A maior ameaça às cidades da Ucrânia pode surgir com pouco ou nenhum aviso.
A Rússia tem explorado uma vulnerabilidade ucraniana crucial — a escassez de interceptadores de mísseis balísticos — para lançar ataques aterrorizantes e de alta velocidade, combinados com outros ataques de longo alcance que mataram centenas de civis.
Em uma única noite desta semana, mais de 20 mísseis balísticos e antinavio atingiram a região da capital ucraniana. Todos os projéteis burlaram as defesas ucranianas, matando pelo menos 17 pessoas e ferindo dezenas de outras.
Os ataques aéreos russos em larga escala contra a Ucrânia são complexos.
Em uma ofensiva concentrada nas regiões de Kiev e Lviv na noite de 30 de junho, a Rússia lançou quatro mísseis antinavio, nove mísseis balísticos, 61 mísseis de cruzeiro e cerca de 300 drones de ataque contra alvos em todo o país, segundo a Força Aérea da Ucrânia.
No entanto, os mísseis balísticos russos parecem ser a ameaça que mais preocupa a liderança ucraniana.
Os ataques com mísseis balísticos ocorrem em momento em que Kiev busca desesperadamente reabastecer seu estoque de interceptadores de defesa aérea Patriot, de fabricação americana, uma das poucas armas capazes de abater um míssil balístico.
Quais são as principais ameaças às cidades ucranianas?
A ameaça às cidades da Ucrânia pode ser resumida, em grande parte, a três categorias amplas:
- mísseis balísticos
- mísseis de cruzeiro
- e drones
Mais perto das linhas de frente, os russos têm utilizado drones de ataque menores para aterrorizar áreas civis ucranianas, tendo como alvo postos de gasolina e veículos.
No início desta semana, um vendedor de alimentos na região de Kherson, no sul do país, escapou por pouco de um ataque realizado por um drone FPV — uma ação frequentemente descrita como “safári de drones”.
A Ucrânia já demonstrou sua capacidade e engenhosidade no combate aos drones russos.
Esses dispositivos são relativamente baratos e abundantes: a Rússia produz em massa o Geran-2 — uma versão do drone Shahed, de projeto iraniano — e introduziu melhorias, como motores a jato e drones de isca, para aumentar a eficácia de seus ataques.
No entanto, a Ucrânia dispõe de um sistema de defesa em camadas contra esses drones de voo relativamente lento, e sua expertise no combate a drones tem sido muito requisitada desde o conflito entre EUA e Irã.
Mísseis de cruzeiro, por sua vez, geralmente transportam uma carga útil muito maior do que os drones. Impulsionados por motores a jato, eles costumam voar rente ao solo para evitar a detecção.
A Missile Defense Advocacy Alliance afirma que o Kalibr, um míssil de cruzeiro lançado do mar, utilizado por navios de superfície e submarinos russos, pode voar a cerca de 20 metros acima da superfície do mar ou a 50 metros acima do solo.
Um míssil balístico, por outro lado, apresenta velocidade e trajetória muito diferentes. Impulsionado por motores de foguete, o míssil faz uma trajetória em arco de grande altitude antes de descer em direção ao alvo.
O alcance varia, mas as velocidades são extremas: o míssil balístico russo de curto alcance Iskander voa a uma velocidade de seis a sete vezes superior à do som e pode transportar até 700 quilos de explosivos.
Um míssil balístico intercontinental de longo alcance — projetado originalmente para lançar ogivas nucleares para fora da atmosfera antes de seu reingresso — pode voar de uma base de lançamento nos Estados Unidos, passando pelo Círculo Polar Ártico, até um alvo na Rússia em 30 minutos ou menos.
Em ataques recentes a Kiev, as sirenes de alerta aéreo soaram simultaneamente aos impactos.
A Rússia disparou o míssil Oreshnik, uma arma hipersônica de alcance intermediário, contra a Ucrânia em algumas ocasiões, em ataques vistos como um sinal da disposição de Moscou em escalar o conflito.
No entanto, sistemas de curto alcance, como o míssil balístico Iskander, têm sido a principal ferramenta das forças armadas russas.
Autoridades ucranianas afirmam que os russos também adaptaram mísseis de defesa aérea S-400 para uso como mísseis balísticos contra alvos na Ucrânia.
Que diferença a produção de mísseis Patriot faria para a Ucrânia?
Diante da escassez de interceptadores e do agravamento dos ataques às suas cidades, a Ucrânia tem pressionado os EUA pela coprodução do sistema Patriot.
O presidente americano, Donald Trump, sinalizou à margem da cúpula da Otan, a aliança militar ocidental, realizada no mês passado na Turquia que poderia estar disposto a autorizar a coprodução ucraniana do Patriot.
No entanto, na semana passada, ele pareceu frustrar as expectativas da Ucrânia ao declarar: “Estamos conversando sobre isso, mas é difícil ceder esse tipo de tecnologia”.
Enquanto isso, autoridades ucranianas afirmam que a Rússia está reforçando seu arsenal com mísseis balísticos norte-coreanos, elevando ainda mais a ameaça.
Vladyslav Vlasyuk, enviado presidencial da Ucrânia para questões de sanções, disse que o país identificou um míssil norte-coreano KN-23 que destruiu recentemente uma casa em Radushne, na zona rural da região de Dnipropetrovsk, matando seis pessoas, incluindo três crianças.
Outras cinco crianças continuam desaparecidas após o ataque.
O KN-23, segundo ele, “é praticamente um equivalente exato do Iskander russo. Eles compartilham até mesmo componentes idênticos, inclusive alguns de fabricação ocidental”.
“Esse é um exemplo da dependência da Rússia em relação à ajuda militar da Coreia do Norte. Mísseis norte-coreanos estão matando civis ucranianos assim como os russos”, adicionou.
Além disso, a lacuna na defesa antimísseis da Ucrânia pode aumentar devido à guerra entre os EUA e o Irã.
Conforme noticiado pela CNN nesta semana, as Forças Armadas dos EUA consumiram quase quatro quintos do estoque de outro sistema de defesa antimísseis — o THAAD —, segundo várias fontes a par do assunto.
O inventário de interceptadores Patriot caiu cerca de metade desde o início da guerra, de acordo com duas fontes familiarizadas com o relatório de inventário mais recente.
“A defesa contra mísseis balísticos continua sendo um problema difícil”, afirmou a analista militar Dara Massicot em uma publicação no X, após uma recente visita de pesquisa à Ucrânia.
“Os problemas dos interceptadores Patriot são conhecidos. A Ucrânia sabe o que precisa ser feito e, na minha opinião, chegou o momento de considerar os Planos B e C sobre como minar a capacidade de lançamento da Rússia.”
E, enquanto Kiev avalia os Planos B e C, o tempo urge para as cidades ucranianas, à medida que a Rússia intensifica sua campanha de mísseis.
*Svitlana Vlasova, da CNN, contribuiu para esta reportagem

