de sua própria identidade nos mesmos moldes da consciência humana. Quando uma ave parece corrigir alguém que a chama de “papagaio”, por exemplo, o comportamento pode estar relacionado à sua capacidade de aprender e associar determinadas palavras a situações específicas.
Ao contrário dos seres humanos, que produzem a voz principalmente por meio das pregas vocais, as aves utilizam uma estrutura chamada siringe, localizada na bifurcação da traqueia, onde ela se divide em dois brônquios. Nos psitacídeos, movimentos precisos do bico, da língua e de outras estruturas envolvidas na vocalização permitem modificar os sons e reproduzir padrões semelhantes aos da fala humana, incluindo ritmo e variações de frequência.
Por que algumas parecem “conversar” com seus tutores?
A explicação também passa pela vida social desses animais. Na natureza, araras e papagaios utilizam vocalizações para manter contato e interagir com outros indivíduos. Quando vivem em ambientes domésticos, os seres humanos passam a fazer parte desse grupo social.
Assim, a ave pode aprender que determinadas vocalizações provocam respostas, como atenção, interação ou alimento. Isso ajuda a explicar comportamentos como dizer “oi” quando alguém chega, chamar uma determinada pessoa ou repetir sons que provocam alguma reação.
A capacidade de aprender e interagir com humanos pode tornar as araras fascinantes, mas também também ajuda a explicar por que a criação dessas aves em ambientes domésticos exige condições específicas e não é adequada à maioria das residências. Araras são animais silvestres e precisam de espaço para movimentação, interação social, enriquecimento ambiental, estímulos cognitivos e alimentação específica.
Quando mantidas em ambientes pouco estimulantes, submetidas a confinamento prolongado ou sem interação adequada, podem apresentar alterações comportamentais, como agressividade e vocalização excessiva. Também podem desenvolver comportamentos como arrancar as próprias penas, situação que pode ter diferentes causas e requer avaliação veterinária.
No Brasil, a captura de animais silvestres diretamente da natureza para mantê-los como animais de estimação é proibida, salvo nas hipóteses previstas em lei. Em caso de aquisição legal, é necessário verificar a procedência do animal e a documentação exigida.
A capacidade de imitar a fala humana pode ser fascinante, mas representa apenas uma pequena parte da biologia desses animais. Antes de querer uma arara em casa, é preciso compreender que se trata de uma ave silvestre altamente social, longeva e cognitivamente complexa, cujas necessidades dificilmente são atendidas adequadamente em uma residência convencional.
*Sob supervisão de Manuella Dal Mas

