O Irã afirmou nesta segunda-feira (27) que não busca retomar as negociações de paz com os Estados Unidos e que ainda controla o Estreito de Ormuz, após o presidente Donald Trump ter interrompido uma campanha de bombardeios de duas semanas, que, segundo seus principais comandantes, havia chegado ao fim.
Após 13 noites consecutivas de bombardeios intensificados que levaram Teerã a atacar bases americanas em resposta, Trump interrompeu a campanha no fim de semana. O Irã afirmou que suspenderá seus próprios ataques enquanto durar a pausa americana.
O fim da campanha de bombardeios dos EUA fez com que os preços do petróleo despencassem, na esperança de que o fornecimento global interrompido pudesse ser retomado.
O petróleo Brent, que havia ultrapassado brevemente os US$ 100 por barril na semana passada pela primeira vez desde maio, caiu mais de 8% na manhã desta segunda-feira, para pouco menos de US$ 89.
Mas, em sinais de que Teerã pode já estar testando o novo cessar-fogo, a Jordânia relatou ter abatido dois drones e fontes de segurança iraquianas disseram que drones atingiram uma base de combatentes curdos da oposição iraniana no norte do Iraque. Não houve relatos de vítimas em nenhum dos incidentes.
A decisão de Trump de suspender a campanha refletiu a recomendação de seus militares de que o bombardeio, cujo objetivo era quebrar o controle do Irã sobre o estreito, havia atingido o limite de seu alcance, segundo um oficial americano e diversas reportagens da mídia dos EUA.
O oficial americano disse à agência de notícias Reuters que os comandantes militares avisaram o presidente que estavam ficando sem alvos.
O chefe do Estado-Maior Conjunto, General Dan Caine, expressou preocupação com o esgotamento das munições de defesa aérea, relatou a fonte.
Pedido de mais negociações “não está em nosso DNA”, diz porta-voz do Irã
O embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, disse no domingo (26) que Trump havia pausado a campanha para abrir espaço para negociações. Trump, o secretário de Estado Marco Rubio e outros funcionários americanos descreveram o Irã como “implorando por um acordo”.
Mas o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse em uma coletiva de imprensa televisionada nesta segunda-feira (27) que o Irã não havia pedido para retomar as negociações de paz com os Estados Unidos.
Mensagens ainda estavam sendo trocadas entre as partes por meio de mediadores e o Irã não havia abandonado a diplomacia, mas “notícias sobre o Irã solicitando negociações com os EUA são fabricadas”, disse Baghaei. “Isso não está em nosso DNA.”
Teerã também indicou que ainda controla a via navegável mais importante do mundo para os mercados de energia.
Retorno de navios no Estreito de Ormuz
Diversos veículos da mídia estatal iraniana citaram uma “fonte informada” afirmando que o Irã impediu a travessia de seis “navios infratores” na manhã desta segunda-feira, por tentarem cruzar o estreito sem sua permissão. Uma das embarcações, segundo a fonte, sofreu um “acidente”.
“Como anunciado anteriormente, a rota de tráfego no Estreito de Ormuz é a rota especificada pelo Irã, e outras rotas estão contaminadas e sem saída”, disse a fonte, conforme os veículos de imprensa estatais iranianos.
Trump retomou sua campanha de bombardeios para punir o Irã depois que Teerã disparou contra navios que utilizavam uma rota pelo estreito promovida pelos Estados Unidos, que orientaram as embarcações a navegarem perto da costa de Omã.
O Irã afirma que os navios só podem passar por um canal mais próximo da sua costa, que controla e onde pretende impor taxas de trânsito.
As duas semanas de novos bombardeios dos EUA mataram dezenas de pessoas no Irã e destruíram pontes e túneis no sul do país, além de alvos militares.
Quatro militares americanos morreram em decorrência de disparos de retaliação do Irã contra bases dos EUA em países árabes vizinhos.
O Irã também atingiu infraestruturas civis em países do Golfo, no que descreveu como uma resposta aos ataques americanos contra alvos civis.
Na semana passada, os Houthis — aliados do Irã — ameaçaram estender a perturbação do abastecimento global de petróleo a uma segunda via navegável importante, ao anunciarem um bloqueio à indústria petrolífera da Arábia Saudita no Mar Vermelho, o que impulsionou ainda mais os preços do petróleo.
A suspensão da nova campanha de bombardeios dos EUA deixa incerto qual poder de pressão Washington pode exercer para alcançar o objetivo de Trump de quebrar o controle iraniano sobre o estreito.
Acordo provisório
Washington e Teerã chegaram a um acordo em junho sobre as bases para negociações — previstas para ocorrer até o final de agosto — destinadas a resolver questões importantes, como o programa nuclear iraniano.
No entanto, as partes divergem quanto à interpretação dos termos do memorando referentes ao Estreito de Ormuz: Washington insiste que o texto exige que Teerã permita a livre navegação, enquanto o Irã afirma que o documento lhe confere autoridade para supervisionar o trânsito.
O Irã busca formalizar seu controle sobre o estreito mediante um acordo com Omã, país que controla a margem oposta. Uma delegação de alto escalão de Omã esteve em Teerã durante o fim de semana para discutir o futuro do estreito.
Os ministros das Relações Exteriores do Catar, dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita realizaram, separadamente, conversas telefônicas com o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, para discutir a questão do estreito, segundo relatos divulgados na segunda-feira pela mídia estatal desses países.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu — que iniciou a guerra em fevereiro ao lado de Trump, mas não participou das negociações entre os EUA e o Irã para encerrá-la — deve se reunir com Trump em Washington no início desta semana.

