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Tornozeleiras, prisões e desemprego: a nova realidade dos haitianos nos EUA

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Tornozeleiras, prisões e desemprego: a nova realidade dos haitianos nos EUA

Uma enfermeira que não tem mais permissão para trabalhar em um dos principais hospitais da cidade se manteve recolhida em sua casa, em Boston, com medo de que agentes do ICE estivessem circulando pelo bairro.

Uma mãe enviou uma mensagem de texto a uma amiga em Springfield, Ohio, em pânico: “Minha filha está completamente traumatizada”.

E moradores do leste de Maryland se depararam com uma cena perturbadora: carros abandonados em postos de gasolina, com os motores ainda ligados.

“Eles estão prendendo pessoas por toda parte, algumas no meio das ruas. … Temos pessoas que foram ao supermercado comprar comida para preparar para os filhos e não voltaram para casa”, disse a Dra. Marie D. Fouché, fundadora e diretora-executiva da Safe Harbor Circles, uma organização de Salisbury, Maryland, que oferece apoio a imigrantes.

Nas semanas desde que a Suprema Corte abriu caminho para que o governo Trump encerrasse as proteções contra deportação de cerca de 350 mil haitianos, e nos dias desde que um juiz de um tribunal inferior tomou uma medida jurídica importante que tornou a decisão oficial, uma nova realidade começou a se desenhar nas comunidades que ainda mantinham esperança de uma reviravolta de última hora.

O medo e a confusão são generalizados entre ex-beneficiários do Status de Proteção Temporária, ou TPS, que durante anos tiveram autorização para trabalhar legalmente nos Estados Unidos por meio do programa e, de repente, passaram a ficar vulneráveis à detenção e à deportação.

“Agora não temos proteção”, disse Vilès Dorsainvil, cofundador e diretor-executivo do Haitian Community Help and Support Center, em Springfield. “Qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento.”

As autoridades federais têm sido bastante reservadas sobre os detalhes desta fase da ofensiva do governo contra a imigração, afirmando repetidamente que não comentarão operações em andamento ou futuras. Elas não divulgaram dados sobre quantos haitianos foram detidos desde o fim do TPS. E, até sábado (8), grupos de defesa dos imigrantes que acompanham de perto os voos de deportação não haviam registrado nenhum voo com destino ao Haiti nas duas semanas anteriores.

Mas o secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, afirmou na semana passada que as operações contra haitianos beneficiários do TPS estavam em andamento.

“Estamos indo atrás deles agora. … Essas pessoas podem se deportar voluntariamente ou nós vamos prendê-las e mandá-las de volta. É simples assim”, disse ele à NewsNation na terça-feira (4).

As operações de fiscalização contra ex-beneficiários do TPS, incluindo haitianos, aumentaram no fim de julho e devem continuar, disseram à CNN duas fontes com conhecimento das operações.

Pelo menos cinco pessoas entraram em contato na semana passada com a organização de defesa dos imigrantes Haitian Bridge Alliance para relatar que parentes ou pessoas próximas haviam sido detidos em diferentes partes dos Estados Unidos, segundo Guerline Jozef, diretora-executiva da organização. Segundo ela, os relatos envolveram prisões de ex-beneficiários do TPS, muitos deles estavam dirigindo quando se depararam com agentes do ICE, no Arizona, Califórnia, Indiana e Maryland.

“O medo é que os números aumentem. As operações de fiscalização sempre acontecem, mesmo quando não ouvimos falar delas nas notícias. Isso acontece diariamente dentro da comunidade”, afirmou.

Cartas deixam uma comunidade apreensiva

Moradores de um dos mais recentes e conhecidos territórios haitianos dos Estados Unidos dizem que ainda não perceberam um aumento nas prisões realizadas pelo ICE. Springfield ganhou atenção nacional depois que o presidente Donald Trump acusou, sem fundamento, os haitianos da cidade de comerem animais de estimação durante um debate eleitoral em 2024. E algumas pessoas especularam que a cidade do Meio-Oeste, onde vivem cerca de 15 mil haitianos, seria um dos focos das prisões após o fim do TPS.

