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O problema não é o celular: é o que acontece com você quando fica sem ele

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
O problema não é o celular: é o que acontece com você quando fica sem ele

A nossa vida passou por inúmeras transformações com a chegada das redes sociais e da necessidade de estarmos presos a mensagens. Mas, cada vez mais, as questões ligadas ao uso dessa incrível tecnologia têm sido a causa de muitos transtornos sociais, familiares e psicológicos.

Quando a conexão com o mundo vira desconexão de si

As pessoas passaram a viver numa crescente aceleração para saber e se informar sobre tudo o que acontece no mundo. Isso acaba ocorrendo, muitas vezes, de uma forma desenfreada, numa busca por informações e por estar conectado (em redes, grupos ou mídias), e a pessoa acaba se distanciando da própria conexão consigo mesma.

A força das redes sociais em atravessar barreiras geográficas nos auxilia a estarmos próximos de pessoas e lugares, o que pode ser muito importante. Esse movimento gera o sentimento de uma crença de proximidade; porém, essa também é uma situação virtual.

FOMO (“Fear Of Missing Out”), comparação e a sensação de estar sempre em alerta

Como as mídias podem impactar a nossa saúde mental? O envolvimento tão forte e intenso, do qual as pessoas não conseguem ficar longe do celular (como se este aparelho pudesse simbolizar, segundo Winnicott – psicanalista de crianças que falava sobre a necessidade de a criança ter um objeto que pudesse acompanhá-la, dando uma sensação de não sentir falta).

O que percebemos é que isso ocorre com muitos indivíduos que precisam se sentir controlando e tendo em suas mãos algo que os torne menos frágeis. Esse aparelho, além do lugar simbólico, passa a ter uma ilusão de mágico.

Surge uma necessidade enorme conhecida por FOMO (em inglês), cuja tradução seria o medo de perder algo. Esse medo, em nível emocional, passa a ser uma vivência de angústia e gera uma compulsão de querer saber e estar incluído em tudo, vivendo num estado de alerta constante.

Padrões nem sempre alcançáveis. Nós, como cuidadores de saúde mental, também estamos passando a entender, em nossos pacientes, o quanto essa dependência e a necessidade de checagem de mensagens e likes em suas postagens acaba por gerar uma sensação ilusória de que a pessoa se sente mais reassegurada.

E as questões de ver o outro com imagens melhores, viagens, vidas fabulosas também são um detonador de uma enorme comparação e de um sentimento de impotência, ativando mecanismos de depressão, seguidos de um forte sentimento de que existe um mundo maravilhoso (e eu não faço parte).

O que pode levar a uma corrida contra a pessoa e a vida que existe; pois, no Instagram, todos são perfeitos e felizes. Porque o cérebro busca sempre tentar escapar do desconforto emocional.

O ciclo da recompensa: por que é tão difícil “parar”

Vários estudos apontam que o uso excessivo de telas pode acabar por trazer alterações no funcionamento cerebral, principalmente no que se refere aos neurotransmissores. Pois eles atuam no sistema de dependência, ligados a esse mecanismo que passa a gerar uma necessidade de gratificação (visualizações).

Segundo Daniel Liberman, no seu importante livro Dopamina: a molécula do desejo, ele vai dizer que os circuitos dopaminérgicos no cérebro só podem ser estimulados pela possibilidade de algo novo e brilhante. Não importa que as coisas estejam ótimas agora. O lema da dopamina é: quero mais.

Esse desejo de cada vez mais pode ser um indicador de um nível altíssimo de dependência, viciante, que leva a um adoecimento muito grave (nos jogos, nas redes pornográficas, em sites perigosos para os adolescentes etc.).

Como lidar com os efeitos negativos das redes sociais?

Na clínica, é comum ver pacientes, cada vez mais, com necessidades de recompensas imediatas (o que gera uma sensação de desconforto constante). É como se sempre faltasse algo, seja na ansiedade de alcançar padrões e relacionamentos ideais, o que acaba gerando frustrações e a busca por mais e mais, na tentativa de preencher um vazio interno.

O filósofo Byung-Chul Han, na sua obra A sociedade do cansaço, vai nos mostrar essa necessidade de desempenho e a busca incessante pela atividade, que busca essa inesgotável atividade e não aceita limites, e que tem no excesso de positividade. Ele nos aponta que esses exageros de positividade levam a um infarto da alma.

Podemos entender que essa busca por estarmos mais e mais conectados nos transforma em melhores e mais aceitos pelos outros, mas cobra seu preço, podendo levar a um adoecimento psíquico e social, nos transformando em dependentes das telas e do mundo virtual.

Como lidar com esse adoecimento? Um dos caminhos para lidar com tantos impactos negativos, que nos transformam em viciados e escravos desse sistema, pode ser a percepção de nossas verdadeiras necessidades, que estão fortemente camufladas.

O trabalho psicoterapêutico pode ser um recurso no entendimento de quanto os excessos nos afastam de vínculos sociais e reais. E, dessa forma, com a ajuda da terapia, seja possível entrar em contato com a carência que precisa ser olhada.

Ao nos darmos conta de nossas fragilidades, poderemos entrar em contato e escutar as dores, tristezas e angústias. Acho importante ressaltar a importância que o mundo digital nos oferece: as grandes pesquisas, as informações, as facilidades que vieram para nossa vida. Porém, é preciso entender que, se a dose do remédio for excessiva, corremos o risco de adoecermos mais.

*Texto escrito pela psicóloga Dorli Kamkhagi (CRP: 1551), Head de Psicologia da Brazil Health

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