O acordo provisório de cessar-fogo firmado entre os Estados Unidos e o Irã, com prazo de 60 dias, chegou oficialmente ao fim nesta segunda-feira (17) sem que as partes tenham alcançado um entendimento definitivo para o encerramento da guerra. O presidente americano, Donald Trump, declarou que não pretende estender o memorando. A analista de Internacional da CNN Fernanda Magnotta comenta o tema.
Para Fernanda Magnotta, o encerramento do prazo representa a coroação de um cessar-fogo que já se encontrava claramente degradado, marcado por impasses cruciais envolvendo o Hamas, Israel e a dinâmica das negociações na região.
Lógica circular e o impasse diplomático
Magnotta destacou que o término do prazo sem grandes avanços já era esperado. “A diferença entre um acordo e um memorando de entendimento é justamente o grau de sofisticação do compromisso”, afirmou a analista.
Segundo ela, o processo político voltou a entrar em uma lógica circular que tem marcado toda a tentativa diplomática desde o início: cada lado exige que o outro dê o primeiro passo.
Do lado israelense, o interesse primordial tem sido a exigência do desarmamento por parte do Hamas. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sustentou que não promoverá nenhuma retirada significativa, nem iniciará a reconstrução, sem que haja um processo de desarmamento completo do grupo.
O Hamas, por sua vez, afirma que não aceitará qualquer rota de desarmamento sem que isso esteja condicionado à cessação dos ataques, à retirada israelense e às garantias de reconstrução.
Sinalização do Hamas: concessão real ou estratégia?
A analista avaliou que a disposição sinalizada pelo Hamas em aceitar o desarmamento pode ser interpretada, ao menos em parte, como uma estratégia.
Magnotta reconheceu que houve uma inflexão relevante nas negociações: até recentemente, a discussão sobre desarmamento era uma linha vermelha intransponível para o grupo.
“O fato de isso ter conseguido ganhar espaço durante a negociação já demonstra algum tipo de inflexão. Isso não é pequeno, isso não é menor”, disse ela.
No entanto, ao condicionar o desarmamento ao cumprimento das exigências israelenses, o Hamas transfere para Israel o ônus da recusa.
“No final das contas, não deixa de ser uma estratégia, porque o Hamas sempre vai poder dizer que fez uma concessão, mas que Israel não aceita esse pacote”, analisou Magnotta.
Mediadores nos Estados Unidos têm visto esse movimento do Hamas menos como uma disposição efetiva e mais como uma tentativa de testar a disposição israelense e elevar a pressão norte-americana sobre Netanyahu.
Pressão americana e perspectivas
Magnotta apontou que existe pressão de Trump sobre Netanyahu para que Israel dê o primeiro passo, mas ressaltou que a confiança é um elemento central e que a natureza das exigências permanece bastante complicada.
O enviado dos Estados Unidos, Jared Kushner, também pressionou Netanyahu a avançar com o plano de cessar-fogo em Gaza.
A analista concluiu que o cenário atual exige verificar se os Estados Unidos conseguirão fazer uma mediação eficaz para destravar o circuito que se retroalimenta há algum tempo.
“O Hamas é muito mais fraco do que Israel, Estados Unidos e os aliados, mas a capacidade de uso da força, de coerção e a rede que se construiu em torno do uso da violência é o que faz o Hamas ter voz para, em alguma medida, poder negociar”, disse Magnotta, definindo o processo como “bastante complexo”.

