O governo brasileiro não interpreta a crise diplomática com os Estados Unidos como uma simples provocação. Segundo apuração da âncora da CNN Débora Bergamasco ao CNN 360°, fontes próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstram preocupação genuína com a escalada das tensões e avaliam que o Brasil ocupa papel central nesse confronto geopolítico. O analista de Política da CNN Pedro Venceslau comenta o tema.
Um vídeo divulgado pelo Departamento de Estado americano, no qual se afirma que o domínio dos Estados Unidos sobre a América não será mais questionado, é visto pelo entorno do presidente como um sinal concreto das ambições hegemônicas de Washington.
Nos bastidores do governo, esse movimento é comparado a uma releitura da chamada Doutrina Monroe.
Brasil como obstáculo ao plano de dominação
De acordo com as fontes ouvidas por Bergamasco, o governo brasileiro avalia que Lula representa um “foco de resistência” às tentativas dos Estados Unidos de ampliar sua influência sobre a América Latina.
A avaliação é de que qualquer projeto de dominação regional que não inclua o Brasil ficaria, nas palavras das próprias fontes, “capenga” — dada a importância geográfica e econômica do país.
A partir dessa lógica, fontes próximas ao presidente levantam a hipótese de que a disputa geopolítica esteja por trás de movimentos americanos em torno do processo eleitoral brasileiro.
O governo avalia que, se o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vencer as eleições, ele aderiria a um alinhamento automático com os Estados Unidos, a exemplo do que ocorre com a Argentina de Javier Milei.
Essa seria, na visão do Planalto, a motivação para ações como o envio de diplomatas americanos ao Brasil com o objetivo de questionar as urnas eletrônicas e desacreditar o processo eleitoral.
Doutrina Monroe e a releitura de Trump
O analista de Política da CNN Pedro Venceslau, consultou Daniel Aarão Reis, professor emérito de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense, para contextualizar o resgate histórico feito pelo presidente americano, Donald Trump.
Segundo o historiador, a Doutrina Monroe foi criada em 1823, durante a gestão de James Monroe, em um contexto completamente distinto: havia, à época, tentativas de recolonização por parte de países europeus na América Latina, na América Central e na América do Sul. Os Estados Unidos, que ainda não eram a superpotência que são hoje, buscavam impedir esse avanço europeu.
Na avaliação de Daniel Arão Reis, Trump faz uma instrumentalização dessa doutrina, utilizando-a como base para suas ambições hegemônicas na região.
Para o historiador, não há contextualização possível que justifique a invocação da Doutrina Monroe para afirmar que os Estados Unidos manterão domínio sobre a América Central e a América do Sul nos dias atuais. Partidos de esquerda que rebateram a tese de Trump também utilizam esse mesmo argumento.

