O interceptador Patriot, de fabricação americana, está no centro de uma escassez global de suprimentos, enquanto dezenas de países correm para reforçar seus sistemas de defesa.
É a arma mais cobiçada do mundo, mas permanece parada em um milharal, com seus tubos de lançamento vazios e tendo sido disparada pela última vez há 10 semanas.
É uma das poucas armas capazes de abater mísseis balísticos, seja na região do Golfo, assolada pela guerra com o Irã, ou, especialmente, aqui na Ucrânia, devastada pela onda de ataques quase diários de Moscou, que tornaram julho o mês mais letal para civis desde maio de 2022.
A CNN foi o primeiro veículo de imprensa a ter acesso a um Patriot em território ucraniano, permitindo que autoridades do país revelassem um fato: os estoques de interceptadores estão praticamente esgotados. A reportagem concordou em não divulgar detalhes sobre o modelo ou sua localização.
Os 16 tubos do sistema, vistos pela CNN, apresentam sinais de uso frequente, mas o engenheiro-chefe na Ucrânia — que, por razões de segurança, informou apenas seu primeiro nome, Dmytro — disse não ter visto um lançador Patriot disparar nas últimas seis semanas. A Ucrânia tem relutado em especificar exatamente quantos interceptadores ainda possui, se é que restou algum; o presidente Volodymyr Zelensky afirma que o país precisa de 5% do estoque dos EUA para sobreviver ao inverno, mas atualmente conta com apenas 1%.
“É uma cena realmente de partir o coração: você tem o equipamento, mas não consegue interceptar nenhum míssil”, disse Dmytro, visivelmente emocionado. “Mísseis balísticos passam sobre a sua cabeça e você não pode fazer nada a respeito, enquanto, atrás de você, há civis.”
A primeira vez que ele ficou sem interceptadores para disparar foi em dezembro de 2025. “É difícil descrever — são sentimentos intensos e ruins”, disse ele. “É como aprender a andar, mas não conseguir andar. Saber respirar, mas não conseguir respirar.”
O lançador em si faz parte de um sistema complexo de radares e centros de controle e é operado remotamente; os operadores da unidade ficam longe do lançador no momento do disparo. Outro membro da equipe, Heorhi, que trabalha no centro de comando, disse que a decisão sobre qual míssil interceptar “vem com a experiência” e cabe ao comandante da unidade. “É difícil, porque você vê alvos se aproximando em voo que ameaçam a população civil, a infraestrutura crítica, bem como as famílias dos meus companheiros e a minha própria família.” Ele descreveu a sensação de lançar o interceptador como “algo mágico”.
A crise global no fornecimento de interceptadores Patriot foi agravada pelo uso intensivo deles na região do Golfo, em março e abril, muitas vezes para combater ataques de drones iranianos de baixo custo.
Acredita-se que os ricos estados do Golfo tenham utilizado dezenas desses interceptadores, e Dmytro disse saber que o conflito no Oriente Médio acabaria afetando a Ucrânia. “Previmos que teríamos problemas. Ficamos muito chocados com a quantidade de mísseis que eles lançaram simultaneamente… justamente os mísseis que poderíamos usar contra mísseis balísticos russos”, disse ele.
As forças da coalizão utilizaram, em média, 225 interceptadores por dia nos primeiros quatro dias da guerra com o Irã, segundo o Instituto de Pesquisa de Política Externa. A instituição observou que a fabricante Lockheed Martin produziu 620 interceptadores em 2025 — uma média de 1,7 por dia —, resultando em uma disparidade de 132 para 1 entre o consumo e a produção. Em janeiro, o Pentágono firmou um acordo de sete anos para que a Lockheed Martin produzisse 2 mil unidades anuais até 2030; nessa altura, a guerra na Ucrânia já duraria oito anos.
Não está claro quantos interceptadores foram prometidos à Ucrânia pelos Estados Unidos, nem qual é o tamanho do estoque americano — do qual Zelensky afirmou possuir 1%.
Em entrevista à CNN, Zelensky abordou a questão complexa de a Ucrânia fabricar seus próprios interceptadores, sob licença dos EUA e de suas fabricantes, dizendo ter oferecido à Raytheon e à Lockheed Martin a propriedade e o controle de qualquer fábrica de interceptadores que elas autorizassem na Ucrânia.
“Será a empresa de vocês”, recordou-se de ter dito aos fabricantes americanos. “Serão os nossos cérebros, as nossas mãos, os nossos engenheiros. E farei o possível para construir uma grande empresa… para eles. Porque não preciso vender [os interceptadores] para mais ninguém; preciso deles para o meu país.” Ele afirmou que seu foco estava no volume de produção e que os fabricantes poderiam definir o preço.
Ele disse que, em quase cinco anos de guerra, tornou-se um especialista em saber quem possuía qual capacidade. “Conheço as capacidades de produção, as instalações, as forças militares e os estoques da maioria dos países da Europa, inclusive dos Estados Unidos. Não tudo, mas muita coisa.”
À margem da cúpula da Otan em Ancara, em junho, Trump ofereceu à Ucrânia licenças para iniciar a fabricação dos interceptadores.
A Raytheon e a Lockheed Martin viajaram a Kiev para se reunir com Zelensky e, pouco depois, Trump manifestou dúvidas sobre o prosseguimento do licenciamento.
“Quero conseguir isso”, disse Zelensky. “Acredito que a palavra dele é a palavra do presidente dos Estados Unidos. E espero conseguir.”
Em resposta à entrevista de Zelensky à CNN, uma autoridade da Casa Branca afirmou que nenhuma decisão foi tomada nem garantias foram dadas sobre a produção de interceptadores Patriot, e que a segurança da tecnologia dos EUA era uma prioridade absoluta.
Questionado pela CNN se conseguiria construir uma bateria e um interceptador Patriot imediatamente, caso tivesse permissão para ignorar questões de propriedade intelectual, Dmytro mostrou-se pessimista: “Não. Definitivamente não, porque é um processo muito complexo e exige muito conhecimento, muitas informações técnicas”.