Líderes comunitários de Springfield dizem que a presença crescente do ICE que muitos temem ainda não se concretizou. Centenas de cartas do DHS (Departamento de Segurança Interna), porém, têm chegado pelo correio e deixado a comunidade apreensiva.

“Por favor, compareça ao escritório indicado abaixo, no horário e local informados, para tratar de um assunto oficial”, dizem as cartas, segundo uma cópia compartilhada com a CNN por Dorsainvil.

Segundo Dorsainvil, aqueles que compareceram aos escritórios do ICE após receber os avisos foram obrigados a usar tornozeleiras eletrônicas que permitem às autoridades rastrear sua localização, e muitos receberam datas para comparecer ao tribunal dentro de aproximadamente um mês.

As tornozeleiras fazem parte de um programa do ICE amplamente utilizado, conhecido como “alternativas à detenção”. Mas Dorsainvil afirma que, para muitos haitianos em Springfield, os dispositivos evocam a dolorosa história das correntes usadas durante a escravidão, e que ele e outros defensores dos imigrantes tentaram, sem sucesso, convencer as autoridades de que as tornozeleiras não eram necessárias.

Agora, segundo ele, muitos haitianos se veem diante não apenas da pressão social de não poder trabalhar e sustentar suas famílias, mas também da pressão psicológica causada por um tratamento que consideram desumanizante.

“É tão… humilhante”, afirma.

As cartas e as tornozeleiras agravaram uma situação que já era tensa, diz Marjory Wentworth, integrante do conselho do  Centro de Apoio e Ajuda da Comunidade Haitiana, que também trabalha com a G92, uma organização religiosa que defende os direitos dos imigrantes na comunidade.

Wentworth contou sobre uma mensagem de texto que recebeu, em meio ao pânico, de uma amiga cuja filha adolescente teme que o ICE prenda seu pai.

“É aterrorizante… o estresse emocional e psicológico sobre essas pessoas e essas famílias”, afirma.

Questionado sobre as cartas e as tornozeleiras, um porta-voz do DHS disse à CNN que o TPS sempre foi concebido como uma medida temporária e mencionou o programa de autodeportação do governo, que oferece auxílio financeiro a imigrantes sem documentação que optem por deixar o país.

“O que diríamos agora é que está na hora de partir, o que significa que você não precisa ir para casa, mas não pode ficar aqui”, disse o porta-voz. “A boa notícia é que ainda não é tarde demais para receber um cheque de US$ 2.600 e uma passagem gratuita para voltar para casa.”

Para esta enfermeira, voltar ao Haiti não é uma opção

Mas uma enfermeira de 29 anos em Boston disse à CNN que voltar ao Haiti agora está fora de questão para ela e para muitas outras pessoas que deixaram o país caribenho após um terremoto devastador em 2010 e que, de longe, assistiram horrorizadas à escalada da violência de gangues, que tornou o país cada vez mais perigoso.

“Não há empregos. A maioria dos hospitais foi tomada por gangues ou destruída, e… a economia não está bem. Não temos líderes nem governo. É simplesmente muito inseguro”, disse a enfermeira, que pediu anonimato porque, agora, sem o TPS, teme pela própria segurança.

Ela passou mais da metade da vida nos Estados Unidos e trabalhou durante oito anos como enfermeira em um dos principais hospitais de Boston. Na semana passada, porém, foi obrigada a se afastar do trabalho depois que sua autorização de trabalho expirou.

Desde que o governo Trump anunciou pela primeira vez o fim do TPS, ela vem lidando com a possibilidade de perder seu status. Segundo ela, essa experiência tem sido como passar por um ciclo interminável das etapas do luto.

