O presidente americano, Donald Trump, afirmou que pretende se encontrar com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, ainda este ano. A declaração foi feita nesta quarta-feira (19) e veio acompanhada de uma justificativa inusitada: segundo Trump, “é bom manter uma boa relação, porque a Coreia do Norte tem armas nucleares poderosas”. O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna comentou o tema ao CNN Prime Time.
O aceno ocorre em um contexto mais amplo de aproximação entre os dois líderes. Recentemente, Trump também reduziu o escopo dos exercícios militares conjuntos realizados com a Coreia do Sul, afirmando que tais exercícios passam um sinal hostil à Coreia do Norte.
Essa prática, tradicional entre os dois países aliados, existe há muitos anos com o objetivo de garantir a defesa da região.
Motivação eleitoral por trás do aceno
Para o analista de Internacional Lourival Sant’Anna, a movimentação de Trump tem uma motivação clara: “Ele considera que pode fazer algum anúncio positivo antes da eleição de meio de mandato, no dia 3 de novembro, já que fracassou nas suas políticas externas.”
Sant’Anna citou como exemplos de insucesso a guerra do Irã, descrita como “muito impopular”, a situação na Venezuela, que “não trouxe frutos”, e o agravamento do cenário na Faixa de Gaza.
Segundo o analista, os objetivos concretos de um eventual encontro poderiam incluir o anúncio de negociações para suspender a fabricação de ogivas nucleares ou os testes de mísseis norte-coreanos — que sobrevoam o território japonês e geram tensão também na Coreia do Sul.
Além disso, Sant’Anna destacou que Trump gasta em torno de US$ 6 bilhões por ano com a presença militar na Península da Coreia, e uma aproximação com Pyongyang poderia abrir caminho para reduzir esses gastos.
Tentativa de afastar Coreia do Norte da Rússia e da China
Sant’Anna apontou ainda outro objetivo estratégico por trás da iniciativa: “Tentar atrair a Coreia do Norte um pouco mais distante da esfera da Rússia”, com a qual Pyongyang mantém, nas palavras do analista, “uma relação umbilical no campo militar”, enviando dezenas de milhares de soldados para a guerra com a Ucrânia e recebendo tecnologia e apoio militar russo.
A Coreia do Norte também possui laços estreitos com a China no campo econômico.
Para o analista, Trump se inspira nas triangulações diplomáticas feitas por Richard Nixon com a China nos anos 1970, tendo Nixon como modelo de estadista. “É uma fruta que ele acha que pode estar fácil de alcançar”, resumiu Sant’Anna.
Encontros anteriores sem resultados concretos
Se o encontro se confirmar, será o quarto entre Trump e Kim Jong-un. Os dois se conheceram durante o primeiro mandato de Trump, e o último encontro ocorreu em 2019, ocasião em que Trump se tornou o primeiro líder dos Estados Unidos a pisar em solo norte-coreano.
O primeiro encontro, realizado em Singapura em 2018, não produziu resultados práticos. Segundo Sant’Anna, isso se deveu à postura maximalista americana na época, que exigia a desnuclearização completa da Coreia do Norte, posição influenciada pelo então conselheiro de Segurança Nacional John Bolton.
Desta vez, o cenário seria diferente. “Agora não tem mais John Bolton, o grupo de defesa é bastante obediente ao Trump”, observou o analista, citando nomes como Marco Rubio e Pete Hegseth.
Sant’Anna destacou ainda que Trump já passou a se referir à Coreia do Norte como uma potência nuclear, aceitando esse fato como consumado — o que, segundo ele, tornaria as negociações mais viáveis.

