Todas as manhãs, Micheline Kayimpa veste várias camadas de equipamentos de proteção antes de entrar em uma ala de isolamento para pacientes com ebola no leste da RD (República Democrática) do Congo , sabendo que um único erro pode custar sua vida.
No Centro de Tratamento de Ebola Elikya, em Bunia, a enfermeira passa os dias cuidando de pacientes infectados pelo ebola, um dos vírus mais letais do mundo. Ela administra medicamentos e presta assistência a pessoas debilitadas demais para se alimentarem sozinhas.
Como o ebola é transmitido por meio de fluidos corporais, até mesmo os cuidados de rotina expõem os profissionais de saúde a um risco constante, desde o atendimento aos pacientes até a limpeza de áreas contaminadas.
“Tenho muito medo pela minha segurança”, disse Kayimpa à CNN. “Às vezes, um pequeno detalhe que deixamos passar pode ser fatal.”
Mas, à medida que o surto avança em ritmo alarmante, os profissionais de saúde afirmam que enfrentam mais do que apenas o vírus.
Após meses tratando pacientes com ebola, Kayimpa diz que ainda não recebeu um único salário do governo. Mãe de quatro filhos, ela está entre dezenas de profissionais de saúde que protestaram contra os atrasos nos pagamentos e ameaçaram interromper o trabalho.
O momento não poderia ser pior.
Kayimpa atua na linha de frente do que a OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica como o maior surto de ebola já registrado na República Democrática do Congo. Desde que o vírus surgiu, em meados de maio, ao menos 3.874 pessoas foram infectadas e 1.751 morreram, segundo dados divulgados na quarta-feira pelo Ministério da Saúde congolês.
O surto foi identificado simultaneamente na RDC e na vizinha Uganda. Enquanto Uganda já declarou o fim da transmissão do ebola em seu território, os casos continuam aumentando rapidamente no leste do Congo.
Em pouco mais de dois meses, o atual surto já superou a última grande epidemia de ebola registrada no país, que durou quase dois anos, entre agosto de 2018 e junho de 2020. Apenas a epidemia de ebola na África Ocidental, entre 2014 e 2016, foi maior e mais letal, infectando mais de 28,6 mil pessoas e provocando 11.325 mortes na Guiné, Serra Leoa e Libéria.
Desconfiança profunda alimenta a hostilidade
Bunia, onde Kayimpa trabalha, é a capital da província de Ituri, no nordeste do país, e o epicentro do atual surto, concentrando mais de 90% dos casos confirmados. A resposta à epidemia já enfrenta dificuldades para acompanhar o avanço da doença, mesmo antes da ameaça de paralisação dos profissionais de saúde.
Ao contrário dos surtos anteriores de ebola, o atual é causado pela variante Bundibugyo, menos comum e para a qual ainda não existem vacinas comprovadamente eficazes. As opções de tratamento também permanecem limitadas. Além disso, os conflitos armados no leste da República Democrática do Congo dificultam o acesso das equipes de saúde às comunidades afetadas.
“Este surto se espalhou em comunidades já fragilizadas por conflitos e deslocamentos, com sistemas de saúde, abastecimento de água e saneamento precários desde o início”, afirmou Lancelot Mermet, diretor de programas humanitários da Mercy Corps.
“Quando as pessoas não conseguem receber atendimento rapidamente ou não confiam o suficiente no sistema para procurar ajuda, o vírus se espalha mais rápido”, disse à CNN. Segundo ele, as autoridades sanitárias ainda identificam casos que não podem ser relacionados a infecções já conhecidas.
Agências humanitárias afirmam que a desconfiança, a desinformação sobre o ebola e a resistência às restrições impostas aos rituais tradicionais de sepultamento têm alimentado a hostilidade contra os profissionais de saúde e dificultado os esforços para conter o surto.
Essa hostilidade ficou evidente no fim de maio, quando manifestantes que buscavam os corpos de dois parentes invadiram um centro de tratamento de ebola. Foi o terceiro ataque desse tipo desde o início do surto, obrigando os profissionais de saúde a retirar os pacientes para locais seguros enquanto tiros eram disparados nas proximidades.
A violência continuou. Ataques semelhantes foram registrados em junho e julho, e a ONU (Organização das Nações Unidas) informou no mês passado que pelo menos uma dúzia de unidades de saúde foi atacada, principalmente devido ao medo, à desinformação e à profunda desconfiança das comunidades em relação às autoridades externas.
“Estamos sacrificando nossas vidas”
Dentro do Centro de Tratamento de Ebola Elikya, em Bunia, a resposta à epidemia está sob forte pressão.
A ala de isolamento, com 90 leitos e administrada pela organização humanitária internacional MSF (Médicos Sem Fronteiras), já opera com sua capacidade máxima. Muitos pacientes chegam apenas quando a doença já está em estágio crítico.
Segundo ele, os atrasos ocorreram principalmente devido ao processo administrativo de verificar quais profissionais foram efetivamente mobilizados para a resposta ao surto de ebola e garantir que os pagamentos fossem destinados às pessoas corretas.
“Todos os profissionais oficialmente cadastrados receberão seus pagamentos”, afirmou.
Os Médicos Sem Fronteiras, que administram diversos centros de tratamento e isolamento para ebola na República Democrática do Congo, informaram que os protestos estão relacionados aos salários pagos pelo governo, e não aos repasses da organização humanitária.
Em nota enviada à CNN, o MSF afirmou que continua cumprindo suas obrigações com os profissionais envolvidos na resposta ao surto.
“A equipe de saúde desempenha um papel essencial no enfrentamento deste surto, e é fundamental que receba sua remuneração em tempo hábil pelo trabalho realizado em condições extremamente desafiadoras”, destacou a organização.
“Correndo atrás de um incêndio fora de controle”
Trabalhadores humanitários afirmam que o sucesso da resposta ao ebola depende diretamente das pessoas que arriscam a própria vida para manter o sistema funcionando.
“São essas pessoas que carregam o maior peso deste surto: cuidam e tratam dos pacientes, evitam novas infecções e ajudam a manter a confiança da população no sistema de saúde, tudo isso enquanto enfrentam riscos significativos”, disse à CNN um profissional humanitário que acompanha de perto a resposta à epidemia.
Segundo ele, “com um surto avançando tão rapidamente e se espalhando para além do epicentro, os profissionais da linha de frente precisam de equipamentos, proteção, pagamento em dia e do apoio necessário para desempenhar seu trabalho com segurança.”
“Cada interrupção dá mais tempo para o vírus se espalhar e faz com que a resposta esteja sempre correndo atrás de um incêndio fora de controle”, acrescentou o trabalhador humanitário.
O apoio oferecido a profissionais como Kayimpa pode ser decisivo para determinar quantos permanecerão na linha de frente, lutando para salvar vidas e conter a propagação do vírus.
“Enquanto eu não receber meu salário, vou boicotar o trabalho até que seja paga”, afirmou Kayimpa. “Se for preciso, vou deixar este emprego e procurar outra atividade que me permita ganhar dinheiro.”