“Fiquei com raiva, passei por uma fase de negação, fiquei frustrada… e toda vez que penso: ‘Ok, estou aceitando que é isso, essa é a realidade’, tudo começa de novo”, diz ela. “Sinto que isso está pairando sobre minha cabeça há anos. E tentei encontrar um caminho adequado para sair dessa situação, mas parece que nunca existiu um.”

Atualmente, ela está concentrando seus esforços na busca por empregos de enfermagem no exterior, na esperança de que outro país lhe dê a oportunidade de usar as habilidades que se esforçou tanto para aprender antes que as medidas de repressão à imigração nos EUA se intensifiquem ainda mais.

“Eles estão perdendo muitos de nós, muitas pessoas como eu. Estamos dispostos a trabalhar. Estamos preparados. Trabalhamos muito e parece que não somos necessários, não somos valorizados e todos os nossos anos de serviço passaram [despercebidos]”, afirma.

“Afetando muito a economia”

Muitas empresas foram duramente afetadas pela perda de funcionários haitianos nas últimas semanas, segundo Rebecca Shi, diretora-executiva da American Business Immigration Coalition.

A organização representa CEOs e associações dos setores de indústria, saúde, cuidados com idosos, construção, agricultura e hotelaria. Shi afirma que pelo menos dois de seus integrantes foram particularmente afetados pelo fim do TPS para haitianos: um resort na Flórida, que perdeu mais de 150 funcionários, e um centro para idosos em Massachusetts, que perdeu mais de 50 empregados.

Ela afirma que os efeitos já estão se espalhando e observa que algumas casas de repouso agora consideram fechar alas por falta de funcionários, depois de perder tantos trabalhadores.

“Os trabalhadores americanos que fazem parte dessas equipes não estão apenas sentindo falta de seus colegas e companheiros de trabalho, mas também estão ficando esgotados. Eles estão assumindo uma carga de trabalho muito maior porque um quarto da força de trabalho desapareceu”, afirmou.

Defensores dos imigrantes e líderes locais também dizem estar percebendo a ausência de haitianos nas ruas de muitas comunidades.

Em Salisbury, que se tornou um polo para haitianos que trabalham em fábricas e fazendas próximas, o ICE começou recentemente a deter pessoas em estacionamentos e outros locais frequentados por imigrantes, segundo Fouché, da Safe Harbor Circles.

O aumento das prisões levou muitos haitianos a se esconderem, afirma ela. “As pessoas não estão saindo de casa.”

As ruas dos bairros haitianos de Nova York também estão visivelmente mais silenciosas. David Duchatellier afirma que o movimento em sua agência de viagens em Cambria Heights, que também oferece serviços de transferência de dinheiro, despencou.

“Você não vê as pessoas andando por aí como antes. Elas estão ficando dentro de casa porque não estão trabalhando. Não estão indo ao supermercado comprar comida. E isso está afetando muito a economia”, afirma.

Haitiano-americano que vive nos EUA há mais de 50 anos, Duchatellier diz que tem escrito para membros do Congresso para pedir que encontrem uma solução legislativa de compromisso para ajudar os haitianos. Ele também espera que os assessores de Trump lhe mostrem o quanto uma ofensiva contra os haitianos prejudicará a economia americana.

“Você não causou isso, mas pode resolver de uma vez por todas. … Ninguém está dando esse conselho a ele agora. Eu gostaria de poder simplesmente sentar com ele por cinco minutos”, afirma Duchatellier.

Segundo ele, o governo ainda tem uma oportunidade de mudar de rumo.

Mas muitos parecem estar perdendo a esperança.

Atender a um número cada vez maior de ligações de haitianos que não sabem a quem recorrer é angustiante, afirma Judith Polidor, que trabalha como assistente jurídica no bairro Little Haiti, no Brooklyn.

“É tristeza o dia inteiro. … Eles estão chorando. … Todo mundo está passando por uma emergência. … Eles precisam de alguém que simplesmente os escute”, diz ela, “mesmo que você não possa fazer nada”.