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Análise: EUA e China disputam influência sobre o Peru

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Análise: EUA e China disputam influência sobre o Peru

Após 36 anos desde que o falecido Alberto Fujimori foi declarado presidente do Peru, sua filha Keiko prestou juramento no mesmo local, após três tentativas fracassadas.

Ao mencionar a política externa de seu novo governo, diante de uma audiência que tinha como convidados especiais oito presidentes da América Latina, além do rei Felipe da Espanha, Keiko Fujimori afirmou aos convidados que sua administração está pronta para priorizar a construção e consolidação de alianças na região, assim como buscar novos cenários de investimento.

“Diante desse contexto global, vamos priorizar nosso papel no APEC (Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e abrir novas oportunidades de investimento e cooperação com os países amigos do Oriente Médio. Nossa posição geográfica pode permitir que o Peru se consolide como a ponte que conecta esses continentes aos mercados da América Latina e do Caribe”, disse a nova presidente.

Com sorrisos, felicitações e apertos de mão para as câmeras, Fujimori recebeu, antes de sua posse, tanto o enviado especial do presidente da China e ministro da Ciência e Tecnologia, Yin Hejun, quanto a delegação americana, liderada pelo vice-secretário de Estado, Christopher Landau, representantes de dois países que disputam influência em seu novo governo.

Peru e China: uma relação pronta para alcançar um novo patamar com avanços excepcionais

Durante o encontro entre Fujimori e Yin Hejun, o representante chinês lembrou a posição da China como o maior parceiro comercial e principal mercado de exportação do Peru durante 12 anos consecutivos, segundo informou a agência estatal Xinhua.

“Além disso, o porto de Chancay, um projeto emblemático da cooperação de alta qualidade da Iniciativa Cinturão e Rota entre os dois países, alcançou avanços excepcionais”, acrescentou Yin Hejun.

O mega terminal de águas profundas de Chancay, na costa peruana, inaugurado pelo presidente da China em 2024 e operado pela empresa Cosco Shipping Ports Chancay Perú, tornou-se um símbolo do resultado de décadas de investimento e cooperação, além dos laços históricos e culturais entre os dois países.

Semanas antes, Xi Jinping parabenizou Fujimori e afirmou, em uma carta, sua disposição de trabalhar com ela para “elevar continuamente a Parceria Estratégica Integral China-Peru a novos patamares, em maior benefício de ambos os povos”.

Para a China, o governo de Fujimori permitirá dar um novo impulso à estrutura das relações que existem atualmente, afirmou à CNN Juan Carlos Capuñay, ex-embaixador do Peru na China, no Japão e em Singapura.

Keiko também representa o legado de seu pai nas relações com a China. Alberto Fujimori visitou o país asiático pela primeira vez em 1991, viagem que resultou no primeiro grande investimento chinês na região, com as minas de Marcona pelo grupo Shougang e no setor de petróleo pelo grupo Sapet, destacou Capuñay.

A China também teve um papel importante ao apoiar a candidatura peruana ao Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, um fórum que o novo governo reafirma ser a principal plataforma para atrair investimentos.

A ofensiva diplomática dos Estados Unidos: o novo governo responde

Desde o fim de 2025, Washington acelerou os sinais de aproximação com o Peru para expandir seus interesses econômicos e de segurança, tentando conter a presença e os investimentos da China.

“Não estamos ganhando no Peru. Estamos ficando para trás, porque durante muitos anos estivemos distraídos. Distraídos com outras partes do mundo”, disse o embaixador Bernie Navarro durante um fórum virtual organizado pelo Atlantic Council no fim de junho.

Com a posse de Fujimori, o governo de Trump tem uma nova oportunidade para expandir sua ofensiva diplomática e dar sua aprovação ao novo governo.

Após mais de um encontro entre Fujimori e a delegação liderada por Landau e pelo embaixador americano em Lima, Bernie Navarro, além de outros representantes oficiais, Washington anunciou a ampliação de sua agenda de cooperação em diferentes áreas, incluindo segurança, combate ao crime organizado, mineração ilegal e narcotráfico, além de comércio e investimentos.

“O compromisso do meu país é construir junto com o Peru uma região mais próspera por meio do comércio, dos investimentos e da cooperação em segurança”, disse Landau nas redes sociais.

