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Produção de biometano deve saltar no Brasil até 2032 com novas plantas

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Produção de biometano deve saltar no Brasil até 2032 com novas plantas

A volatilidade do mercado internacional de petróleo e a defasagem entre os preços do diesel no Brasil e no exterior estão ampliando a incerteza sobre os custos logísticos do agronegócio. Neste contexto algumas empresas começam a considerar o biometano não apenas como uma alternativa sustentável, mas também como uma estratégia para reduzir riscos financeiros.

A avaliação é de Edson Guimarães, CEO da LOTS Group, empresa especializada em logística sustentável. Em entrevista à CNN Agro, o executivo afirma que a discussão sobre combustíveis alternativos deixou de estar restrita às metas de descarbonização e passou a fazer parte da estratégia de gestão das cadeias de suprimentos.

“O biometano precisa ser visto como uma alavanca de gestão de risco e de construção de resiliência para o transporte rodoviário de cargas”, afirma.

O Brasil possui potencial para produzir cerca de 43 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano, volume equivalente a aproximadamente 60% do consumo nacional de diesel.

Apenas a cadeia da cana-de-açúcar concentra quase metade desse potencial, com 21 bilhões de metros cúbicos anuais, seguida pela proteína animal, com 13 bilhões de metros cúbicos, pelos resíduos agrícolas, com 7 bilhões de metros cúbicos, e pelo setor de saneamento, responsável por cerca de 3 bilhões de metros cúbicos.

A tendência é de que a expansão da oferta se acelere nos próximos anos. A capacidade instalada projetada para produção de biometano deve saltar de 657 milhões de metros cúbicos por ano, em 2025, para 2,92 bilhões de metros cúbicos anuais até 2032, impulsionada pela entrada em operação de 138 novas plantas já mapeadas.

São Paulo deve concentrar a maior parte dessa expansão, favorecido pela forte presença da cadeia sucroenergética no estado.

Volatilidade dos preços do diesel

Para o executivo, a principal preocupação das empresas hoje não é apenas uma eventual alta imediata do diesel, mas a dificuldade de prever quanto custará transportar a produção nos próximos meses.

A situação ocorre em um momento em que muitas companhias estão elaborando seus orçamentos para 2027. Como o transporte rodoviário responde por grande parte da movimentação de cargas do agronegócio brasileiro, a incerteza sobre o combustível dificulta a definição dos custos logísticos.

Guimarães cita levantamento da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), que aponta defasagem de cerca de 58% entre o preço do diesel praticado no Brasil e a referência internacional.

Segundo ele, mesmo que essa diferença não seja imediatamente repassada às bombas, ela cria um ambiente de incerteza para embarcadores e transportadoras. “Os executivos ficam sem saber qual custo considerar para a logística do próximo ano. Isso aumenta muito a dificuldade de planejamento”, explica,

Diversificação ganha espaço

Na avaliação do executivo, reduzir a dependência exclusiva do diesel pode trazer maior previsibilidade financeira às operações.

Isso porque a formação de preços do gás natural e do biometano segue uma lógica diferente da do diesel, fortemente influenciado pelo mercado internacional de petróleo, câmbio e fatores geopolíticos.

“Os contratos de fornecimento de gás e biometano costumam ter horizonte de longo prazo, oferecendo previsibilidade maior para o custo do combustível”, conta.

Essa característica transforma os combustíveis alternativos em uma ferramenta para diminuir a exposição das empresas às oscilações do mercado internacional.

Apesar do potencial, Guimarães afirma que a transição para o biometano exige mudanças estruturais na operação logística. “O maior erro é imaginar que basta substituir um caminhão a diesel por outro movido a gás. É preciso redesenhar toda a operação.”

Para ele, a decisão envolve analisar disponibilidade regional de combustível, localização das plantas produtoras, infraestrutura de abastecimento, rotas, perfil das viagens e fornecedores.

Como exemplo, o executivo cita uma operação desenvolvida pela LOTS em parceria com a usina Cocal. Desde março deste ano, 44 caminhões movidos a biometano realizam o transporte de vinhaça dentro das operações da companhia.

Nesse modelo, a usina produz o próprio biometano e investiu na infraestrutura de abastecimento, enquanto a LOTS ficou responsável pela gestão da frota e da manutenção dos veículos. “A experiência demonstra que já é possível alcançar custos semelhantes aos de uma operação tradicional movida a diesel”, conta.

“Quando o combustível é produzido dentro da própria operação, o acesso ao biometano se torna muito mais competitivo do que transportá-lo por centenas de quilômetros.”

Segundo ele, a expansão da produção nacional de biometano poderá acelerar essa migração nos próximos anos, embora seja difícil estimar qual parcela do diesel poderá ser efetivamente substituída.

“A questão não é mais se essa transição vai acontecer, mas quando ela vai acontecer.”

Guimarães acredita que a adoção do biometano depende de uma visão de longo prazo por parte das empresas. Na avaliação do executivo, operações de grande volume, rotas dedicadas e fluxos logísticos recorrentes tendem a liderar essa transformação, já que permitem maior otimização da infraestrutura de abastecimento.

Ele afirma que ainda existe a percepção de que a logística verde é necessariamente mais cara, mas considera que essa realidade começa a mudar.

“Já existem operações com paridade de custos em relação ao diesel e até casos em que as empresas obtêm economia após a migração para o biometano.”

Para o executivo, além da redução das emissões de carbono, a principal vantagem da diversificação dos combustíveis será tornar as cadeias logísticas mais previsíveis diante das oscilações do mercado internacional de energia.

“Construir uma cadeia mais resiliente significa conseguir planejar melhor os custos do transporte e reduzir a exposição às incertezas do diesel”, conclui.

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