Angola quer deixar de depender de alimentos importados e está pedindo ajuda ao Brasil para transformar esse objetivo em produção. O país gasta cerca de US$ 1,4 bilhão por ano com compras externas e agora quer atrair empresários brasileiros dispostos a colocar capital no país, produzir em território angolano e ajudar a estruturar cadeias que vão da lavoura à indústria de alimentos.
O movimento marca uma mudança na relação entre os dois países. Depois de décadas de cooperação técnica, Angola quer passar para uma etapa em que o conhecimento brasileiro venha acompanhado de investimento privado, tecnologia, gestão e acesso a mercados.
“Estamos convidando os brasileiros a se juntar e nos consolidar”, afirmou à CNN o ministro da Agricultura e Florestas de Angola, Isaac dos Anjos, durante o Fórum do Agronegócio Brasil – Angola, promovido pelo grupo Lide, em Luanda.
O convite, porém, vem acompanhado de um reconhecimento: para trazer o produtor brasileiro, Angola terá de oferecer mais do que terras disponíveis. O empresário quer segurança jurídica, financiamento, infraestrutura, insumos e condições para comercializar a produção. “Empresário brasileiro tem vontade de vir para Angola, mas não quer se arriscar em aventura africana. Se quer tudo pronto, tem que ir para Austrália”, afirmou Dos Anjos.
A declaração resume o principal desafio da estratégia angolana. O país quer capital privado para acelerar a produção, mas precisa primeiro reduzir o risco percebido por quem está disposto a investir.
Angola quer mudar a lógica das importações
A dependência de alimentos produzidos fora do país é um dos problemas que o governo quer enfrentar. A estratégia, portanto, não é apenas aumentar a produção agrícola, mas criar uma cadeia capaz de abastecer o mercado doméstico.
“Importar o tempo todo é a especialidade dos nossos empresários. Foi a oportunidade que nós demos. Agora passamos para outra fase”, disse Dos Anjos.
A nova fase, segundo o ministro, exige a entrada do setor privado. Em 2025, o governo colocou 800 mil hectares à disposição de uma parceria com produtores brasileiros. A oferta, porém, ainda não se transformou na escala de investimentos esperada.
Para que isso aconteça, Angola quer resolver gargalos que vão muito além da disponibilidade de terra. Entre as principais demandas apresentadas pelos empresários estão segurança jurídica, financiamento, oferta regular de insumos, infraestrutura e liberdade para exportar.
Governo quer que o setor financeiro assuma parte do risco
O financiamento é uma das questões centrais para transformar o interesse dos empresários em projetos. Para Dos Anjos, o governo não pode ser o único responsável por bancar a expansão agrícola. O setor financeiro também terá de participar. “O setor financeiro precisa se pronunciar se está disposto a dar cobertura. Não há mais espaço para ficar só pedindo do governo”, afirmou.
A ideia é combinar capital privado, crédito e investimentos em infraestrutura para criar condições para que os projetos tenham escala.
O raciocínio vale tanto para grandes empreendimentos quanto para empresas que poderão fornecer máquinas, insumos, processamento, logística e serviços. A aposta é que a chegada de grandes investidores ajude a formar uma cadeia ao redor deles, aumentando a produção local e criando mercado para pequenos produtores.
O produtor brasileiro ainda desconfia
A segurança jurídica aparece como um dos principais pontos de atenção para quem avalia investir em Angola. A senadora e ex-ministra da Agricultura Kátia Abreu, hoje conselheira da JBS, afirma que essa é uma preocupação natural de quem coloca capital em uma nova fronteira agrícola. “Produtor rural é muito desconfiado. Eu, como produtora, entendo que preciso ter garantia de que o que eu investir, poderei obter retorno no longo prazo”, afirmou.
Projetos agrícolas exigem investimentos elevados e têm retorno de longo prazo. Por isso, antes de plantar, o empresário precisa saber se terá segurança sobre a terra, acesso a crédito, disponibilidade de insumos e possibilidade de vender a produção.
Dos Anjos reconhece o desafio e afirma que o governo está discutindo essas condições diretamente com os empresários brasileiros. “Queremos criar condições jurídicas para atrair os empresários. Estamos cansados de vê-los tirar dinheiro de Angola e andar de Ferrari em outros países. Queremos que eles andem de Ferrari aqui, nas nossas estradas que serão construídas com ajuda deles”, afirmou.
