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Novo livro de Carla Madeira nasceu do luto: “Criação caótica”

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Novo livro de Carla Madeira nasceu do luto: “Criação caótica”

Quem já leu algum livro de Carla Madeira sabe que a escritora possui uma sensibilidade implacável para tocar em assuntos tensos, delicados e, ao mesmo tempo, paradoxais e polêmicos. Em “Quando“, sua nova obra lançada nesta sexta-feira (14) pela Editora Record, isso não é diferente.

Assim como nos antecessores de sucesso “Tudo é Rio“, “Véspera” e “A Natureza da Mordida”, Carla traz em “Quando” personagens densos, complexos e contraditórios. O amor materno, a saudade, a espera e a identidade são elementos centrais da nova trama, assim como a violência e a homofobia no Brasil na década de 1980.

O nascimento de “Quando” ocorreu em meio a um turbilhão de sentimentos. Em entrevista à CNN Brasil, Madeira revelou que a ideia do livro surgiu durante uma fase de perdas sequenciais e luto intenso.

“Eu estava em um lugar muito difícil”, conta. “A construção de ‘Quando’ foi uma criação muito caótica nesse início e começou com uma polifonia, com uma voz de criança. Havia uma certa angústia nessa voz, como se fosse um menino que estivesse imerso em uma atmosfera que ele não compreendia, mas que o afetava”.

A polifonia é evidente em “Quando”. Com uma narrativa não-linear, formada por diferentes técnicas e múltiplos narradores — ora observador, ora onisciente e, por vezes, personagem —, a obra começa com uma mãe que denuncia um filho à polícia no calor de um acontecimento trágico em sua família, o que leva os dois a ficarem 20 anos sem se ver.

Ao longo das páginas, o leitor conhece as dores, cicatrizes, traumas, amores e desamores vividos por cada uma das pessoas envolvidas neste trágico acontecimento — ou, como Madeira define, engrama (termo usado para designar uma marca permanente deixada na psique ou no tecido nervoso de uma pessoa por traumas ou experiências intensas sofridas).

Assim como os outros livros da autora, é possível enxergar as sombras e as luzes que formam cada um dos personagens em sua complexidade, ao mesmo tempo que observamos o poder do afeto, do amor e, infelizmente, do preconceito.

“Essa polifonia, essa voz que vem de todo lugar, do presente, do futuro, do tempo, das pessoas, do pensamento, tudo isso foi meu parque de diversões. Eu realmente consegui ir para um território criativo, deixar o mundo do lado de fora, o que é algo difícil, me envolver completamente e dar conta, também, do que eu estava atravessando na minha vida”, declara Madeira.

Espera como técnica narrativa

Um livro que nasceu do luto, por óbvio, fala de luto. Mas, no caso de “Quando”, a saudade é transformada em técnica narrativa. Nos momentos em que Viridiana, personagem principal do livro, narra a espera pela chegada do filho denunciado após 20 anos sem vê-lo, o leitor se depara com um texto infinito, sem pontuação, sem travessão e sem quebra de linha.

“Quando você está esperando, não tem suspensão dessa espera. Aquilo é uma coisa constante. Você dorme, acorda, toma banho, come e faz outras coisas, mas o tempo inteiro aquela espera é um baixo contínuo, é um ruído que está ali permanente”, justifica Madeira.

E a espera também é refletida na construção dos personagens, processo que a escritora define como “uma plasticidade”. “É igual acontece na vida real. A maneira como você atua no mundo, os lugares para onde você escolhe atuar, a direção para a qual você caminha, também te faz”, analisa.

“Essa plasticidade que acontece com a gente é, mais ou menos, a pista que eu tenho do que acontece com o personagem. Se ele é capaz de fazer uma coisa, muitas vezes ele não é capaz de fazer outra. É nisso que eu vou encontrando: é tanto a contradição deles quanto aquilo que não é negociável”, afirma.

Futuro da leitura no Brasil

Para Madeira, é evidente que a inteligência artificial e as redes sociais ainda são impecilhos para atrair mais leitores no Brasil. A escritora não está errada: segundo o levantamento “Retratos da Leitura no Brasil”, produzido e distribuído pelo Instituto Pró-Livro, 81% da população do país usa o tempo livre na internet, enquanto somente 20% informam ler livros no tempo livre.

A pesquisa também confirma um cenário preocupante: pela primeira vez desde 2007, quando se deu início à série histórica, o Brasil tem mais não leitores (53%) do que leitores (47%).

“Esse não é só um problema de leitura. É um problema de emburrecimento, porque, se toda a competência de pensar está fora de mim, eu não preciso mais pensar. Toda a nossa competência está indo para fora de nós”, declara Madeira.

A escritora defende políticas mais rígidas para o uso de redes sociais e regulamentação de tecnologias como a inteligência artificial. “Esse é um problema para decidirmos coletivamente o que vamos fazer”, afirma. “É essencial incluir o nosso desejo de sermos seres pensantes, e a literatura nos dá isso. Ela vira ocasião de discussão, de estar junto, de se relacionar, de concordar e de discordar. Que maravilha!”, finaliza.

“Quando”, de Carla Madeira

“Quando”, novo livro de Carla Madeira • Divulgação
  • Páginas: 280
  • Editora: Record
  • Livro impresso: R$ 69,90

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