Para uma guerra que vem impondo mudanças tão radicais no campo de batalha, a permanência de Oleksandr Syrskyi, de 60 anos, no comando das Forças Armadas da Ucrânia já havia se tornado uma exceção.
Não se trata de etarismo, mas de um reflexo da mentalidade do chefe militar ucraniano, que acabou sendo destituído do cargo.
Sob essa perspectiva, a decisão do presidente Volodymyr Zelensky, na terça-feira (21), de substituir Syrskyi por Mykhailo Drapatyi, de 43 anos, um general mais jovem, pertencente a uma nova geração de líderes militares, parece, talvez, ter demorado a acontecer.
Syrskyi era um produto da era soviética e levou para os primeiros anos da guerra uma combinação de persistência obstinada e brutal com momentos de brilhantismo estratégico.
Seu perfil atendia à necessidade inicial da Ucrânia de enfrentar e, em algumas ocasiões, superar um inimigo maior e mais sanguinário.
A defesa de Kiev, em 2022, a rápida retomada da região de Kharkiv no mesmo ano e a surpreendente incursão em Kursk, já em território russo, em 2024, estão entre os principais feitos atribuídos a ele.
Mas sua liderança também foi marcada por perdas enormes entre as tropas ucranianas. E, no fim, as mesmas disputas políticas internas e a ambição pessoal que impulsionaram sua ascensão acabaram provocando sua queda.
Syrskyi assumiu o comando após o fracasso da contraofensiva ucraniana de 2023, quando o então comandante das Forças Armadas, Valerii Zaluzhnyi, foi transferido para Londres para atuar como embaixador da Ucrânia.
Muitos analistas afirmam que o insucesso da operação ocorreu porque Syrskyi convenceu Zelensky de que uma ofensiva simultânea contra a cidade de Bakhmut, no leste, e a frente de Zaporizhzhia, no sul, dividiria as defesas russas.
Em vez disso, a estratégia acabou dividindo as forças da tão aguardada ofensiva de verão de Kiev, que fracassou.
Syrskyi também chegou ao topo porque Zaluzhnyi havia se tornado popular demais. Seu rosto era frequentemente visto nas paredes de cafés frequentados por militares, e pesquisas de opinião mostravam que ele era muito mais bem avaliado do que qualquer outra figura pública. Assim, o fracasso no campo de batalha acabou selando sua saída.
Dois anos depois, um cenário semelhante voltou a se repetir.
Um conflito sobre a estratégia militar levou Zelensky, em um primeiro momento, a afastar uma estrela em ascensão e bastante popular: o ministro da Defesa de 35 anos, Mykhailo Fedorov.
Conhecido por promover mudanças e inovações, Fedorov havia entrado em confronto de forma aberta com Syrskyi em torno de reformas nas Forças Armadas, e o próprio Zelensky admitiu, também publicamente, que precisou atuar como árbitro entre os dois.
Segundo ele, não era possível conduzir uma guerra dessa maneira. A saída de Fedorov, considerado um pioneiro nas áreas de tecnologia e recrutamento militar, provocou protestos raros nas ruas da Ucrânia.
A semana de intensos conflitos políticos seguiu um padrão já conhecido no governo Zelensky, lembrando a crise de um ano atrás envolvendo o futuro da agência anticorrupção da Ucrânia.
Na ocasião, o presidente reduziu os poderes do órgão, mas voltou atrás após uma onda de críticas e acabou demitindo seu chefe de gabinete em meio a acusações de corrupção.
Tudo isso aconteceu porque um movimento de protestos começou a desgastar a imagem de líder aparentemente inabalável que Zelensky havia construído.
Ao que parece, ele aprendeu muito pouco com aquele episódio. E esse ciclo que se repete — decisão, protestos e recuo — revela dois aspectos sobre o atual estágio da guerra na Ucrânia.
O primeiro é que as Forças Armadas ucranianas passaram, nesta terça-feira, por uma mudança de geração.
A forma de conduzir a guerra adotada por Syrskyi, baseada em grandes ofensivas frontais, extremamente custosas, embora muitas vezes vistas como a única maneira de recuperar território, começou a parecer ultrapassada.
Já a proposta de Fedorov de romper com os métodos tradicionais, apostando em robôs, drones, automação e análise de dados para entender, por exemplo, por que os soldados estavam sendo feridos, faz sentido para um país que enfrenta uma grave escassez de efetivos.
Essas iniciativas colocaram a Ucrânia na vanguarda mundial da tecnologia aplicada ao campo de batalha.
Esse novo modelo de Exército não foi uma criação exclusiva de Fedorov, mas ele se tornou seu principal defensor e, aos poucos, passou a representar as conquistas obtidas por essa estratégia: as manchetes sobre resgates e ataques realizados por robôs, além da campanha incessante de ataques ucranianos de longo alcance contra o território russo.
Esses sucessos pertencem à Ucrânia, mas também fortaleceram a imagem de Fedorov, que fez questão de destacar sua decisão de ampliar os investimentos na compra de drones no início deste ano.
Ainda é cedo para saber se drones e robôs poderão, de fato, substituir soldados na linha de frente. A Ucrânia, porém, tem pouca alternativa além de descobrir isso na prática.
O período dedicado a essa adaptação deu a Kiev uma pausa importante para reorganizar suas forças e proporcionou um salto tecnológico que Moscou ainda precisa alcançar.
A guerra dificilmente voltará a ser a mesma, pelo menos até que alguém descubra como neutralizar essas máquinas. Mesmo assim, alguns estrategistas defendem que a artilharia continua desempenhando um papel essencial para conter grandes ofensivas russas.
Nem tudo o que pertence ao passado se torna obsoleto de uma hora para outra.