A frase dá a dimensão da aposta angolana: o governo não quer apenas que o brasileiro venda produtos para o país. Quer que ele deixe parte do capital e da produção em Angola.
Duas safras são uma possibilidade, não uma garantia
A disponibilidade de água é um dos argumentos usados pelo governo para convencer os investidores. Segundo Kátia, algumas regiões de Angola podem permitir dois ciclos agrícolas por ano, desde que sejam identificadas as melhores condições para plantio e colheita. “O Brasil não é todo adaptado à irrigação. Angola, por sua vez, tem água, o que é uma grande vantagem”, afirmou.
A definição das melhores janelas de produção deve contar com apoio da Embrapa. “É preciso encontrar a janela ideal e a Embrapa vai ajudar os angolanos com isso”, disse Kátia.
A possibilidade de duas safras pode ser relevante para culturas como soja, milho, arroz e algodão. Mas a disponibilidade de água e terra não resolve, sozinha, o problema de investimento.
O desafio é transformar esses recursos em uma operação economicamente viável. É justamente por isso que a segurança jurídica, o crédito, os insumos e a infraestrutura aparecem como condições tão importantes quanto o potencial produtivo.
A aposta pode começar pelas proteínas
A estratégia também não precisa começar pelas grandes lavouras de grãos. Para o ex-secretário de Agricultura de São Paulo e empresário do agronegócio Francisco Maturro, Angola deveria considerar aves e suínos como uma das portas de entrada para investimentos brasileiros.
Os ciclos de produção são mais curtos e podem aumentar rapidamente a oferta de proteína no mercado doméstico. Mas existe uma condição básica: garantir alimentação para os animais. “Empresas grandiosas do Brasil podem vir para cá, mas é preciso garantia, por exemplo, que a companhia terá milho para alimentar os animais. Pode ser de Angola, pode ser de um país vizinho, mas é preciso ter milho”, afirmou Maturro à CNN.
O mesmo vale para uma indústria de alimentos. A construção dessas cadeias é justamente o tipo de conhecimento que Angola espera importar do Brasil. “Passamos da parte técnica para investimentos em cadeia de valor e novos mercados para Angola”, afirmou Dos Anjos.
Nesse processo, o Brasil pode contribuir não apenas com tecnologia agrícola, mas com experiência comercial. “O Brasil também pode nos ensinar o acesso a mercados internacionais”, disse o ministro.
A China aparece entre os mercados que interessam a Angola. “Queremos atingir os mesmos mercados, como a China, com soja, com sete horas menos de voo”, afirmou.
Pequenos produtores também entram no plano
A expansão empresarial não significa abandonar a agricultura familiar. Grande parte da população angolana ainda está ligada ao campo, e o governo pretende integrar esses produtores às novas cadeias. “Precisamos transformar os camponeses em pequenos empresários”, afirmou Dos Anjos durante o Fórum.
A intenção é criar um modelo em que grandes projetos agrícolas convivam com produtores menores, fornecedores, processadores e empresas de serviços.
A avaliação de Kátia é que nem todas as atividades precisam de grandes propriedades. Soja, arroz e algodão dependem de escala para serem competitivos, enquanto áreas menores podem encontrar oportunidades em aves, suínos, hortifrútis e outras atividades de maior valor agregado.
De parceiro técnico a investidor
A aproximação agrícola entre Brasil e Angola não é nova. Os dois países mantêm cooperação institucional desde 1980, com participação de instituições como Embrapa e Conab. Pesquisas brasileiras realizadas em Angola também já serviram de base para políticas públicas.
Em 2023, os governos assinaram um memorando para intercâmbio de especialistas. Em 2024, a visita do então ministro da Agricultura brasileiro Carlos Fávaro marcou, segundo o governo angolano, uma nova fase de aproximação com o setor privado.
Em 2025, foram colocados 800 mil hectares à disposição da parceria com produtores brasileiros. Em maio deste ano, Brasil e Angola assinaram um novo protocolo de cooperação envolvendo a Embrapa.
Agora, segundo o governo angolano, mais de 700 empresários já participaram das discussões sobre o potencial agrícola do país. O desafio, segundo o ministro da agricultura, é convencer o empresário brasileiro de que investir em Angola pode ser menos uma aventura e mais um negócio.

