O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou, na última terça-feira (11), um vídeo na rede social X declarando que o domínio americano sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”. A publicação gerou ampla repercussão e reacendeu o debate sobre a política externa dos EUA em relação à América Latina.
Segundo a analista de Internacional Fernanda Magnotta, a postura representa uma ruptura significativa em relação à abordagem adotada pelos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XXI.
“Os Estados Unidos querem marcar posição de uma forma mais assertiva, retomar essa primazia sobre a região”, destacou Magnotta durante o CNN 360º desta quarta-feira (12).
Magnotta explicou que, desde o início dos anos 2000, especialmente após os atentados de 11 de setembro, os Estados Unidos passaram a negligenciar a América Latina, voltando sua atenção ao Oriente Médio e, posteriormente, à Ásia.
“A América Latina ficou relegada a segundo plano. Nesse meio tempo, a China veio se aproximando, aumentando o grau de influência aqui na nossa região”, afirmou a analista.
De acordo com Magnotta, a nova abordagem se diferencia dos governos anteriores, que tinham foco predominantemente econômico e comercial.
“Agora é um pouco diferente. Não é só sobre retomar esse papel do ponto de vista das finanças e da economia, mas é, de fato, reafirmar geopoliticamente uma capacidade de domínio e, mais do que isso, impor esses custos por meio do uso da força”, destacou a analista.
O papel da China
Para Magnotta, a China é a principal razão estrutural dessa mudança de abordagem por parte de Washington. A presença chinesa na América Latina escalou não apenas em volume, mas também em natureza.
Se no início dos anos 2000 a relação se limitava ao comércio de insumos de baixo valor agregado, desde a chegada de Xi Jinping ao poder, especialmente a partir de 2014 e 2015, novos ciclos de envolvimento chinês na região foram observados.
“A gente está falando primeiro de empréstimos, depois de investimentos de vários tipos, e principalmente avançando em áreas estratégicas que vão desde infraestrutura até tecnologia e inovação, portos, energia, mineração e telecomunicações”, listou Magnotta.
Mais recentemente, segundo a analista, a China passou a atuar de forma intensa em setores como internet das coisas e inteligência artificial, com implicações que vão além do uso civil e alcançam áreas sensíveis de segurança, envolvendo dados e satélites.
“Hoje, para Washington, dominar geopoliticamente uma área de influência voltou a significar, de certa maneira, segurança nacional“, afirmou Magnotta.
Ambiguidade estratégica
A analista ressaltou que a nova doutrina, que alguns nos Estados Unidos chamam informalmente de “Donroe”, em referência a uma combinação dos nomes Donald e Monroe, tende a reduzir o espaço para que os países latino-americanos mantenham relações pragmáticas com outras potências.
“O espaço para ambiguidade estratégica tende a diminuir”, disse Magnotta. Ela acrescentou que, neste cenário, o cálculo de custo-benefício em manter relacionamentos com parceiros fora da órbita americana se tornará cada vez mais difícil para os países da região.
A doutrina já havia aparecido no documento de Estratégia de Segurança Nacional, divulgado em dezembro, e agora ganhou ainda mais visibilidade por meio das mídias sociais.
Para Magnotta, a disputa entre Estados Unidos e China pelas cadeias estratégicas, que inclui minerais críticos, energia, segurança alimentar, semicondutores e infraestrutura logística, tem a América Latina como palco central.
“No final do dia, é uma doutrina de contenção à China”, concluiu a analista.

