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Escolas afetadas por terremoto na Colômbia revelam desigualdade histórica

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Escolas afetadas por terremoto na Colômbia revelam desigualdade histórica

O rastro das múltiplas emergências desencadeadas pelo terremoto na Colômbia, entre o número de mortos e de casas desabadas, tem uma estatística que impressiona por sua dimensão e pelo efeito sobre os mais vulneráveis: os mais de 3.400 centros educacionais afetados, escolas e colégios que servem de abrigo e acolhimento para crianças e que sofreram mais danos nas zonas rurais mais necessitadas.

Em sua visita a Quibdó, uma das capitais departamentais mais afetadas do país, a cantora Shakira prometeu reconstruir a Universidade Tecnológica de Chocó e construir 10 novas escolas, e comprometeu várias organizações a doar fundos para os centros educacionais.

Ela explicou que o que mais a preocupa é que, após o estado de emergência, “tantas pessoas fiquem no esquecimento e desabrigadas, e nossas crianças não possam voltar à escola”.

A cantora deu ênfase a uma das zonas mais desfavorecidas do país, com desigualdades históricas que poderiam se aprofundar com o desastre natural.

“Existe uma grande lacuna entre a infraestrutura rural e a urbana”, explicou à CNN Ricardo Bonett, doutor em engenharia sísmica e professor da Universidade de Medellín, coautor de estudos sobre o risco nas escolas.

“Uma grande porcentagem dos centros educacionais rurais foi projetada e construída sem cumprir os requisitos das normas vigentes de projeto sismo-resistente nem sob a supervisão técnica de um profissional com as devidas competências”, revisou.

O pesquisador destacou também o desafio que o terreno apresenta desde antes da obra.

“Muitas das escolas foram construídas em zonas instáveis do ponto de vista geológico ou sob a ameaça de outros fenômenos, tais como vendavais, movimentos de massa ou enxurradas. O estado prévio de muitas destas escolas rurais é deficiente por problemas não apenas da forma como foram construídas, mas por condições adversas do terreno onde foram construídas e pela ausência de uma manutenção preventiva”, explicou.

O Ministério da Educação anunciou uma diretriz com orientações “para a proteção da comunidade educativa e a continuidade na prestação do serviço”, com medidas como planos de virtualidade, primeiros socorros psicológicos e um programa para a aquisição de tablets.

FOTOS: Veja imagens da destruição causada por terremoto de 7,4 na Colômbia

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    Prédio desaba após terremoto de magnitude 7,4 na Colômbia • REUTERS

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    Uma mulher ora enquanto pessoas se reúnem do lado de fora de um prédio após um terremoto em Bogotá, na Colômbia • REUTERS

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    Edifício colapsa em Cali após terremoto na Colômbia • REUTERS

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    Danos causados em Cali pelo terremoto • REUTERS

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    Danos em um prédio em Cali após terremoto de magnitude 7,4 na Colômbia

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    Edifício desaba parcialmente após terremoto • REUTERS

No entanto, nem todas as medidas são igualmente aplicáveis no território nacional, especialmente em zonas de baixa conectividade e que também foram afetadas no fornecimento de energia elétrica.

As autoridades confirmaram que mais de 400 mil estudantes têm sua matrícula afetada. Dezenas de milhares não sabem quando voltarão às aulas. O número é preocupante, disse à CNN María Mercedes Liévano, diretora executiva da ONG Save The Children na Colômbia.

“Quando se perde a escola como espaço seguro, é isso que temos que garantir: que a tragédia não interrompa o acesso seguro à educação. Têm que recuperar rotinas, sentir segurança. É triste que sejam tantas sedes educativas (afetadas), são tristes as condições em que estavam”, comentou.

A Colômbia tem mais de 56 mil edifícios escolares e 82% estão em zonas rurais, segundo dados do Departamento Administrativo Nacional de Estatística. Assim, dezenas de milhares de edificações estão distantes dos grandes centros urbanos, o que dificulta as tarefas de inspeção, manutenção e reforço.

“Apesar de a lei obrigar a redução da vulnerabilidade das edificações, isso não é feito rapidamente. Demanda recursos e eles não existem”, disse à CNN Gilberto Areiza, presidente da Associação Colombiana de Engenharia Sísmica.

O especialista explicou que, entre as quatro categorias de emergências, os hospitais estão entre as edificações indispensáveis para o atendimento de emergência e sua função não pode ser transferida, mas as escolas estão no nível seguinte, a categoria três.

“São as que deveriam sofrer intervenção prioritariamente e ter um nível adequado de resistência, porque muitas vão servir como abrigos. Embora isso esteja na norma, é necessário dinheiro para adequá-las”, reiterou.

Ele também concordou que a problemática se acentua com a geografia: “Nos municípios pequenos, as coisas são piores.”

Um estudo publicado na revista Structures em 2025 analisou 100 escolas rurais do departamento de Antioquia e identificou que um em cada sete centros estudados tinha construção não engenheirada.

Outra pesquisa na qual Bonett também participou descobriu que a pobreza e a geografia têm uma correlação ainda maior do que a fragilidade das paredes ou as características do terreno: as escolas com maior risco sísmico concentram-se nas zonas com índices mais altos de pobreza multidimensional e com problemáticas vinculadas ao conflito armado.

“A capacidade das comunidades para resistir e se recuperar dos desastres pode ser tão determinante quanto a própria intensidade do risco físico”, apontou o estudo, realizado como parte do Projeto de Escolas Rurais Seguras.

“Percorremos durante os últimos anos centenas de escolas rurais do país e, em todas elas, pudemos constatar que apresentam níveis importantes de deterioração mesmo sem ter sofrido um sismo”, disse Bonett.

Enquanto isso, Areiza indicou que desde o ano passado especialistas estão dedicados à atualização das normas sísmicas, que estão há 16 anos sem ser revisadas, acima do que considera adequado, já que afirmou que o ideal seria a cada seis ou sete anos.

O engenheiro acrescentou que, nas últimas semanas, em razão do duplo terremoto de junho na Venezuela, havia participado de painéis de discussão nos quais enfatizou a necessidade de investimento em hospitais e estabelecimentos de ensino públicos.

“As escolas são o futuro do país. Não podemos nos dar ao luxo de ter falecidos e que sejam crianças. Claro que é triste que uma pessoa de 70 anos faleça, mas me parte o alma se morre uma criança. Mais ainda se morre por um desabamento em uma escola, como podemos dormir tranquilos?”, perguntou.

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