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O papel da amamentação em desastres e emergências humanitárias

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
O papel da amamentação em desastres e emergências humanitárias

Faço parte de uma associação internacional de médicos dedicada ao ensino, ao estudo, à pesquisa e à promoção da amamentação. O grupo reúne pediatras, neonatologistas, obstetras, médicos de família e pesquisadores que atuam diretamente com gestantes, mães e lactentes em todos os continentes. Apesar das diferenças culturais, sociais e econômicas entre os países, compartilhamos um objetivo comum: proteger, promover e apoiar o aleitamento.

Há pouco mais de um mês, em 24 de junho de 2026, dois fortes terremotos atingiram a Venezuela, provocando milhares de mortes, feridos e pessoas desalojadas, além de enormes prejuízos à infraestrutura e aos serviços de saúde. Nesta semana, recebemos uma mensagem de uma pediatra venezuelana, membro de nosso grupo, que participou diretamente das ações de resposta à tragédia. Em seu relato emocionado, ela descreveu as enormes dificuldades enfrentadas pelas equipes de saúde nos resgates, no atendimento aos feridos, na organização dos hospitais e na distribuição de suprimentosessenciais.

Entre tantos desafios, destacou um aspecto frequentemente negligenciado: o cuidado com gestantes, recém-nascidos, lactentes e mães que amamentam. Garantir a continuidade da amamentação, oferecer apoio às nutrizes e proteger a alimentação infantil são prioridades tão importantes quanto o tratamento dos traumatizados, pois, em um cenário de escassez de água potável, energia elétrica e saneamento, o leite materno representa a forma mais segura de alimentar um bebê. Embora terremotos de grande magnitude não façam parte da realidade brasileira, as mudanças climáticas vêm intensificando a ocorrência de eventos extremos em nosso país. Enchentes, secas prolongadas, queimadas, deslizamentos de terra e ondas de calor têm se tornado cada vez mais frequentes e intensos. Nessas circunstâncias, proteger e apoiar a amamentação pode significar reduzir significativamente o risco de doenças e de mortalidade infantil.

Por que desastres levam ao desmame precoce

As condições impostas pelos desastres podem dificultar a continuidade do aleitamento materno. A perda da moradia, a separação de familiares, o sofrimento emocional, a insegurança alimentar, a interrupção do acompanhamento pré-natal e puerperal e a falta de privacidade nos abrigos podem levar ao abandono do aleitamento materno. O maior risco está na ausência de apoio qualificado, de acolhimento e de orientação adequada, fatores que podem levar ao desmame precoce e ao uso inadequado de fórmulas infantis em ambientes sem condições sanitárias seguras.

O leite materno como proteção imediata

O leite materno é um alimento vivo, completo e seguro. Nos primeiros seis meses de vida, ele supre todas as necessidades nutricionais do bebê, além de fornecer anticorpos, células de defesa, fatores antiinflamatórios e outras substâncias que reduzem significativamente o risco de infecções respiratórias e gastrointestinais. Quando catástrofes interrompem o abastecimento de água, isolam comunidades ou obrigam famílias a abandonar suas casas, a alimentação infantil passa a representar um enorme desafio.
Nesses momentos, a amamentação oferece uma vantagem incomparável: o alimento está disponível imediatamente, na temperatura adequada, sem necessidade de água tratada, energia elétrica, esterilização de utensílios ou logística de distribuição.

A experiência compartilhada pela nossa colega venezuelana reforça que esse problema é universal. Em sua carta, ela descreveu as dificuldades de atendimento nos primeiros dias após o terremoto e o trabalho das equipes de saúde na organização de espaços de acolhimento e na orientação das famílias sobre a importância da manutenção do aleitamento materno.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) orientam que a alimentação infantil seja considerada prioridade em qualquer resposta humanitária. É recomendado que mães e bebês permaneçam juntos sempre que possível, que sejam criados espaços seguros para amamentação nos abrigos e que profissionais capacitados ofereçam apoio contínuo às nutrizes. Também alertam que a distribuição indiscriminada de fórmulas infantis deve ser evitada, sendo indicada apenas quando houver necessidade clínica e acompanhamento profissional, uma vez que seu uso inadequado aumenta o risco de infecções e desnutrição em cenários de escassez de água potável e saneamento.

Os eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos nas próximas décadas. Por isso, a proteção da saúde materno-infantil deve ser incorporada às políticas públicas de adaptação climática e de gestão de riscos e desastres. Isso inclui capacitar equipes de saúde para o manejo da amamentação em emergências, garantir que abrigos disponham de espaços adequados para mães e bebês, fortalecer a rede de Bancos de Leite Humano e incluir protocolos específicos para alimentaçãoinfantil nos planos de resposta a desastres.

Mais do que uma recomendação nutricional, a amamentação representa uma estratégia de sobrevivência. A carta da colega venezuelana nos lembra que, em meio aos escombros de um desastre, a visão de uma mãe amamentando seu filho é um sinal de esperança. Em um país como o Brasil, cada vez mais exposto aos impactos das mudanças climáticas, reconhecer o aleitamento materno como parte das ações de preparação e resposta às emergências é uma medida necessária, baseada em evidências científicas e em experiências compartilhadas por profissionais de saúde de todo o mundo. Cuidar da amamentação durante os desastres significa proteger vidas justamente quando elas se encontram em condição de vulnerabilidade.

(Texto escrito pela pediatra e coordenadora dos berçários setoriais da ProMatre Paulista Dra. Monica Vilela Carceles Fraguas (CRM 47825 | RQE 120491), membro da Brazil Health)

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