A ligação telefônica de mais de uma hora entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos foi avaliada como um sinal positivo em meio a um período de tensões bilaterais. Josemar Franco, gerente de comércio internacional da BMJ, analisou ao CNN 360° o significado da conversa e suas possíveis implicações para a relação entre os dois países.
Para Franco, o contato de alto nível é especialmente relevante no atual contexto. “Nós estamos passando por um momento de entraves na relação bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos e nós sabemos que esse contato de alto nível com a administração Trump é muito importante”, afirmou o especialista.
Segundo ele, a chamada pode destravar conversas técnicas que foram encerradas após a aplicação de novas tarifas norte-americanas contra o Brasil, tanto no âmbito de investigações específicas quanto em medidas que afetaram outros mercados.
Impacto das tarifas e perspectivas de negociação
Franco destacou que diversos setores da economia brasileira já foram afetados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos, embora uma lista de exceções tenha beneficiado segmentos importantes do agronegócio e da indústria.
Para os setores que ainda sofrem com as restrições, uma reabertura do diálogo representa a possibilidade de alívio.
“Essa nova aproximação do governo brasileiro com o governo norte-americano pode representar, sim, uma ampliação desse canal de diálogo e uma possibilidade tanto de uma revogação dessas tarifas, mas também, quem sabe, uma ampliação da lista de exceções”, disse.
O especialista também apontou que, apesar de um forte viés ideológico na atual administração norte-americana, ainda é possível construir uma via de diálogo mais técnica. Ele citou o exemplo do Canadá, que conseguiu avançar nas negociações ao apresentar concessões comerciais mais estruturadas, fugindo das pressões políticas.
“É necessário que o governo brasileiro busque sim criar essa via do diálogo mais técnica para fugir de questões tão políticas como são as críticas feitas ao STF e a outras políticas públicas brasileiras”, ressaltou Franco.
Minerais críticos como trunfo estratégico
Além das tarifas, Franco destacou o papel estratégico dos minerais críticos na relação bilateral. Segundo ele, o Brasil detém algumas das maiores reservas mundiais nessa área, o que o coloca em posição privilegiada nas negociações com os Estados Unidos.
“Os Estados Unidos têm completa noção da essencialidade que é o Brasil nessa discussão e não quer depender tanto dos chineses”, afirmou.
O especialista acrescentou que Washington observa com receio a presença chinesa no Brasil, especialmente no setor de minerais críticos, o que abre oportunidades para ampliar investimentos norte-americanos no país.
Franco também mencionou que outros temas discutidos na ligação — como facções criminosas, conflitos no Oriente Médio e a guerra entre Rússia e Ucrânia — podem contribuir para melhorar o cenário bilateral caso o Brasil sinalize positivamente em relação às demandas norte-americanas.
No entanto, o especialista ponderou que, diante do período eleitoral tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, grandes movimentações são pouco prováveis no curto prazo.
“Encontrar um caminho técnico de cooperação nesse tema vai ser fundamental para destravar essas tensões bilaterais”, concluiu.

