A nova onda de tarifas dos Estados Unidos levou o Brasil a buscar novos mercados, em um plano de R$ 130 milhões que deve ser implementado no início deste mês, segundo o governo federal.
Analistas ouvidos pelo CNN Money apontam que o Brics – grupo que já reúne a China, maior parceira comercial do país – pode ser uma alternativa na diversificação. Porém, essa mudança de rota precisa superar uma série de desafios, e deve trazer resultados concretos somente no médio e longo prazo.
Entre 2003 e 2024, o Brasil registrou uma rápida expansão de comércio intrabloco no Brics, com as exportações passando de US$ 9,5 bilhões para US$ 118,6 bilhões e as importações de US$ 4,1 bilhões para US$ 93,3 bilhões, de acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.
Já 9,4% do total das exportações brasileiras no primeiro semestre de 2026 foram destinadas aos Estados Unidos, o que corresponde ao menor nível da série histórica para o período desde 1997, conforme dados da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil).
Segundo Sergio Suchodolski, CEO da Fama re.capital e ex-diretor geral de Estratégia e Parcerias do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco do Brics, o grupo pode compensar parte das perdas.
Mas ele frisa que “não de maneira automática, integral ou imediata”.
Os membros do Brics representam cerca de 49% da população mundial e 39% do PIB global, o que explica a sua relevância no cenário global.
Somando-se a isso, o Novo Banco de Desenvolvimento financia projetos de desenvolvimento nos países-membros.
De acordo com Suchodolski, embora a principal função do recurso não seja compensar diretamente as perdas dos exportadores, o banco pode ajudar no financiamento da infraestrutura física e financeira necessária para diversificar os mercados.
“Em paridade de poder de compra, os integrantes já representam mais de um terço da economia global. Essa escala cria oportunidades importantes para o Brasil, particularmente em alimentos, energia, minerais, infraestrutura, tecnologia agrícola e soluções climáticas”, aponta.
Ele acrescenta, porém, que o tamanho econômico potencial não equivale a acesso efetivo ao mercado.
“O Brics não é uma união aduaneira, não possui uma tarifa externa comum, não constitui uma área de livre comércio e tampouco dispõe de regras uniformes de investimento, logística, padrões sanitários ou compras públicas”, sinaliza Suchodolski.
Além disso, há mais obstáculos para que o Brics funcione como alternativa ao mercado dos Estados Unidos, destaca Marcio Sette Fortes, ex-diretor do Brasil no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
O perfil de uma fatia significativa das exportações brasileiras aos EUA é de bens manufaturados, enquanto grande parte do que o Brasil vende para parceiros que integram o Brics é composta por itens primários, sobretudo commodities.
“O maior importador de produtos brasileiros do Brics é a China, e o perfil de compras é de produtos básicos. O mesmo acontece com a Índia, para a qual o Brasil exporta predominantemente commodities e óleos vegetais”, diz o especialista.
Apesar da relevância, nem a Rússia nem a Índia seriam capazes de superar comercialmente os parceiros tradicionais do Brasil. Mesmo os novos membros não teriam porte para absorver em suas economias o que perderíamos no mercado dos Estados Unidos, argumenta Fortes.
Apex prevê plano de R$ 130 milhões para diversificação
Segundo a entidade, o plano será implementado no começo de agosto.
De acordo com o presidente da Apex Brasil, Laudemir Müller, uma das ações que será implementada por meio desse plano é custear viagens de empresários de outros países ao Brasil para negociar e fechar contratos com empresas brasileiras.
Müller destacou também que a iniciativa de diversificação de mercados vai focar, sobretudo, na União Europeia, em razão do acordo de livre comércio em vigor com o Mercosul. Além dos países europeus, a estratégia da Apex vai mirar na ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) e em países da Ásia Central, como Uzbequistão e Cazaquistão.
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