Quase seis meses após o início da guerra entre EUA e Irã, os estoques globais de petróleo estão diminuindo rapidamente, enquanto o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanece praticamente paralisado e as duas potências no centro das hostilidades disputam o controle dessa via navegável estratégica.
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem insistido repetidamente que o estreito — por onde o petróleo flui de países como a Arábia Saudita e o Iraque para o restante do mundo — está sob controle americano.
“Eles não têm o controle. Nós temos controle total. Nós somos os donos daquilo e, em algum momento, talvez eles façam algo e acabem sendo destruídos”, disse Trump a repórteres na quarta-feira (12).
“No momento, estamos em uma posição muito boa.” Mais cedo naquele dia, ele afirmou que a Marinha dos EUA havia varrido o estreito em busca de minas.
No entanto, o Irã afirma que não reabrirá totalmente o estreito até que os EUA atendam às suas condições.
A realidade é muito mais complexa do que a declaração de controle feita por Trump, dizem especialistas: navios temem por sua segurança em meio a ataques a embarcações no estreito, e há a ameaça constante de retomada dos ataques entre EUA e Irã.
O estreito está aberto ou fechado?
O bloqueio naval dos EUA ao Irã continua em vigor, impedindo navios de ir ou vir de qualquer porto iraniano, seja dentro ou fora do estreito. Isso sufocou o fluxo de caixa do Irã e fechou o estreito para o comércio marítimo iraniano.
Ainda há algum tráfego passando pelo Golfo Pérsico em direção a destinos não iranianos. Mas esse movimento representa apenas uma fração dos níveis anteriores à guerra. Por exemplo, apenas 14 embarcações cruzaram o estreito na terça-feira (11) — em comparação com os cerca de 120 navios que o atravessavam diariamente antes do conflito.
Isso ocorre, em grande parte, porque “poucas empresas de transporte marítimo e seus navios confiam que os EUA podem garantir uma passagem segura pelo estreito”, afirmou Carl Schuster, ex-diretor do Centro de Inteligência Conjunta do Comando do Pacífico dos EUA.
Esses receios não são infundados. Apenas na semana passada, pelo menos quatro embarcações pertencentes à Abu Dhabi National Oil Company foram atacadas por drones e mísseis no estreito, segundo a empresa.
Esses ataques elevam os custos de seguro, desencorajando ainda mais as empresas de transporte marítimo enquanto a guerra continua. Além de ataques diretos, o Irã também pode assediar navios sobrevoando-os com drones e realizando “vigilância direcionada do transporte marítimo comercial”, informou a UKMTO (Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido) em um comunicado recente.
Desde o início da guerra, houve 54 relatos de danos a embarcações no estreito — ou no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã, situados em suas extremidades —, segundo a UKMTO, um órgão vinculado à Marinha Real Britânica que monitora a segurança marítima e o transporte de cargas na região.
Também foram confirmadas três perdas totais de embarcações, informou o órgão, além de 13 ocorrências de quase colisão.
“Enquanto não se puder garantir o uso seguro do estreito, não se tem controle total”, disse Schuster.
O analista militar da CNN e coronel reformado da Força Aérea, Cedric Leighton, concordou que nenhum dos lados detém controle total no momento.
“O que temos aqui é, na verdade, um impasse”, afirmou.
“Devido à proximidade das forças dos EUA, ao bloqueio e à capacidade e disposição do Irã de, pelo menos, ameaçar o uso de minas e de pequenas embarcações para assediar navios… nenhum dos lados consegue exercer controle total sobre o estreito”, acrescentou.
Quem leva vantagem?
Tanto os EUA quanto o Irã possuem meios em seus arsenais para pressionar o outro e exercer certo controle sobre o estreito, por onde normalmente passa 20% do petróleo mundial e uma proporção ainda maior do gás natural do qual algumas nações dependem criticamente.
O Irã, situado exatamente às margens do estreito, tem a vantagem da proximidade. Também detém uma “vantagem psicológica e política”, disse Schuster, uma vez que a interrupção do tráfego marítimo lhe confere um impulso político e estratégico.
O fechamento do estreito causou transtornos às economias globais e ao setor de energia, aumentando a pressão sobre os EUA para encontrar uma solução ou garantir a passagem segura pela via navegável.
Essa pressão pode influenciar as eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro — outro fator que poderia favorecer o Irã caso o novo Congresso force Trump a encerrar a guerra em termos vantajosos para Teerã, observou Schuster.
E o Irã parece disposto a aguardar o momento certo; um conselheiro de alto escalão da Guarda Revolucionária declarou na terça-feira que o país poderia “prolongar” a guerra até que Trump deixe o cargo.
“Precisamos alcançar a capacidade de dissuasão para que o inimigo jamais ouse nos atacar, de modo que possamos viver com segurança”, disse Mohammad Reza Naqdi à PBS.
Os EUA ainda detêm uma clara vantagem militar e econômica, com pesadas sanções sobre o petróleo iraniano e o congelamento de ativos do Irã no exterior, afirmam especialistas.
No entanto, as forças militares dos EUA na região “estão, basicamente, operando no limite de sua capacidade, e já estão lá há bastante tempo”, observou Leighton.
Isso significa que os EUA precisam recompor suas forças — por exemplo, enviando um novo grupo de batalha de porta-aviões para a região — a fim de aumentar seu poder de negociação em eventuais tratativas com o Irã sobre o estreito.
Além disso, ele acrescentou: “A influência dos EUA é limitada pela sua capacidade de persistir no esforço”. Se os EUA recuarem por qualquer motivo ou afrouxarem o bloqueio, perderão poder de negociação e poderão ter menos voz sobre o futuro do estreito — incluindo quais partes o governarão e que novas regras serão impostas à navegação.
Isso coloca Trump em uma situação difícil: ele corre o risco de perder influência e ter de fazer concessões caso decida retirar-se, mas, ao mesmo tempo, sofre pressão para encerrar a guerra e aliviar o custo de vida para seu eleitorado antes de votações legislativas cruciais, segundo analistas.
Por que o Estreito de Ormuz é tão importante para a economia do mundo?

