Embora a colheita da safra brasileira de café caminhe para os momentos finais as cotações do grão registraram forte valorização ao longo do mês de julho, desafiando a pressão de baixa tradicionalmente exercida pelo pico de oferta saindo dos campos.
De acordo com levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) o café arábica fechou o mês de julho com alta de 10,48% no mês, com a saca de 60 quilos sendo negociada a R$ 1.729,84.
O suporte nos preços veio de fatores climáticos adversos e da oferta restrita apesar da colheita
As chuvas constantes, e fora de época, que atingiram importantes regiões produtoras de café arábica nas últimas semanas geraram preocupações entre os agentes do mercado.
Além do ritmo do trabalho no campo abaixo da média, outra preocupação é quanto à qualidade dos grãos e da bebida.
Márcio Ferreira, presidente do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) aponta que, apesar da expectativa inicial de uma super safra de café arábica e de volumes importantes no conilon, as intempéries climáticas mudaram o cenário produtivo e principalmente de escoamento, que ficaram mais evidentes em julho. O atraso operacional impossibilitou a recuperação esperada nos volumes embarcados ao longo do mês.
Informações compiladas pelos pesquisadores do Cepea junto a produtores, cooperativas e tradings indicam que a colheita do café arábica segue para o encerramento, restando cerca de 20% da área cultivada no país a ser colhida.
Na maioria das regiões produtoras as equipes se concentram e na colheita dos últimos talhões e no recolhimento do café do chão, etapa importante para reduzir as perdas.
No setor de café robusta (ou conilon) os trabalhos de campo foram praticamente concluídos em julho, segundo o Cepea. Apesar da expectativa inicial de queda nos preços, por causa da safra cheia, as cotações do robusta também engataram alta de quase 3% no mês. Essa sustentação foi garantida pelo volume de produção menor nesta temporada, reflexo de restrições produtivas anteriores, além do efeito de “contágio” puxado pela forte valorização do café arábica no mercado doméstico e internacional.
O presidente do Cecafé destaca que, no cenário internacional, o volume de café certificado nas bolsas de Nova York permanece em patamares baixos para a época.
Com o atraso na colheita a oferta de cafés arábicos, aptos à certificação, sofreu retração. O produto permanece retido no campo à espera de condições climáticas favoráveis para a secagem. “A estimativa de superávit na produção mundial inclui principalmente a maior oferta aqui no Brasil. Mas os atrasos nas entregas geraram a instabilidade no mercado”, reforça Ferreira. A estimativa, segundo o presidente do Cecafé, é de recuperação gradual nos fluxos de exportação ao longo de agosto, ainda que com perfis qualitativos distintos.
Posição reforçada por Gil Carlos Barabach, analista da Safras & Mercado. Os baixos estoques certificados nas bolsas internacionais mantêm o mercado operando sob alta sensibilidade. “Com margens curtas de suprimento, qualquer sinal de alerta em relação ao abastecimento global é suficiente para atrair volatilidade e empurrar os preços para cima. Esse cenário de oferta restrita e restrições qualitativas quebrou as expectativas iniciais do mercado internacional, que contava com uma chegada mais fluida e volumosa da safra do Brasil.” reforça o analista.
A alta registrada nas bolsas internacionais acabou refletiu no mercado físico brasileiro, embora em intensidade ligeiramente diferente.
Em meio a volatilidade nos preços cafeicultores brasileiros adotam postura comercial mais seletiva
Beneficiados pelas receitas acumuladas nas safras anteriores, os cafeicultores brasileiros conseguem também dosar o ritmo de oferta e comercialização à medida que o mercado atinge novos patamares de alta.
“Os produtores estão extremamente capitalizados, fruto dos bons preços nos últimos anos, e sabiamente podem dosar as vendas à medida que o mercado registra novos patamares de alta. Os cafés que estão sendo liberados nesse momento são principalmente de “good cup”. Enquanto os prêmios para os cafés mais finos, como “fine cup” e cafés especiais, tendem a aumentar cada vez mais, porque a produção e a qualidade estão bastante afetadas”, detalha Ferreira.
A volatilidade climática e os fatores logísticos continuarão a desempenhar papel determinante na sustentação dos preços, na renda do cafeicultor brasileiro e na competitividade da cadeia exportadora no escoamento dessa safra. Logo o foco do mercado deve migrar para os impactos do clima na floração da próxima safra com a influência do El Niño.

