O Banco Central divulgou nesta terça-feira (11) a ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), documento que chamou atenção pelo tamanho reduzido em relação à edição anterior.
A ata passou de 25 para 19 parágrafos, enquanto a seção dedicada à condução de juros encolheu de 9 para apenas 4 parágrafos.
Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos, aponta que a decisão de encurtar o texto em múltiplas mensagens.
Para ela, a redução representa uma adequação ou um retorno ao que se fazia normalmente.
“A reunião anterior veio acompanhada de um parágrafo falando sobre o trimestre seguinte ao horizonte relevante, ou seja, foi uma ata muito grande, com uma inovação e uma justificativa diferente do que víamos normalmente nas atas do Copom, e o Banco Central sofreu algumas críticas por conta disso”, explicou.
Elisa destacou que a menor oferta de guidance não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Segundo ela, tanto o Banco Central brasileiro quanto o americano têm adotado uma postura de fornecer menos sinalizações sobre as próximas reuniões.
“A gente vem de um período em que se aprendeu a fazer política monetária ao estilo do sistema de metas de inflação, em que esse guidance, essa coordenação das expectativas por parte do mercado, sempre foi muito importante”, afirmou.
Diante da inflação elevada no pós-pandemia, os bancos centrais passaram a reverter essa tendência.
A ata do Copom descreve uma atividade econômica que desacelera de forma disseminada, embora ainda resiliente. Elisa Machado ponderou que os dados não apontam todos na mesma direção.
Enquanto a maioria dos indicadores recentes surpreendeu negativamente, o mercado de trabalho permanece aquecido.
“Tanto quando nós medimos pela taxa de desemprego divulgada pelo IBGE quanto pelos dados do Caged, identificamos uma desaceleração, mas ainda aquém do que seria natural nessa parte do ciclo”, disse.
Ela ressaltou que o mercado de trabalho se comunica diretamente com os núcleos de inflação, tornando-o um dado especialmente relevante para o Banco Central.
Projeções de inflação acima da meta e risco do petróleo
A projeção de inflação para 2027 piorou para 3,8%, enquanto no novo horizonte relevante a inflação projetada está em 3,2%, ainda acima da meta.
Mesmo assim, o Copom realizou um corte de 0,25 ponto percentual na taxa de juros.
Para Elisa Machado, isso demonstra que o Banco Central pretende manter a taxa restritiva por um longo período.
“A questão é que hoje temos um cenário que realmente exige muita cautela, dado que temos uma economia ainda com o mercado de trabalho bastante aquecido e um risco inflacionário muito grande por conta de choques geopolíticos”, afirmou.
A volatilidade do preço do petróleo foi apontada como fator central de incerteza. Segundo a economista, nas últimas oito semanas o barril oscilou entre valores próximos a US$ 100 e abaixo de US$ 70, exercendo forte influência sobre a inflação tanto por efeitos primários, via preço de combustíveis, quanto por efeitos secundários.
Questão fiscal com alerta mais amplo
Em relação ao cenário fiscal, Elisa Machado observou que a ata atual substituiu a referência específica à isenção do imposto de renda por uma menção mais abrangente a estímulos à demanda. Para ela, isso representa um alerta fiscal mais amplo por parte do Banco Central.
“Enquanto a política monetária toma um viés contracionista com o objetivo de segurar a inflação, a gente tem uma política fiscal expansionista, e isso já acontece há muitos anos”, disse.
A economista concluiu que o Banco Central sinalizou a necessidade de maior atenção ao quadro fiscal, sob o risco de sobrecarregar ainda mais a política monetária.

