Investigações e informações de inteligência apontam para o crescimento do vazamento de dados pessoais e a construção de “marketplaces” por criminosos para dar golpes digitais. Informações cadastrais, histórico financeiro e vínculos financeiros, somados com o uso da inteligência artificial, são caminhos utilizados pelos bandidos.
Segundo a Apura Cyber Intelligence, agência de inteligência que coopera com forças de segurança, vazamentos de dados, cada vez mais frequentes, são organizados em plataformas estruturadas de consulta online, facilitando o acesso às informações pessoais muito além dos fóruns clandestinos.
“Essas plataformas funcionam como sistemas de busca alimentados por bases de dados obtidas em diferentes incidentes de segurança ao longo dos últimos anos, além de acesso não autorizado a APIs de diferentes organizações”, afirma Sandro Süffert, CEO da Apura. Prints compartilhados pela empresa mostram a extensão de dados reunidos por criminosos, como logins, dívidas e até informações sobre vacinação e boletins de ocorrência.
O delegado da Divisão de Crimes Cibernéticos do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) da Polícia Civil de São Paulo, Christian Nimoi, explica que hoje já existem diversos formatos de golpes: falso familiar, extorsão a partir do acesso a um endereço residencial, por exemplo, falso advogado e falso gerente bancário.
Inteligência artificial e deepfake
Segundo o delegado Namoi, o alerta principal é para as deep fakes. Com o uso de IA e o vazamento de dados, criminosos conseguem replicar vozes de familiares para enganar vítimas.
A inteligência artificial não só é utilizada para a execução dos golpes, mas também para evoluir a estrutura criminosa e dificultar investigações. “A IA deve fazer os “escritórios de golpes” diminuírem. Com a tecnologia, uma pessoa pode conseguir operar diversos golpes ao mesmo tempo“.
A partir de um CPF ou número de telefone, é possível reunir dados cadastrais, histórico financeiro, registros de documentos e outras informações que permitem validar a identidade de uma pessoa em poucos segundos. “Não estamos lidando apenas com o roubo de dados, mas com a sua industrialização. Esses painéis reduzem drasticamente o esforço do golpista. O que antes levava dias de pesquisa agora é entregue em segundos“, explica o executivo da Apura.
O delegado da DCCiber aponta que, em quadrilhas de golpes com mais estrutura, já foram identificados traços de participação de facção criminosa. “Alguns tem até contadores dentro da divisão de tarefas da organização criminosa“, contou.
Exploração de falhas e novo modelo de operação
De acordo com a agência, essas estruturas exploram falhas técnicas e hackeiam plataformas com malwares para coletar credenciais em aparelhos infectados. Essas credenciais permitem o acesso a sistemas corporativos e serviços internos. Quando combinadas com diretórios públicos e serviços configurados de forma inadequada, possibilitam a extração contínua de dados e a criação de novas bases clandestinas.
Ao longo de 2025, a Apura identificou que parte dos grupos passou a oferecer acesso a essas bases por meio de interfaces normalmente utilizadas para integração entre sistemas. Nesse modelo, o acesso aos dados é vendido em marketplaces digitais que simulam ambientes voltados ao desenvolvimento de software.
A estrutura reduz a complexidade técnica da fraude e dá agilidade aos criminosos, segundo a agência. O fraudador passa a integrar a API a scripts automatizados, capazes de consultar dados em grande escala e alimentar diferentes tipos de golpes digitais.
“Se não atacarmos a infraestrutura que permite a reutilização desses dados, estaremos apenas reagindo aos sintomas. A fraude digital hoje opera como um sistema estruturado, com logística, ferramentas e escala”, conclui Süffert.
O delegado Namoi orienta para que a população tenha cautela quando receber algum contato pelo celular. “É importante ter consciência digital. Não clicar em qualquer link no telefone e optar por ir a uma agência bancária falar pessoalmente com um gerente, por exemplo”,