Independentemente das disputas de poder e das rivalidades pessoais, a ascensão de Fedorov simbolizou uma mudança simples: os ucranianos mais jovens que lutam na guerra passariam a ser comandados por generais de idade semelhante à deles.
O novo comandante, Mykhailo Drapatyi, combateu nas frentes mais difíceis da guerra.
No dia de sua nomeação, na terça-feira, voltou a circular um vídeo de 2014 que o mostra conduzindo um veículo blindado através de uma barricada de separatistas pró-Rússia. Ele está longe de ser um novato, mas também não pertence à geração de Syrskyi.
Entre Drapatyi e Fedorov, conhecido por sua mentalidade voltada para inovação tecnológica, há uma diferença de apenas oito anos. Já entre Drapatyi e Syrskyi, apelidado de “o Açougueiro” por sua preferência por unidades de assalto de alto custo humano, a distância geracional é de 17 anos.
Drapatyi acumulou uma experiência de combate semelhante à de Syrskyi, mas construiu uma reputação baseada tanto em vitórias quanto em reformas. Ele teve papel decisivo para conter a invasão russa inicial nos arredores da cidade de Kryvyi Rih e, mais tarde, comandou a expulsão das forças russas da região de Kherson. Também ajudou a interromper novos avanços russos na região de Kharkiv.
Foi um dos primeiros defensores do uso de drones para criar uma “zona de destruição” ao longo da linha de frente, dificultando significativamente o avanço das tropas russas. Sob seu comando das forças terrestres, a estrutura militar e a cadeia de liderança passaram por uma ampla reformulação.
Os desafios da Ucrânia não desaparecem apenas porque uma geração mais jovem passou a ocupar os postos mais altos das Forças Armadas.
O país continua enfrentando escassez de soldados, falta de recursos financeiros e dificuldades para manter sua infraestrutura crítica funcionando durante o próximo inverno.
Ainda assim, ao promover novos líderes e manter o foco em inovação e tecnologia, a Ucrânia preservou uma estratégia que vinha mudando tanto a narrativa quanto a dinâmica da guerra a seu favor.
Nesse sentido, os acontecimentos dos últimos dias podem ser vistos como uma pequena vitória. Mas o episódio também deixa uma lição menos animadora para os ucranianos.
A principal conclusão é que, do ponto de vista político, Zelensky demonstra pouca disposição para perder o controle da narrativa pública e parece se incomodar quase tanto com o surgimento de figuras que conquistam popularidade própria.
Olhando em retrospecto, toda a crise poderia ter sido evitada. O presidente poderia ter substituído Syrskyi uma semana antes, algo que já parecia inevitável havia meses, à medida que as críticas ao comandante se espalhavam por Kiev.
Em vez disso, o conflito público entre o jovem Fedorov e o general mais velho levou Zelensky a manter, inicialmente, a velha guarda, composta por aliados de sua confiança.
Ao longo dos anos, Syrskyi havia se mostrado um operador político mais habilidoso e, talvez, Zelensky temesse a instabilidade que sua saída poderia provocar na estrutura de comando já estabelecida. Ou será que sua maior preocupação era que o jovem reformista fosse visto como alguém capaz de impor a ele uma importante mudança de pessoal?
O instinto inicial de Zelensky foi afastar a estrela em ascensão, que vinha ganhando popularidade. Então, as ruas foram tomadas por protestos expressivos, embora não massivos.
A partir daí, Zelensky iniciou o processo lento e calculado de reverter sua decisão, realizando uma série de reuniões públicas com os principais comandantes militares, uma forma de ouvir opiniões e também de avaliar candidatos para um cargo que Syrskyi claramente já havia perdido.
É improvável que Zelensky tenha desejado esse caminho prolongado até um resultado que poderia ter alcançado na semana anterior. Ainda assim, permaneceu a imagem de um presidente esclarecido, disposto a ouvir tanto a população, especialmente a geração mais jovem, quanto seus comandantes militares.
Ainda não está claro qual papel “de destaque” foi oferecido a Fedorov dentro do governo, nem se ele aceitará a proposta. Mas esse deixou de ser o ponto principal: Zelensky mostrou aos aliados ocidentais e aos eleitores ucranianos que está disposto a ouvir e que consegue transformar mudanças profundas em algo permanente.
Afinal, é apenas ao alterar o cenário do conflito que Kiev pode realmente causar danos a Moscou.
Mas uma questão curiosa permanece: Zelensky já afirmou que, quando a guerra terminar, gostaria de sentar em uma praia e beber uma cerveja. De fato, é difícil imaginar por que ele ainda desejaria ocupar o principal cargo do país depois que a paz verdadeira e “justa” que busca for alcançada.
Na Ucrânia em guerra, não existe um mecanismo real para substituí-lo, já que eleições legítimas são praticamente impossíveis. Nesse sentido, ele se encontra em uma posição de grande proteção política.
Ainda assim, Zelensky continua profundamente preocupado com sua popularidade, a ponto de possíveis rivais, como Zalyuzhnyi e Fedorov, serem afastados apesar de suas capacidades, especialmente depois de ambos terem entrado em conflito com Syrskyi.
Zelensky tem sido um comunicador excepcional e o principal porta-voz do esforço de guerra da Ucrânia no cenário internacional. No entanto, esses sinais de fragilidade no plano doméstico revelam uma Presidência instalada na rua Bankova, em Kiev, onde decisões equivocadas, como as relacionadas ao combate à corrupção e ao caso Fedorov, são tomadas rapidamente e, depois, desfeitas aos poucos sob pressão da opinião pública.
É a democracia em funcionamento, sem dúvida. Mas isso levanta uma questão inevitável: quantas outras decisões ruins passaram sem contestação ao longo dos últimos quatro anos?