E embora o presidente Donald Trump ainda não tenha conversado pessoalmente com a presidente e também não tenha manifestado publicamente apoio a ela durante sua campanha eleitoral, o secretário de Estado, Marco Rubio, ligou para Fujimori nesta sexta-feira (31) e afirmou que a nova presidente “traz ao Peru a estabilidade política de que tanto necessita”, segundo um porta-voz do Departamento de Estado.

Rubio reiterou o compromisso de sua administração com “a cooperação em matéria de segurança contra o crime transnacional, a ampliação do comércio e dos investimentos e a melhoria da preparação diante de desastres”.

O último ponto faz referência aos possíveis efeitos do fenômeno El Niño no país nos próximos meses, uma prioridade imediata para o governo de Fujimori. A presidente reiterou a Rubio, durante a ligação, seu interesse em integrar o Escudo das Américas, uma aliança impulsionada por Trump da qual fazem parte 13 países da região.

“O Escudo das Américas busca unir os esforços de países que enfrentam o crime organizado e o narcotráfico, além de compartilhar informações, porque entendemos que esse tipo de problema e essas ameaças não respeitam fronteiras; pelo contrário, invadem continentes.

É por isso que o Peru gostaria de participar, é conveniente para nós participar, e acredito que os países que já fazem parte também teriam interesse que o Peru pudesse integrar a iniciativa e contribuir com informações”, disse Fujimori a veículos de imprensa locais neste sábado.

Em entrevista à CNN antes do segundo turno eleitoral, Fujimori afirmou que a presença de Rubio estabelece agora “pontes e relações muito mais próximas, com um diálogo mais fluido”.

Estados Unidos x China: como manter o equilíbrio e o que Fujimori pode oferecer?

O plano do novo governo prometeu uma política externa soberana e pragmática, além de uma relação “estratégica equilibrada” com ambas as potências, sem um alinhamento automático com nenhuma delas. Mas o retorno do Fujimorismo ao poder se encaixaria muito bem na ofensiva diplomática de Washington.

“Primeiro, ela oferece a possibilidade de ter um governo mais estável no Peru após uma década de alta instabilidade. Seus votos no Senado são suficientes para evitar uma destituição por ‘incapacidade moral’”, explicou à CNN Julio Carrión, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Delaware e especialista em política peruana. “Segundo, ela consolida o bloco de direita nos países andinos, agora que Abelardo De la Espriella substituirá Gustavo Petro na Colômbia. Com a Venezuela e com presidentes de centro-direita no Equador, Peru, Colômbia e Bolívia, a sub-região andina apresenta atualmente uma forte tendência pró-Estados Unidos.”

Mas tentar manter um delicado equilíbrio entre as duas potências no atual contexto geopolítico internacional e diante da personalidade imprevisível do presidente Trump será complexo, e muitos se perguntam se Fujimori conseguirá evitar ceder às pressões de Washington ou Pequim.

“Esse é o principal desafio que ela enfrenta. Keiko Fujimori não é muito ideológica, embora suas preferências pelo espectro ideológico de direita sejam muito claras. Acredito que ela sabe que sua presidência durará mais do que a de Donald Trump e, portanto, tem uma margem de manobra relativa, porque seu horizonte de tempo é mais longo”, argumentou Carrión.

“A China, acredito, vai observar o que ela faz, e não apenas o que ela diz. Pode aceitar sem problemas uma retórica mais pró-Estados Unidos, desde que seus interesses fundamentais não sejam afetados”, acrescentou Carrión.

“O que Keiko Fujimori pode oferecer a ambos os países é a promessa de estabilidade nas relações, sem mudanças abruptas que prejudiquem um em benefício do outro”, afirmou.

A atuação e a experiência do novo chanceler, Carlos Espá, serão fundamentais nos próximos meses. Advogado, jornalista e com experiência como ex-diretor de Comunicações da Embaixada dos Estados Unidos em Lima, seu histórico o colocaria mais próximo daquele país. A chegada de um novo embaixador em Washington também será fundamental para manter esse delicado equilíbrio.

E embora ainda não esteja previsto um encontro pessoal entre Trump e a presidente peruana, uma reunião bilateral entre a mandatária e o presidente Xi Jinping poderá ocorrer durante a cúpula da APEC na China, em novembro próximo, destacou Capuñay.

Esse seria o melhor cenário para levar a relação com o país asiático a um novo patamar, enquanto os Estados Unidos tentam assumir a dianteira.

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