A integração entre os líderes em produção de café e a troca de conhecimento entre diferentes origens ganham importância diante de um mercado pressionado por mudanças climáticas, novas exigências dos consumidores e um ambiente geopolítico mais fragmentado.
É este tom que especialistas de café veem como solução para driblar um “novo normal”: barreiras tarifárias e fitossanitárias determinando fluxos de comércio global. A discussão vai além da competitividade comercial: passa pela capacidade de manter a produção, ampliar a eficiência da cadeia e contribuir para a segurança alimentar global, afirmam representantes do setor ao CNN Agro.
Brasil, Vietnã e Colômbia, três dos principais produtores mundiais de café, estarão representados no Vitória Coffee Summit, que começa nesta quinta-feira (20), em Vitória (ES). A proposta é aproximar experiências de países que disputam espaço no comércio internacional, mas enfrentam desafios comuns e podem encontrar na cooperação respostas para um cenário cada vez mais complexo.
Para Fabrício Tristão, presidente do CCCV (Centro do Comércio de Café de Vitória), as transformações nas relações comerciais e nas exigências dos mercados tornaram insuficiente uma estratégia baseada apenas nas vantagens individuais de cada origem.
“Não há uma concorrência entre as origens. Eles também têm seus problemas e o Brasil tem soluções que eles não têm. Precisamos capturar dessas origens suas capacidades e qualidades”, afirma.
Segundo Tristão, existe hoje conhecimento disperso entre diferentes regiões produtoras que pode ajudar o setor a construir uma visão mais precisa sobre os próximos anos da cafeicultura.
“Precisamos nos apropriar melhor desse conhecimento para fazer uma leitura mais precisa sobre o futuro do café. Sozinho não vamos conseguir. Apesar de o Brasil ser o maior produtor e exportador de café do mundo, precisamos olhar para nossos pares, para suas experiências, para fazer uma leitura mais assertiva”, diz.
O debate ganha relevância em um momento no qual a cadeia enfrenta simultaneamente eventos climáticos mais extremos, alterações nos padrões de consumo, exigências ambientais e fitossanitárias e novas barreiras comerciais.
Na avaliação dos organizadores, a capacidade de compartilhar tecnologias, modelos produtivos e estratégias de mercado pode ajudar as principais origens a preservar a oferta mundial de café no longo prazo.
É nesse contexto que o Summit foi estruturado sobre três eixos — origem, mercado e futuro, conta o curador técnico Marcus Magalhães.
Ele avalia que o aumento de tarifas e de barreiras comerciais representa um risco especialmente sensível quando envolve produtos agrícolas e alimentos.
“O melhor dos mundos é quando temos o multilateralismo presente, especialmente quando se trata de agro e quando se trata de alimentação”, afirma Magalhães.
Para ele, barreiras comerciais podem fazer parte das relações entre países, mas sua aplicação sobre produtos agrícolas exige cautela justamente pela importância da produção e do comércio internacional para o abastecimento.
“Tarifas para o agro não conversam com esse cenário. O bom senso é o caminho que temos pela frente”, enfatiza. Na avaliação do especialista, o acesso à alimentação também está diretamente relacionado à estabilidade das sociedades. “Barreiras podem existir, mas, com o agro, não vale a pena.”
Nesse ambiente, a integração proposta pelo encontro também busca deslocar a relação entre grandes produtores de uma lógica exclusivamente concorrencial para uma visão de complementaridade.
Brasil, Vietnã e Colômbia possuem sistemas produtivos, variedades, condições climáticas e estratégias comerciais distintas, o que amplia o espaço para intercâmbio de experiências.
Espírito Santo quer fortalecer identidade do café
O Espírito Santo será apresentado como um dos estudos de caso dessa transformação, especialmente pelo avanço da cafeicultura de conilon, pela adoção de tecnologia e pelas iniciativas ligadas à sustentabilidade.
No caso do estado capixaba, porém, a integração internacional também traz outro desafio: comunicar melhor ao consumidor o avanço da cafeicultura local.
Magalhães avalia que o estado precisa transformar suas características produtivas e sua evolução tecnológica em uma narrativa capaz de agregar valor ao produto.
“No caso específico do café do Espírito Santo, precisamos ter uma narrativa melhor, roteirizar o nosso negócio e, com isso, atrair novos consumidores do Brasil e do mundo. O mundo precisa entender quem é o capixaba, entender esse café e colocar um carimbo nesse produto”, afirma.
Segundo ele, um dos principais recados que o encontro pretende deixar é justamente a necessidade de aproximar produção e consumidor. “Precisamos contar melhor essa história.”
O Vitória Coffee Summit será realizado nos dias 20 e 21 de agosto, no Cais das Artes, em Vitória. Promovido pelo Centro do Comércio de Café de Vitória, que completa 80 anos, o encontro reunirá produtores, cooperativas, exportadores, indústrias, instituições financeiras, pesquisadores e representantes de algumas das principais origens produtoras e consumidoras de café do mundo.

