Durante gerações, os pubs serviram como ponto de encontro onde torcedores de futebol se reuniam diante das televisões, colegas se encontravam depois do trabalho, famílias comemoravam aniversários, despedidas de solteiro marcavam a última grande celebração antes do casamento e frequentadores habituais encontravam um senso de comunidade.
Mas os jovens britânicos estão cada vez mais buscando outros lugares para criar conexões sociais e adotando alternativas sem álcool para se reunir. Essa mudança cultural pode aumentar ainda mais a pressão enfrentada pelos pubs no Reino Unido.
Um estudo publicado em maio pela British Beer and Pub Association (BBPA), entidade que representa milhares de pubs e cervejarias, revelou que, entre janeiro e março deste ano, 161 pubs fecharam as portas na Inglaterra, País de Gales e Escócia — uma média de quase dois estabelecimentos por dia. Desde 2000, mais de um quarto dos pubs deixou de existir, passando de 60.800 para 44.650 em 2025.
O aumento dos custos e dos impostos está entre os motivos que explicam a pressão financeira enfrentada pelos pubs, afirmou Emma McClarkin, diretora-executiva da BBPA.
Mas especialistas dizem que as mudanças culturais também desempenham um papel importante, à medida que a vida social da geração Z — formada por pessoas nascidas entre 1997 e 2012 — se diversifica e uma noite de sexta-feira tem tanta chance de significar um encontro na pista de corrida quanto em um balcão de bar.
De clubes de corrida e partidas de padel a festas em cafeterias, o cenário social britânico está mudando rapidamente.
“Ritual coletivo”
Para os millennials, a geração X e os baby boomers, o consumo excessivo de álcool costumava fazer parte de rituais sociais estabelecidos, como os encontros em bares após o expediente, afirma Thomas Thurnell-Read, sociólogo da Universidade de Loughborough que estuda lazer e consumo.
“Para muitas profissões e setores, uma geração atrás, era normal ir ao pub na sexta-feira ou até durante o horário de almoço, tomar três cervejas e depois voltar ao trabalho. Hoje isso soa até nostálgico”, disse.
“Havia também as grandes noitadas e as despedidas de solteiro, em que a ressaca fazia parte da aventura, parte do ritual coletivo: se recuperar, preparar o café da manhã ou sentar em uma cafeteria para relembrar as histórias da noite anterior.”
Mas, à medida que aumentou a conscientização sobre os possíveis danos causados pelo consumo excessivo de álcool, os comportamentos mudaram, especialmente entre os jovens adultos. Pesquisas da Drinkaware, instituição britânica dedicada à conscientização sobre o álcool, mostram que um número cada vez maior de pessoas está adotando bebidas com pouco ou nenhum teor alcoólico.
Para Thurnell-Read, o que diferencia os hábitos da geração Z em relação aos das gerações anteriores é a pressão que os jovens sentem para alcançar o sucesso e aproveitar o tempo livre de forma mais produtiva.
“Essa é uma geração que cresceu com Instagram e TikTok… você precisa ser visto indo bem”, afirmou.
“Essa ideia de passar horas no pub ou perder a manhã seguinte dormindo por causa da ressaca passou a ser vista como tempo desperdiçado”, acrescentou.
Esporte em vez de bebidas
Durante os lockdowns da pandemia, quando academias, casas noturnas e pubs permaneceram fechados, a corrida ganhou enorme popularidade, impulsionada principalmente pela geração Z.
Entre os adeptos desse movimento está Rhys Lloyd, de 24 anos, morador da pequena cidade de Brecon, no sul do País de Gales, onde, segundo ele, “não há muito o que fazer além de ir ao pub”.
Durante a pandemia, enquanto muitas pessoas descobriam novos hobbies dentro de casa, Lloyd decidiu calçar os tênis e rapidamente se apaixonou pela corrida.
Com o fim das restrições sociais, ele passou a participar de corridas comunitárias gratuitas em parques de vilarejos próximos, onde conheceu outros apaixonados pelo esporte.
A corrida fez Lloyd trocar as noites de sexta-feira no pub pelas corridas de sábado de manhã.
