O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou em conflito com seu secretário de Defesa, também líder do Pentágono, Pete Hegseth, na semana passada, ao questioná-lo sobre o baixo estoque de munição do Exército americano, informou o jornal The Washington Post.
Segundo veículo, citando duas fontes familiarizadas com o assunto, Trump questionou o secretário sobre por que ele foi enganado a respeito da escassez de munições a serem usadas em ataques contra o Irã, na guerra no Oriente Médio.
Uma das fontes disse ao veículo que a falta de munição motivou o presidente a cancelar o último ataque contra Teerã.
Fontes familiarizadas com o assunto disseram à CNN que os militares americanos já consumiram quase 80% dos interceptadores de um importante sistema de defesa antimísseis, enquanto altos comandantes alertam que os estoques de munições do Pentágono estão “perigosamente baixos”.
Os estoques de sistemas essenciais de defesa aérea foram particularmente reduzidos durante a guerra no Oriente Médio.
Os militares americanos já utilizaram quase quatro quintos de seu inventário de mísseis THAAD em comparação com os níveis anteriores ao conflito, além de aproximadamente metade dos interceptadores Patriot desde o início da guerra, segundo duas fontes com conhecimento do mais recente relatório de inventário.
O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) estima que os Estados Unidos possuíam cerca de 2.200 mísseis Patriot (das duas versões mais modernas da plataforma) e 452 mísseis THAAD em seus estoques antes do início da guerra contra o Irã.
Trump afirmou que os Estados Unidos possuem “quantidades enormes” de munições, após os relatos sobre baixo estoque.
“Os EUA têm quantidades enormes de ‘munições’, especialmente de certos tipos. Além disso, grandes quantidades estão sendo fabricadas e enviadas para os EUA conforme a necessidade”, publicou Trump na rede social Truth Social na madrugada desta quinta-feira (6). Ele não especificou a quais munições se referia.
“Empresas de defesa estão construindo o maior número de instalações e fábricas da história do nosso país”, acrescentou o líder americano.
Relação afetada
Ao ser questionado pelo presidente, Pete Hegseth teria se defendido, culpando seu vice-secretário, Stephen Feinberg, pela falta de munição e pela desinformação de Trump, relataram pessoas a par da conversa ao Washington Post.
Autoridades avaliam que a conversa indica uma frustração crescente do líder americano com o chefe do Pentágono, diz o jornal.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, e o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, foram questionados pelo veículo sobre as informações das fontes.
Leavitt afirmou que a informação é falsa e Trump “confia totalmente” em Heghseth. Parnell afirmou que o secretário não culpou o vice e as informações sobre o baixo estoque são “igualmente fictícias”.
Baixo estoque
A questão dos estoques voltou a ser levantada antes da decisão do presidente, no fim de semana passado, de cancelar novos ataques contra o Irã. Foi, pelo menos, a segunda vez nas últimas semanas em que os principais assessores militares de Trump manifestaram preocupação com a redução do número de munições estratégicas dos EUA durante discussões sobre uma possível intensificação do conflito com o Irã.
O Exército dos Estados Unidos também utilizou “praticamente todas” as suas armas de alta precisão de longo alcance e superfície-ar durante o conflito, segundo uma fonte com acesso a relatórios internos recentes do Pentágono.
A agência de notícias Reuters foi a primeira a noticiar as preocupações específicas sobre os estoques americanos de mísseis estratégicos de longo alcance.
Ataques do fim de semana cancelados
Os alertas recentes sobre a escassez de munições — somados a outras informações de inteligência apresentadas a Trump sobre os possíveis efeitos negativos de ataques à infraestrutura crítica iraniana, incluindo instalações ligadas ao setor de energia, além das preocupações manifestadas por países do Golfo — foram suficientes para convencer até alguns dos assessores mais favoráveis ao uso da força de que havia motivos para cancelar as operações planejadas para o fim de semana, disseram as fontes.
Na sexta-feira, Trump pretendia seguir adiante com ataques de grande escala, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, recebeu a ordem final para prosseguir, segundo uma alta autoridade do governo.
Mas Trump decidiu recuar após conversar, no sábado, com aliados do Oriente Médio, que disseram temer uma retaliação iraniana, especialmente ataques contra sua infraestrutura energética, afirmou a autoridade. Trump concordou em ouvir seus aliados e também o Irã.
Em seguida, ordenou a Hegseth que suspendesse a operação, por enquanto, embora não tenha descartado a possibilidade de realizar os ataques futuramente.
