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IA e TikTok estão comprometendo preparo real para vestibular e Enem

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
IA e TikTok estão comprometendo preparo real para vestibular e Enem

Com a proximidade da volta às aulas em grande parte das escolas do Brasil, professores retomam o semestre com uma preocupação a mais: o uso indiscriminado de inteligência artificial e vídeos curtos pode estar prejudicando o desempenho de quem se prepara para o Enem e para vestibulares.

Segundo coordenadores pedagógicos, o problema não está na tecnologia em si, mas no hábito de trocar o esforço de raciocínio por respostas já prontas como fórmulas de matemática popularizadas no TikTok, redações formatadas por IA e decorebas treinadas sem compreensão real.

O comportamento — que cria uma falsa sensação de domínio do conteúdo — se intensificou, conforme professores, com a disseminação de assistentes de IA generativa e pode estar causando uma mudança na forma de estudar para o Enem e os vestibulares tradicionais.

Para alguns educadores, o fenômeno pode estar associado a um quadro mais amplo de sobrecarga cognitiva e fadiga digital: o acesso constante a estímulos rápidos nas telas reduz a tolerância a tarefas que exigem concentração prolongada, como ler textos longos ou resolver problemas em várias etapas.

O problema fica mais evidente nas questões discursivas e na redação, etapas em que não basta reconhecer uma resposta certa: é preciso construir argumentação própria. Sem prática de escrita e raciocínio autônomo, aqueles que dependem de atalhos tendem a apresentar textos rasos ou fora do tema proposto.

O que as pesquisas dizem sobre IA, vídeos curtos e aprendizagem?

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Na “miragem da falsa maestria”, os estudantes podem confundir o desempenho em uma tarefa com o aprendizado real. • Magnific

O fenômeno — descrito por psicólogos como terceirização cognitiva — envolve delegar a uma ferramenta externa etapas do pensamento que deveriam ser exercitadas internamente. Nas provas com alta exigência interpretativa, a gambiarra compromete justamente a capacidade de reagir a enunciados para os quais não existe um modelo pronto para copiar.

O Digital Education Outlook 2026, relatório da OCDE publicado no início deste ano, batizou essa tendência como “miragem da falsa maestria”: como a IA entrega um resultado final polido e de alta qualidade, o estudante pode confundir o desempenho em uma tarefa com o aprendizado real.

Na prática, ele “pula” etapas cognitivas essenciais — como organizar ideias, testar hipóteses e construir argumentos — e passa a terceirizar o esforço intelectual. Em estudo com mais de mil estudantes do ensino médio na Turquia, publicado na revista PNAS, grupos com acesso irrestrito à IA tiveram desempenho até 48% superior em exercícios, mas caíram 17% abaixo no exame final.

Já o grupo que usou uma versão da ferramenta com barreiras pedagógicas — orientada a dar dicas em vez de respostas prontas — chegou a 127% de melhora na prática sem apresentar essa queda, um indício de que o uso guiado da IA preserva o aprendizado que o acesso livre compromete.

Revisões recentes da literatura sobre vídeos curtos apontam associação entre uso intenso de plataformas como TikTok e Reels e pior desempenho acadêmico, geralmente relacionado à redução da atenção sustentada — a habilidade mais exigida em provas longas, como o Enem.

Como equilibrar tecnologia e aprendizagem real na reta final?

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Com mediação do professor, o uso da tecnologia na reta final favorece compreensão ativa — não apenas respostas prontas. • Pch.Vector/Magnific

Para Denise Canal, diretora geral da Rede Santa Catarina, o grande desafio não é restringir o uso da IA, mas ensinar o estudante a utilizá-la. “Ela pode ser uma excelente ferramenta para aprofundar conhecimentos e organizar os estudos. O problema surge quando substitui o esforço intelectual”, afirma a executiva em um comunicado.

Nesse contexto, abordagens pedagógicas baseadas em metodologias ativas têm ganhado espaço. Elas estimulam o aluno a deixar de ser apenas receptor de conteúdo e assumir um papel mais participativo no processo: investigando problemas, testando hipóteses e aplicando o conhecimento em diferentes situações.

A solução não passa pelo abandono da tecnologia, dizem os especialistas. É possível, sim, usar IA e vídeos curtos como apoio pontual, associados à prática regular de exercícios sem consulta, revisão de erros e produção de textos autorais — atividades que obrigam o cérebro a reconstruir o raciocínio em vez de achá-lo já pronto.

“Nossa preocupação não é competir com a inteligência artificial, mas formar estudantes capazes de fazer perguntas melhores, avaliar criticamente as respostas e construir conhecimento de forma autônoma”, resume Canal. Para ela, a tecnologia não ensina sozinha: só ajuda de verdade quando usada com intencionalidade pedagógica.

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