A ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), divulgada nesta terça-feira (11), não trouxe surpresas significativas em relação ao comunicado publicado na semana anterior. A avaliação é de Flávio Serrano, que destacou que a mensagem do documento seguiu a mesma linha já esperada pelo mercado.
Segundo Serrano, o Banco Central deixou a porta aberta tanto para interromper quanto para continuar o ciclo de ajuste da taxa de juros, a depender da evolução do cenário econômico.
Questionado sobre se a taxa básica de juros de 14% ao ano seria excessiva, Serrano ponderou que não há espaço para uma sinalização mais clara de cortes neste momento.
Para ele, a demanda doméstica segue aquecida mesmo diante da desaceleração da economia, e o IPCA apresenta uma “trajetória de acomodação muito limitada”. “A gente tem que se perguntar ao contrário: por que com juros tão altos a inflação não cai? Por que com juros tão altos a economia não está desacelerando tanto?”, questionou.
Serrano apontou ainda que o crescimento do PIB segue entre 2% e 2,5%, nível próximo ao observado anteriormente, o que indica que a política monetária restritiva convive com estímulos fiscais e parafiscais que sustentam a atividade.
“O BC está com juros altos, mas o governo tem gastado e impulsionado a economia com medidas fiscais e parafiscais. Esse balanço é complicado”, avaliou.
Estrutura econômica dificulta desinflação
O economista explicou que a dinâmica inflacionária brasileira é estruturalmente mais complexa do que a de outros países, o que reduz a eficácia da política monetária em alguns canais.
Entre os fatores citados estão a presença de crédito direcionado com taxas subsidiadas, a forte indexação de preços e salários à inflação passada, e o impacto de choques sobre as expectativas dos agentes econômicos.
“No geral, a própria estrutura econômica nossa, muito indexada, também atrapalha um pouco esse processo”, disse Serrano.
Sobre os preços administrados, o economista ressaltou que eles praticamente não sofrem influência da política monetária, sendo determinados por premissas como os preços de energia e petróleo.
Já os preços livres, que respondem à política monetária, apontam para uma inflação mais próxima de 3% no modelo do Banco Central. No entanto, Serrano lembrou que as projeções de mercado para o horizonte relevante indicam inflação entre 4,20% e 4,30%, refletindo uma leitura mais pessimista.
“O que a gente tem que considerar sempre em decisão de política monetária não é só o número, mas o balanço de riscos”, concluiu.