“As Forças Armadas dos Estados Unidos são as mais poderosas do mundo e têm tudo de que precisam para agir no momento e no local escolhidos pelo presidente”, afirmou o principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, em comunicado enviado à CNN.
“Conduzimos diversas operações bem-sucedidas em diferentes comandos de combate, ao mesmo tempo em que garantimos que os militares americanos mantenham um amplo arsenal de capacidades para proteger nosso povo e nossos interesses”, acrescentou.
A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, disse à CNN que os militares americanos “têm munições, armamentos e estoques mais do que suficientes para cumprir todos os objetivos estratégicos do presidente Trump e muito mais”.
“A Operação Epic Fury mostrou o que acontece quando se desafiam os Estados Unidos. Ainda assim, o presidente incentivou nossos fornecedores de defesa a ampliar continuamente a produção de armas fabricadas nos Estados Unidos, que são as melhores do mundo”, acrescentou Kelly.
O chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, também levantou a questão dos estoques durante outra reunião na Casa Branca, no fim do mês passado, na qual foram discutidas opções militares para ampliar o conflito, informou anteriormente a CNN. A possibilidade de um grande número de vítimas civis no Irã caso os EUA retomassem operações militares de grande porte também foi mencionada, segundo outra pessoa familiarizada com o assunto.
Mas as preocupações persistentes com os níveis dos estoques, informadas à CNN, reforçam a gravidade da escassez e levantam dúvidas sobre a capacidade dos Estados Unidos de manter uma campanha prolongada de ataques contra o Irã.
A falta de estoques também pode comprometer a capacidade dos militares americanos de enfrentar um eventual conflito futuro contra a China, Rússia ou até a Coreia do Norte, disseram especialistas à CNN.
“Olho por olho nunca acabará com isso”
“A falta de interceptadores significa que ataques convencionais podem sair pela culatra se drones suicidas começarem a ultrapassar as defesas em grande quantidade”, disse uma das fontes familiarizadas com as preocupações sobre os estoques. “Olho por olho nunca acabará com isso.”
Os principais mísseis de longo alcance consumidos durante a guerra contra o Irã são os Army Tactical Missile Systems (ATACMS) e os Precision Strike Missiles (PrSM), observaram as fontes.
Os estoques americanos de mísseis Tomahawk também continuam significativamente reduzidos: quase metade dessas armas já foi utilizada durante a guerra, segundo uma das fontes.
A CNN informou em abril que os militares americanos haviam consumido cerca de 30% de seus mísseis Tomahawk nas primeiras fases do conflito.
Na segunda-feira, Trump classificou a liderança iraniana como “inacreditavelmente dissimulada” nas redes sociais, após Teerã contradizer sua afirmação de que as negociações seriam retomadas.
Mais tarde, ele insistiu que esta é a “última chance” de o Irã assinar um acordo, mas também afirmou que não enfrenta pressão de tempo nas negociações, já que não pretende disputar a reeleição.
A fase inicial do conflito com o Irã, chamada de Operação Epic Fury, levou os militares americanos a gastar milhares de mísseis essenciais utilizados tanto em ataques de precisão de longo alcance quanto na defesa contra ataques aéreos e de mísseis inimigos, segundo analistas e reportagens anteriores da CNN.
Especialistas disseram à CNN que o ritmo de reposição desses armamentos é baixo. De acordo com o cronograma de entregas do atual ano fiscal, o Pentágono recebe cerca de 15 novos mísseis Tomahawk e 20 novos mísseis Patriot por mês. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais estima que serão necessários três anos ou mais para reconstruir os estoques de THAAD aos níveis anteriores à guerra contra o Irã.
Nos últimos meses, o Departamento de Defesa acelerou os esforços para ampliar a produção de mísseis interceptadores, incluindo dois contratos assinados nesta semana para expandir a fabricação de motores de foguetes dos sistemas Patriot e THAAD. No entanto, um porta-voz recusou-se a responder quando essa expansão deverá produzir resultados concretos.
Analistas afirmam que poderá levar anos para que os Estados Unidos recomponham totalmente seus estoques de munições de alta tecnologia, como os mísseis Patriot, devido ao longo tempo necessário para sua fabricação.
Já outros estoques, como os dos mísseis Precision Strike Missile (PrSM) e Joint Air-to-Surface Standoff Missile (JASSM), devem se recuperar mais rapidamente e voltar aos níveis anteriores à guerra entre meados e o fim de 2027, segundo análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
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