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Os vídeos virais que causaram a migração em massa em Ceuta, na Espanha

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Os vídeos virais que causaram a migração em massa em Ceuta, na Espanha

A onda de migrantes que invadiu o território espanhol de Ceuta na semana passada começou de forma gradual.

Incentivado por alguns vídeos virais, incluindo alguns publicados por um veículo de imprensa espanhol com o objetivo de destacar o peso das pressões migratórias, o movimento de algumas dezenas de jovens se transformou rapidamente em uma multidão de dezenas de milhares de pessoas nadando em massa até a última quinta-feira, 30 de julho.

Mais de 80 pessoas morreram afogadas ou foram esmagadas no tumulto, segundo dados oficiais.

Um fator decisivo ocorreu três semanas antes, quando a Suprema Corte da Espanha publicou uma decisão afirmando que migrantes interceptados no mar não poderiam ser imediatamente repelidos na fronteira dos territórios espanhóis de Ceuta e Melilla, no norte da África.

Especialistas jurídicos esclareceram que a decisão não impede a devolução sumária dos migrantes em um momento posterior.

Ceuta atrai há muito tempo migrantes que esperam construir uma nova vida na Europa. No entanto, à medida que interpretações equivocadas da decisão se espalhavam, incluindo alegações de que qualquer pessoa que chegasse a Ceuta, por mar ou terra, não poderia ser devolvida, mais e mais pessoas tentavam a sorte.

“Nunca acreditem naqueles que dizem que, se vocês entrarem em Ceuta, serão mandados de volta. Vocês não serão mandados de volta”, disse um jovem marroquino filmado em uma rua na Alemanha; o vídeo chegou a ser excluído, mas foi republicado posteriormente por outras contas.

Várias postagens nas plataformas da Meta desde 7 de julho, incluindo uma com mais de 28 mil curtidas, também afirmavam falsamente que o programa espanhol de regularização de centenas de milhares de migrantes em situação irregular terminaria em 30 de julho. Mensagens semelhantes circularam nas primeiras horas do mesmo dia.

Na realidade, migrantes em situação irregular que já estivessem na Espanha há pelo menos cinco meses antes do final de 2025 podiam apresentar solicitações entre abril e 30 de junho. O governo espanhol recebeu mais do que o dobro das 500 mil inscrições previstas e não prorrogou o prazo.

A maioria dos vídeos e grupos online que amplificavam os apelos para correr até Ceuta foi excluída desde então, e as datas originais das postagens não estão claras. Em 2024, o Marrocos processou dezenas de pessoas suspeitas de incitar online uma tentativa frustrada de travessia em massa.

Efeito inesperado de reportagem da mídia espanhola

Até 23 de julho, cerca de 100 pessoas haviam chegado a Ceuta, segundo o El Faro de Ceuta, um veículo de notícias local que associou as chegadas à decisão da Suprema Corte, uma visão posteriormente compartilhada por autoridades espanholas e marroquinas, que acusaram redes de tráfico humano de propagar e explorar essa desinformação nas redes sociais.

As imagens divulgadas online pelo El Faro, mostrando jovens sorridentes fazendo gestos de positivo e o sinal de “V” da vitória em Ceuta, tiveram o efeito inesperado de incentivar mais pessoas a tentar a travessia, segundo migrantes entrevistados pela Reuters. Centenas começaram a fazer a travessia a nado.

Outro estímulo surgiu em 28 de julho, quando uma nova reportagem do jornal, com a legenda “Ceuta não aguenta mais”, mostrou duas jovens sorridentes e encharcadas caminhando pelas ruas da cidade após completarem a travessia. O vídeo foi amplamente visto no Marrocos, segundo três migrantes entrevistados pela Reuters.

A corrida dos influencers

No dia seguinte, as redes sociais foram inundadas de vídeos: influenciadores com dezenas de milhares de seguidores publicavam imagens de si mesmos nadando em direção a Ceuta, alguns usando roupas de mergulho e boias.

Mounim Belhaj, um tosador de cães com 31 mil seguidores no Instagram, disse que decidiu ir após ver reportagens sobre migrantes sendo alojados no centro de acolhimento do enclave.

“A mídia espanhola mostrava o bom tratamento dado aos migrantes que chegavam à Espanha, e isso nos incentivou muito a ir para lá”, disse ele.

Havia também vídeos enganosos. Um deles, visto milhões de vezes, mostrava um jovem com um bastão de selfie nadando em direção ao que algumas postagens identificavam como Ceuta, mas que, na verdade, havia sido filmado em uma cidade na costa atlântica do Marrocos, no início de julho.

Na manhã seguinte, os números dispararam. Autoridades espanholas informaram que mais de 70 mil pessoas entraram em Ceuta de forma irregular.

Grupos de conversa também parecem ter desempenhado um papel importante. Um relatório do analista de segurança espanhol Chema Gil identificou dois grupos públicos no WhatsApp administrados por números de telefone argelinos, totalizando 3.700 membros, que forneciam orientações sobre rotas para Ceuta.

As conversas incentivavam os membros a agir rapidamente, com mensagens como: “Quem não se mover hoje vai se arrepender amanhã”. Gil não conseguiu identificar os administradores, e a Reuters não pôde verificar de forma independente os grupos, que, entretanto, foram excluídos.

Na noite seguinte, a fome e a hostilidade levaram a grande maioria a retornar. Milhares permanecem retidos, especialmente africanos subsaarianos e menores desacompanhados que não podem ser deportados.

“Cometemos um erro ao ir para lá”, disse Belhaj. “Só havia fome.”

Conheça Ceuta, território da Espanha no norte da África

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