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Trigo acumula alta em julho com oferta menor e riscos geopolíticos

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Trigo acumula alta em julho com oferta menor e riscos geopolíticos

Os contratos de trigo, negociados na Bolsa de Chicago, fecharam julho com alta de 8,5% em relação ao fechamento de junho. Ao longo do mês, o cereal chegou a registrar valorização de 23,1%, em um movimento marcado por forte valorização nas bolsas internacionais e aumento da volatilidade.  

O cereal, que iniciou o período negociado próximo de US$ 5,90 por bushel, chegou a atingir a máxima entre os dias 22 e 24 de julho, quando alcançou a faixa de US$ 7,20 a US$ 7,25 por bushel.

Em seguida, passou por uma correção técnica nos últimos pregões do mês, finalmente encerrando a sessão desta sexta-feira (31) a US$ 6,39 por bushel nos papeis com entrega para setembro. 

Segundo Douglas Araújo, trader da CJ Trading, a intensidade do movimento chamou atenção pelo curto espaço de tempo. “É uma alta muito forte em um período extremamente curto.

Então, a volatilidade no mercado está imensa, com as bolsas internacionais respirando basicamente essa questão logística dos conflitos no Oriente Médio e no Mar Negro”, afirmou. 

A valorização observada ao longo da primeira metade de julho foi sustentada por uma combinação de fatores.

Entre eles estão as preocupações com condições climáticas em importantes regiões produtoras, aspectos geopolíticos e a redução das estimativas para a produção mundial de trigo.

Com isso, o mercado passou a incorporar um prêmio de risco, enquanto compras especulativas contribuíram para acelerar a alta das cotações. 

Após atingir os maiores valores do mês, o mercado passou por realização de lucros e ajustes técnicos a partir de 25 de julho.

As cotações recuaram para a faixa de US$ 6,70 a US$ 6,80 por bushel, mas voltaram a apresentar reação compradora nos últimos pregões do mês, chegando novamente próximo de US$ 6,99 por bushel. 

Para o trader, o mercado internacional atravessa um período de definição.

“Há uma área de redefinição dos preços. Os preços ainda não tomaram uma direção nessa safra nova, se vai ficar operando ali na faixa de US$ 6 por bushel ou se vai romper os US$ 7 e buscar os US$ 8 por bushel. Então é um período bastante sensível de definição de preços no mercado internacional”, explicou. 

Oferta global menor dá sustentação às cotações 

Além dos fatores geopolíticos, o cenário de oferta e demanda global tem papel importante na sustentação dos preços. Dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) indicam uma redução da produção mundial de trigo na comparação com a temporada anterior, com quedas estimadas em importantes produtores. 

Entre os principais países afetados, as projeções apontam redução de 23% na produção dos Estados Unidos, 6% na União Europeia, 2% na Rússia, 25% na Argentina e 15% no Brasil. 

Segundo Elcio Bento, analista da Safras & Mercado, o mercado passou por uma mudança de cenário desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia.

No começo do conflito, o temor era de que os dois grandes exportadores do Mar Negro deixassem de abastecer o mercado internacional, o que provocou forte disparada nos preços, inclusive no Brasil. 

“Depois disso, teve uma inversão de cenários. Os preços internacionais começaram a cair porque o mundo estava produzindo bem. Esses preços altos lá fora incentivaram a produção e o que se percebeu é que tanto Rússia quanto Ucrânia continuariam exportando”, afirmou. 

Bento destaca que a relação entre produção e consumo global mudou nesta temporada. Enquanto no ano passado a produção mundial superou o consumo em cerca de 26 milhões de toneladas, neste ciclo os volumes estão mais equilibrados, reduzindo a margem de segurança dos estoques. 

“Tem um aperto neste ano. A produção e consumo estão alinhados. Qualquer quebra além das que já estão sugeridas pelo mercado, absorvidas pelo mercado, precificadas pelo mercado, traz uma ausência e vai apertar os estoques de trigo no mundo”, explicou. 

Segundo o analista, esse ambiente de oferta mais ajustada cria uma base de sustentação para os preços. “Esse mundo com menos trigo já dá uma sustentação para que os preços subam”, afirmou. 

Estados Unidos entram no radar do mercado 

Os Estados Unidos também passaram a exercer influência sobre as cotações internacionais. Apesar de terem perdido participação no comércio global de trigo, o país continua sendo referência de formação de preços por meio das bolsas norte-americanas. 

Bento explica que a safra norte-americana enfrenta uma combinação de fatores negativos: menor área plantada e condições de lavouras consideradas desfavoráveis. Segundo ele, a área cultivada com trigo no país é a menor desde o início da série histórica, em 1919, e a produção deve ser a menor desde 1970. 

“O saldo exportável norte-americano é o menor também da série histórica que começa em 1960. Então é uma safra norte-americana muito apertada, de um abastecimento muito curto”, disse. 

Mar Negro aumenta prêmio de risco 

Apesar da influência dos fundamentos de oferta e demanda, os fatores geopolíticos tiveram papel central na volatilidade de julho.

A região do Mar Negro concentra alguns dos principais exportadores mundiais, especialmente Rússia e Ucrânia, que juntas representam cerca de 35% das exportações globais de trigo. 

Segundo Douglas Araújo, a atenção do mercado está voltada principalmente para áreas estratégicas de escoamento russo, como o Mar de Azov, o Estreito de Kavkaz e regiões próximas aos portos exportadores.

“Se o trigo não sai por aqui, prejudica as exportações. É uma região sensível que vai afetar os preços globais”, afirmou. 

O trader explica que uma eventual desaceleração significativa nos embarques poderia provocar uma rápida reprecificação do mercado.

“Se Novorossiysk desacelerar significativamente, o mercado global tende a reprecificar rapidamente esse atraso logístico, que pode gerar um efeito bola de neve. Num primeiro momento o mercado pode subir bastante, mas aquele trigo está lá fisicamente. O trigo que não sai em outubro, novembro, vai ter que sair mais adiante”, avaliou. 

Além do Mar Negro, as tensões no Oriente Médio também contribuem para o aumento das incertezas sobre custos de energia, combustíveis, fretes, seguros e logística internacional, fatores que influenciam diretamente o custo de importação do cereal. 

Incertezas climáticas 

No mercado brasileiro, a valorização internacional serve como principal referência para os preços internos. Bento compara as bolsas norte-americanas a um trilho que orienta os demais mercados. 

Para as indústrias brasileiras, a Argentina segue como uma das principais alternativas de abastecimento, especialmente para o mercado paulista, por apresentar vantagem logística e uma relação de risco e preço mais competitiva diante das incertezas envolvendo o Mar Negro e os prêmios do trigo norte-americano. 

No Sul do Brasil, as condições climáticas também permanecem no radar. Araújo destaca que a região é sensível aos efeitos do fenômeno El Niño e que possíveis impactos sobre a próxima safra podem influenciar as expectativas futuras. 

“O El Niño pode, inclusive, afetar a safra vindoura, 2027/28, que vai ser semeada e colhida só no ano que vem”, afirmou. 

Apesar da valorização recente, os analistas destacam que os estoques globais ainda mantêm uma relação considerada confortável entre oferta e consumo.

O ponto central para o mercado, segundo Araújo, é a manutenção do fluxo comercial. 

“A safra nova ainda é um ambiente de conforto na relação de oferta e demanda, mas esse conforto vai existir enquanto houver circulação de mercadorias. E para existir circulação de mercadorias tem que ter paz, com destaque para a área do Mar Negro trazendo mais incerteza logística”, afirmou.

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