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Hikikomori: quando ficar em casa deixa de ser uma escolha saudável

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Hikikomori: quando ficar em casa deixa de ser uma escolha saudável

Durante muito tempo, passar o fim de semana em casa, sem nenhum plano de sair, era apenas questão de preferência. Hoje, esse hábito parece ter virado rotina de uma geração inteira: levantamentos recentes mostram a Geração Z como uma das mais reclusas e solitárias da história moderna.

É nesse cenário que psicólogos vêm recorrendo ao termo hikikomori — cunhado no Japão para descrever jovens que se isolam completamente em seus quartos por seis meses ou mais —, para nomear casos graves de isolamento social, impulsionados pela dependência extrema da internet, ansiedade e fobia social pós-pandemia.

Mas há uma diferença importante entre o quadro extremo e o comportamento que começa a chamar a atenção de especialistas no Brasil. Enquanto o hikikomori envolve reclusão social quase total e prolongada, evitar encontros presenciais ou resolver quase tudo pela tela pode representar apenas uma mudança no modo de se relacionar.

Para Ticiana Paiva, doutora em Psicologia e head da área na Starbem, plataforma de saúde digital, a diferença é essa: isolamento não é, por si só, o problema. O alerta vem quando ficar em casa deixa de ser escolha e vira fuga de situações que geram ansiedade, desconforto ou medo da rejeição.

Para a especialista com expertise de quase 20 anos em saúde mental aplicada, “o hikikomori, da forma como foi descrito no Japão, ainda é um quadro relativamente raro. Mas o comportamento que está na base dele já faz parte da nossa realidade”, alerta.

Por que o isolamento social está virando hábito entre a Geração Z?

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A tecnologia aproxima as telas, mas pode afastar as pessoas • Lookstudio/Magnific

A pandemia acelerou mudanças que já estavam em curso, segundo Paiva. Na avaliação da psicóloga, ficar em casa deixou de ser uma exceção e passou a ser uma escolha socialmente mais aceita, reduzindo o estranhamento diante de jovens que preferem evitar encontros e atividades presenciais.

Um estudo publicado em 2025 na Scientific Reports dá números a essa mudança. Ao comparar adolescentes italianos antes e depois da pandemia, pesquisadores encontraram queda de 14% no lazer presencial com amigos e aumento de 9,7% nas interações online. O grupo classificado como “Lobos Solitários” cresceu de 15,8% em 2019 para 39,4% em 2022.

Para Paiva, há um paradoxo por trás desse quadro: “conexão não é sinônimo de vínculo“. As redes sociais mantêm os jovens conectados o tempo todo, mas não ensinam o que só a convivência presencial desenvolve — lidar com o silêncio, interpretar expressões, sustentar uma conversa difícil e construir intimidade real.

O ambiente digital oferece um nível de controle inexistente nas relações presenciais: “você escolhe quando responde, edita o que vai dizer e pode simplesmente desaparecer da conversa”, explica a psicóloga. Entre os sinais de alerta estão recusa em atividades presenciais, abandono de hobbies, afastamento de amigos e alteração do sono.

Quando o isolamento deixa de ser saudável — e o que fazer?

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Quando o isolamento deixa de ser uma escolha, começa a afetar o bem-estar e a vida social • Magnific

“A pergunta não é quanto tempo o jovem passa em casa. A pergunta é: o que esse isolamento está custando?”, resume Paiva. Para a psicóloga, o principal critério é o impacto sobre a vida: estudos, trabalho, relações familiares, amizades e atividades que antes faziam parte da rotina.

Gostar de ficar em casa, por si só, não indica um problema de saúde mental. A preocupação surge quando a reclusão começa a funcionar como uma forma de evitar situações desconfortáveis e, aos poucos, reduz as possibilidades de convivência. A diferença está menos no tempo isolado do que no prejuízo causado.

Quando o isolamento compromete estudos, trabalho ou relações, buscar ajuda psicológica é importante. O comportamento pode estar associado a ansiedade, medo de rejeição ou dificuldade de lidar com situações sociais. Nesses casos, o acompanhamento profissional ajuda a identificar as causas e encontrar formas de retomar gradualmente a convivência.

Sem estatísticas nacionais consolidadas, o Brasil ainda depende de relatos clínicos para dimensionar o fenômeno. “O isolamento saudável restaura. O isolamento que preocupa empobrece a vida, reduz as possibilidades de encontro e, aos poucos, faz o mundo da pessoa ficar cada vez menor. Esse é o momento de buscar ajuda”, conclui Ticiana.

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