A China sinalizou abertura para cooperar com o Brasil no desenvolvimento da cadeia de terras raras, inclusive em tecnologias de separação dos elementos, em um momento em que os Estados Unidos ampliam investimentos e articulações para vincular os projetos brasileiros a uma cadeia produtiva alternativa à chinesa.
Segundo o presidente do Ibram ( Instituto Brasileiro de Mineração), Pablo Cesário, conversas mantidas com representantes da embaixada e outros interlocutores chineses indicam disposição de Pequim para estabelecer parcerias com o Brasil no setor.
“As conversas que tive com a embaixada e agentes chineses são de abertura a parcerias. Eles têm algumas restrições aos Estados Unidos, mas não me parece haver qualquer resistência à cooperação com o Brasil. Ao contrário, parecem bastante abertos a trabalhar juntos”, afirmou Cesário em coletiva nesta terça-feira (28).
O presidente do Ibram disse não enxergar limitações para que o Brasil receba investimentos chineses, inclusive para uma das etapas mais complexas da cadeia de terras raras.
“Não vejo limites na cooperação com a China, os Estados Unidos ou qualquer investidor. Nem para tecnologia de separação de terras raras”, acrescentou.
A declaração não representa uma oferta formal do governo chinês ou de uma empresa específica. A sinalização, porém, indica que Pequim pode tentar ampliar sua presença em um mercado brasileiro que, até o momento, tem sido ocupado principalmente por companhias e financiadores ocidentais.
Fontes da área mineral do governo também relatam que, embora os chineses não tenham demonstrado grande preocupação ou entusiasmo para discutir o tema, sinalizaram disposição para cooperar com o Brasil, inclusive no compartilhamento de tecnologias.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone, na segunda-feira (27), com o presidente da China, Xi Jinping. Segundo Lula, os dois líderes trataram da ampliação da cooperação em áreas estratégicas e de alta tecnologia, entre elas inteligência artificial, satélites e processamento de minerais críticos.
O processamento é justamente o principal gargalo para transformar o potencial geológico em uma cadeia industrial. Depois da extração e da concentração do minério, os diferentes elementos precisam ser separados e refinados antes de serem utilizados em componentes como ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.
Além de ser o principal gargalo para o avanço dos projetos, o domínio das tecnologias de separação e refino representa a principal vantagem estratégica da China.
Domínio chinês
Embora novas minas estejam sendo desenvolvidas em diferentes países, a China mantém o controle das etapas que concentram a maior parte do valor e da complexidade tecnológica da cadeia.
Dados da Agência Internacional de Energia indicam que o país responde por cerca de 94% da produção mundial de ímãs permanentes sinterizados. Em 2025, restrições chinesas às exportações de terras raras pesadas e produtos relacionados provocaram dificuldades de abastecimento nos Estados Unidos e na Europa, levando algumas empresas a reduzir temporariamente a produção.
Pequim também passou a controlar a exportação de equipamentos e tecnologias empregados na moagem, separação e no refino de terras raras. Na prática, isso dificulta não apenas a compra dos minerais, mas também a criação, em outros países, das estruturas industriais necessárias para processá-los.
A abertura relatada por Cesário sugere que o Brasil poderia receber um tratamento diferente daquele aplicado aos Estados Unidos, principal adversário da China na disputa pelo controle das cadeias de tecnologia, energia e defesa.
Projetos brasileiros têm perfil ocidental
Apesar da proximidade comercial e diplomática entre Brasília e Pequim, a maior parte dos projetos de terras raras em desenvolvimento no Brasil está nas mãos de empresas sediadas ou listadas em mercados ocidentais.
Viridis Mining & Minerals, Meteoric Resources e St George Mining são listadas na Austrália. A Aclara Resources está listada no Canadá, enquanto a Atlas Critical Minerals negocia ações nos Estados Unidos.
Parte dessas companhias apresenta seus projetos diretamente como alternativas ao domínio chinês e busca recursos de governos interessados em formar cadeias consideradas seguras ou alinhadas ao Ocidente.
O caso mais avançado é o da Serra Verde, única produtora comercial de terras raras do Brasil. A empresa, que opera em Minaçu, em Goiás, anunciou um acordo de combinação com a americana USA Rare Earth, que pretende integrar a mina brasileira a operações de separação, produção de metais, ligas e ímãs nos Estados Unidos e na Europa.
O governo dos Estados Unidos também passou a ter interesse direto na USA Rare Earth. Em junho, a companhia americana fechou acordos que preveem acesso a até US$ 1,6 bilhão em recursos públicos, sendo US$ 277 milhões em financiamento federal e até US$ 1,3 bilhão em empréstimos.
Como parte da operação, a USA Rare Earth deverá entregar ao Departamento de Comércio americano 16,1 milhões de ações e cerca de 17,6 milhões de bônus que poderão ser convertidos em novos papéis. Com isso, o governo dos Estados Unidos se tornará acionista da empresa e poderá ampliar sua participação no futuro.
Ofensiva dos Estados Unidos
Washington intensificou sua aproximação com o Brasil depois que as restrições chinesas evidenciaram a dependência americana de minerais, tecnologias de processamento e ímãs fabricados na China.
Os Estados Unidos chegaram a propor um acordo de cooperação com o Brasil no setor de minerais críticos. A proposta, porém, foi considerada genérica pelo governo federal, enquanto entraves políticos também dificultaram o avanço das negociações.
Apesar disso, os americanos também demonstram, nas conversas com autoridades e empresas brasileiras, disposição para financiar capacidades de refino e processamento no Brasil.
O governo brasileiro tem defendido que acordos internacionais não se limitem ao acesso às jazidas ou à exportação de concentrados. A prioridade declarada é atrair capital, conhecimento e tecnologia para que etapas de separação, refino e industrialização sejam instaladas em território nacional.
Nesse cenário, a aproximação com a China poderia ampliar o poder de negociação do Brasil diante dos Estados Unidos e de outros países interessados nos minerais brasileiros.
Para o setor mineral, a avaliação é que o Brasil não precisa escolher apenas um parceiro, desde que consiga utilizar a disputa internacional para atrair investimentos e desenvolver uma indústria doméstica.
“Não vejo limites na cooperação com a China, os Estados Unidos ou qualquer investidor”, afirmou Cesário.