“Não me entenda mal, eu ainda bebo, mas reduzi muito o consumo em comparação com a época em que não corria tanto. Você passa a entender melhor como viver de forma saudável e percebe o quanto beber faz mal. Quanto antes você diminuir, melhor vai se sentir”, disse.
Lloyd está longe de ser um caso isolado. Dados da Maratona de Londres mostram que mais de um terço dos corredores que completaram os 42 quilômetros da prova neste ano tinha entre 18 e 29 anos. Em 2010, 2016 e 2019, participantes dessa faixa etária representavam entre 18% e 21%.
A corrida não é o único esporte que está transformando a forma como a geração Z socializa. O padel também registrou um crescimento expressivo desde a pandemia.
Praticado em duplas, o esporte combina elementos do tênis e do squash. Até o fim de 2025, cerca de 860 mil britânicos já haviam jogado padel pelo menos uma vez — mais que o dobro do registrado um ano antes e muito acima dos 15 mil praticantes contabilizados no fim de 2019, segundo a Lawn Tennis Association.
Os clubes de padel têm promovido o esporte como algo que vai além da atividade física, oferecendo espaços para trabalhar, comer e socializar ao lado das quadras.
Oscar Sanger, funcionário de um movimentado clube de padel em Londres, afirmou que a empresa busca criar um ambiente que funcione como uma “segunda casa”, com opções de alimentação, coworking, música ao vivo e até eventos de encontros rápidos, voltados especialmente para um público mais jovem.
“Estamos vendo muito mais pessoas querendo socializar por meio do esporte, o que está totalmente alinhado com essas tendências de consumir menos álcool e usar o exercício como forma de convivência”, disse.
“Problema” em vez de “solução”
Para as gerações anteriores, o álcool era visto como uma forma cotidiana de escapar do estresse e das pressões da vida e do trabalho. Já para a geração Z, ele passou a ser encarado como mais um obstáculo, afirma Emily Nicholls, professora sênior de Sociologia da Universidade de York e pesquisadora do consumo de álcool e da sobriedade.
“Gerações como os baby boomers tendiam a enxergar o álcool como uma solução para o estresse e as pressões da vida e do trabalho. Já para a geração Z, ele passou a ser visto como parte do problema, e não da solução”, disse Nicholls à CNN.
Ela acredita que isso ocorre porque a geração Z enfrenta pressões sociais e econômicas maiores do que as gerações anteriores.
“O que estamos vendo é uma intensificação dessa mentalidade de ‘precisar se destacar’ entre os jovens da geração Z. Isso não significa que as gerações anteriores não enfrentassem essas pressões, mas sim que a geração Z é particularmente afetada por fatores como o aumento do custo de vida, a crise econômica e as dificuldades para comprar um imóvel”, afirmou.
Como alternativa, alguns jovens que antes frequentavam festas estão trocando doses de vodca por doses de café expresso e buscando a sensação de bem-estar em festas realizadas durante o dia em cafeterias, em vez de boates.
A Coffee Culture UK, empresa que organiza as chamadas coffee raves — eventos em que cafeterias se transformam em pistas de dança sem álcool durante o dia —, informou que, em média, dois terços dos participantes têm entre 18 e 24 anos, enquanto uma parcela menor está na faixa de 25 a 30 anos.
“Acreditamos que isso acontece porque a geração Z está procurando novas formas de socializar. Eles valorizam cada vez mais experiências centradas em comunidade, conexão e bem-estar, em vez de noites em que o álcool é o principal foco”, afirmou a fundadora da empresa, Tanya Thadani.
Entre essas pessoas está Aditi Devali, que prefere dançar sem comprometer sua rotina.
“Um dos motivos pelos quais eu não gosto de boates é que elas começam muito tarde e acabam prejudicando meu horário de sono”, disse a jovem de 20 anos.
“Sou uma pessoa que gosta de manter uma rotina consistente, então as coffee raves durante o dia combinam muito mais comigo. Ainda consigo aproveitar a música, o clima social e a energia de um evento parecido com uma balada, mas sem abrir mão de uma boa noite de sono.”

