“Bichos Escrotos” viralizou recentemente na internet após ser regravada por Anitta para a trilha sonora do longa-metragem “Corrida dos Bichos”. O single, no entanto, foi alvo de censura durante o regime militar, que governou o Brasil entre 1964 e 1985.
A repercussão do sucesso resgatou a história de censura da composição, que chegou a ser proibida antes de seu lançamento oficial, em 1986, pela banda Titãs.
Desobediência
O sucesso composto por Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Nando Reis recebeu veto do regime militar, em 1982. A música era liberada para ser tocada em apresentações ao vivo, mas a gravação foi vetada pelo regime militar em 1984.
A faixa só pôde ser gravada em estúdio em 1986, após o término do regime, integrando o disco Cabeça Dinossauro. Mesmo após o lançamento do álbum, a execução pública da música nas rádios permaneceu proibida, mas a decadência do regime fez com que o mercado desafiasse os limites.
“Os radialistas tocaram mesmo assim atendendo aos pedidos dos ouvintes e pagaram multas. A partir dessa verdadeira desobediência civil, a liberdade de expressão foi finalmente reconquistada, no início da redemocratização do Brasil”, afirmou Paulo Miklos, em postagem nas redes sociais.
Sucesso digital
A cantora não escolheu um dos maiores sucessos dos anos 80 à toa. Dados de buscas do Google Trends registraram alta de 5.000% nas pesquisas pela música entre 2024 e 2025.
Paulo Miklos, integrante dos Titãs e intérprete original da música, elogiou a ironia da interpretação de Anitta.
“Olha que repercussão massa! Que coisa genial está acontecendo com a gravação pela Anitta e produção de Tropkillaz. Ficou genial”, declarou o cantor em um vídeo.
Censura cultural no Brasil
O rock’in roll sempre teve caráter rebelde. O movimento ganhou ainda mais força com a expansão do mercado fonográfico nos anos 1970, o que despertou a atenção do regime militar para a influência da música nos grandes centros urbanos.
Verdade seja dita, não foi o regime militar (1964 – 1985) quem inventou a modalidade. A censura prévia foi institucionalizada em 1934 e expandida pelas constituições de 1937 e 1946, sendo aprimorada e intensificada pelo regime militar a partir de 1965 para ampliar o controle coercitivo do Estado.
Inicialmente, a censura funcionava em nível regional. A partir de 1965, o processo de centralização começou a se concentrar no Serviço de Censura de Diversões Públicas do Departamento Federal de Segurança Pública (depois Polícia Federal). Em 1966, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), sediada em Brasília, passou a ditar as regras nacionais para tentar unificar critérios.
A censura de diversões públicas era o controle preventivo exercido pelo Estado sobre manifestações culturais e de entretenimento, abrangendo especificamente a música, o teatro, a televisão, o cinema, a programação radiofônica e as atividades circenses
Registros históricos dão conta de que a censura era tão integrada ao cotidiano que parcelas da própria população escreviam cartas à DCDP, pedindo a proibição de músicas consideradas “ofensivas” aos bons costumes.

