Dados da Receita Federal mostram que há um aumento exponencial de apreensões de canetas, seringas e frascos com semaglutida e tirzepatida na fronteira do Brasil com o Paraguai, em Foz do Iguaçu, no Paraná.
Mais de 76 mil unidades foram apreendidas no primeiro semestre de 2026, enquanto em 2025 a Receita capturou 24 mil medicamentos.
Da pouca demanda ao lucro bilionário em um ano
A fronteira entre Brasil e Paraguai, via Ponte da Amizade entre as cidades de Foz do Iguaçu em Cidade do Leste, é tradicionalmente conhecida como uma das principais portas de entrada para o contrabando de cigarros, eletrônicos, armas e, agora, de medicamentos para emagrecer.
Segundo a Receita Federal, o preço médio de uma ampola de tirzepatida, remédio para o tratamento de diabetes tipo 2 e amplamente usado para emagrecimento, é de R$ 340 no país vizinho. É um valor muito distante do Mounjaro, que é encontrado a partir de R$ 1.400 no Brasil.
Além do preço, o Mounjaro tem a venda regularizada no Brasil, enquanto as marcas paraguaias não são autorizadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Em janeiro e fevereiro de 2025, as apreensões de canetas emagrecedoras eram tão baixas que os itens sequer tinham um registro único de captura das autoridades brasileiras. Porém, a Receita percebeu que houve um crescimento na procura pelos itens a partir dali.
O primeiro grande confisco foi em março de 2025, no valor de R$ 2.262,45. Em dezembro houve um aumento de 1.136% em apreensões na comparação entre março e dezembro daquele ano, com a maior apreensão do ano sendo de R$ 2.796.198,34.
Foram 24.994 medicamentos apreendidos no total do ano passado.
Flávio Bernardino de Carvalho, auditor fiscal da Receita Federal, avalia que é preciso intensificar as prisões e condenações pelo contrabando, além de estender a fiscalização da fronteira até para redes sociais, onde a publicidade do medicamento é livre e até sugestões de como transportar o medicamento entre as fronteiras são dadas por usuários.
“Vem ônibus de linha, carros, caminhão de empresas de market place, vem turistas. Tudo quanto é forma. Tem o crime organizado e pessoas avulsas. É muito pulverizado”, diz o auditor. “Os emagrecedores peptídicos, pelo menos aqui na Receita Federal da 9º regional do Paraná e Santa Catarina, é o segundo no valor de apreensões. Só estão atrás dos celulares”, completa.
E, se há oferta, há demanda. Não é preciso receita médica para comprar semaglutida e tirzepatida no Paraguai e o valor do medicamento é quatro vezes menor. No Paraguai, a propaganda está espalhada em todo comércio da Cidade do Leste para a venda dos produtos. Como consequência, o mercado do medicamento ilegal no Brasil está completamente aquecido.
As apreensões no primeiro semestre deste ano foram de 76.112 canetas e ampolas pela Receita Federal na fronteira, com valor estimado em R$ 19.532.406,07.
O recorde deste ano foi no mês de junho, com 25.828 apreensões com custo de R$ 4.296.662,15.
Criatividade criminosa
As rotas ilegais com barcos que atravessam o Rio Paraná são usadas por contrabandistas, mas é na ponte que está o foco de apreensões da Receita Federal. A entidade estima que, em momentos de pico, mais de 100 mil pessoas e 45 mil veículos cruzam a ponte que liga os dois países por dia.
Para driblar as autoridades, os traficantes abusam da criatividade e negligenciam a refrigeração necessária para preservar as canetas emagrecedoras.
A Receita Federal já registrou a apreensão de medicamentos dentro de frasco de shampoo, embalagem de gel de massagem, solado de tênis e nos espaços vazios da carroceria de veículos.
Veja:
Todo mundo quer emagrecer
As canetas emagrecedoras são uma febre no Brasil. Um levantamento feito pela Serasa Experian mostra que os pedidos online de medicamentos associados ao GLP-1, amplamente usados para emagrecimento, cresceram 149,3% no primeiro semestre de 2026.
No semestre anterior foram 547.249. Entre janeiro e junho de 2026 as solicitações subiram para 1.364.354 com valores somados em mais de R$ 2,3 bilhões.
Já o estudo “Saúde em risco na era digital: desinformação, automedicação e busca por canetas emagrecedoras não autorizados no Brasil”, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva e produzido no Nechs, o Núcleo de Estudos em Comunicação, História e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, apontou um aumento no número de buscas pelos produtos sem registro sanitário no Brasil. Entre eles estão produtos como o TG, Tirzec, Lipoless, Lipoland e Retatrutida.
Houve um aumento no interesse nas buscas feitas pelo Google em 6,29% entre maio de 2025 e maio de 2026.
O auditor da Receita Federal, Flávio Bernardino de Carvalho, pondera que uma possível quebra da patente da tirzepatida no futuro poderá reduzir o interesse pelo produto do país vizinho, assim como aconteceu em 2025 com a semaglutida.
“Quando houve a quebra da patente dos estimulantes sexuais, as vendas no Paraguai caíram muito e hoje quase não se vende o produto por lá. Vale mais a pena comprar de uma fonte confiável no Brasil. O mesmo pode acontecer com a tirzepatida”, afirma.
Os emagrecedores são produzidos no Paraguai, mas não tem autorização para venda no Brasil.
O contrabando de medicamentos não autorizados em solo brasileiro é considerado crime contra a saúde pública previsto no Código Penal com reclusão de 10 a 15 anos e pagamento de multa segundo o artigo 273 do CP.

