Revistas automotivas e filmes de outra época já alimentaram o entusiasmo automotivo, assim como hoje as redes sociais e seus “edits” fazem a cultura automotiva girar. No entanto, poucas mídias influenciaram tanto o entusiasmo moderno quanto os videogames.
Os cartazes destacáveis das revistas e franquias, como “Velozes e Furiosos”, tiveram grande impacto por muitas gerações de entusiastas, mas foi nos consoles e computadores que se popularizaram papos sobre distribuição de peso, tração traseira vs. integral, códigos de motores icônicos (como o RB26 da Nissan ou o 2JZ da Toyota) e o funcionamento de componentes mecânicos.
Até mesmo vocabulários amplamente utilizados em oficinas de preparação vieram de termos apresentados em games, como a classificação de pacotes de modificação em “Stage 1”, “Stage 2” e “Stage 3”, derivada diretamente dos níveis de aprimoramento do menu de tunagem dos jogos da franquia “Gran Turismo”.
No mundo dos carros, os games deixaram de apenas replicar a realidade para passar a ditar tendências do mercado automotivo real, inspirar montadoras e até revelar pilotos para o automobilismo profissional. Confira as 10 franquias de games que mais impactaram a cultura sobre rodas:
1. “OutRun” (1986)

Criado pelo designer Yu Suzuki para a SEGA nos arcades, “OutRun” colocava o jogador ao volante de um conversível vermelho, inspirado na Ferrari Testarossa Spider, acompanhado por uma passageira, percorrendo estradas litorâneas.
O título foi o responsável por transformar a direção nos videogames em um estilo de vida. Em vez de focar na competição acirrada em circuitos fechados, o jogo trouxe a sensação de liberdade de pegar a estrada em um superesportivo para perto do jogador.
O visual marcado por sóis poentes em tom neon, estradas litorâneas e a possibilidade inédita de escolher a trilha sonora no rádio do painel deram origem ao movimento visual e musical conhecido como Synthwave/Outrun, uma identidade retrô que até hoje influencia o universo da customização, vídeos automotivos e encontros de entusiastas.
Ao unir a glorificação dos supercarros com a essência das viagens de carro, o jogo pavimentou o caminho para franquias de exploração livre, como “Need for Speed” e “Forza Horizon”, que estão mais ao final da lista.
2. “Test Drive” (1986)

Desenvolvido pela Accolade para computadores, “Test Drive” introduziu uma perspectiva revolucionária para a época ao adotar o ponto de vista do motorista (primeira pessoa). O jogo simulava a experiência de estar dentro do cockpit de superesportivos cobiçados como a Lamborghini Countach, o Porsche 911 Turbo e o Chevrolet Corvette C4.
Com um painel detalhado que exibia velocímetro, conta-giros e manopla de câmbio, o jogo exigia atenção técnica para trocar as marchas no tempo certo e evitar quebrar o motor. A experiência era elevada pela tensão de acelerar em rodovias de mão dupla, desviando do trânsito civil e utilizando detectores de radar no painel para escapar das perseguições policiais nas estradas.
3. “Need For Speed” (1994)

Lançado em 1994 pela EA em parceria com a prestigiada revista Road & Track, o jogo colocava o jogador ao volante de carros como Dodge Viper, Ferrari 512 TR e Acura NSX. O título foi o responsável por unir o jornalismo automotivo mais técnico ao entretenimento digital. O jogo trouxe a experiência das fichas técnicas, telemetria real e roncos de motores gravados de veículos de produção para perto do jogador.
Anos mais tarde, o game se reinventou com as icônicas fases Underground e Most Wanted, tornando-se a maior vitrine da cultura do tuning e das corridas noturnas urbanas nos games. A franquia popularizou o uso de kits aerodinâmicos largos, suspensão a ar e nitro na vida real, tendo participação considerável na estética e no estilo de vida de toda uma geração de modificadores e entusiastas.
4. “Gran Turismo” (1997)

Idealizado por Kazunori Yamauchi e lançado exclusivamente para o PlayStation, o jogo colocava o jogador no controle do autointitulado “The Real Driving Simulator”, ou “o real simulador de direção”. A franquia é responsável por transformar a forma como o público encara o comportamento dinâmico dos carros nos videogames. O jogo explora a necessidade de tirar licenças de motorista, entender a transferência de peso do veículo nas curvas e gerenciar a física de pilotagem para perto do jogador.
Com uma garagem gigante para a época, a franquia introduziu o conceito de mercado de veículos usados e a compra de peças de desempenho específicas para cada componente do motor e da suspensão. Além disso, o game foi o grande embaixador da cultura JDM (Japanese Domestic Market) no Ocidente, transformando ícones japoneses até então desconhecidos do grande público, como o Nissan Skyline GT-R, o Mitsubishi Lancer Evolution e o Subaru Impreza WRX, em objetos de desejo globais.
Ao unir o realismo da física de pilotagem a uma espécie de educação automotiva técnica, a série extrapolou o universo virtual com iniciativas como a GT Academy, projeto em parceria com a Nissan que transformou jogadores virtuais em pilotos profissionais em pistas reais. Gran Turismo adotou sua fama de “escolinha automotiva” e continua com a mesma fórmula até hoje, estabelecendo o padrão para os simuladores modernos e formando a base do conhecimento automotivo de toda uma geração.
5. “Midnight Club” (2000)

Lançado em 2000 pela Rockstar Games para o PlayStation 2, “Midnight Club: Street Racing” colocava o jogador no coração das corridas ilegais em mapas abertos de metrópoles como Nova York, Londres e Tóquio. O título foi o responsável por revolucionar a liberdade de navegação nas corridas urbanas.
Inspirado no icônico clube de rachas clandestinos japonês de mesmo nome, o jogo se destacou por capturar com precisão a essência da vida noturna e da cultura de rua. A franquia reuniu no mesmo ecossistema não apenas esportivos preparados, mas também motocicletas, lowriders, picapes e muscle cars americanos, oferecendo opções de customização estéticas e mecânicas que refletiam a diversidade dos encontros automotivos reais das mesmas metrópoles.
Ao unir o conceito do mapa urbano aberto sem rotas pré-definidas ao estilo de vida das ruas, diverso e eclético, a franquia influenciou profundamente a forma como a cultura de rua, a música e a paixão por carros se conectam.
6. “Asphalt” (2004)

Lançado em 2004 pela Gameloft, “Asphalt Ultra GT” colocava o jogador no comando de superesportivos e hipercarros em corridas urbanas ao redor do mundo, diretamente das telas do Nintendo DSi. O título foi o responsável por colocar os grandes jogos de corrida licenciados no ecossistema mobile. O jogo trouxe a velocidade extrema, os saltos acrobáticos e o abuso de nitro para o jogador, seja lá onde estivesse.
Com a evolução da franquia ao longo das décadas, acompanhando a transição dos mobiles antigos para os smartphones modernos, a série elevou a régua dos gráficos e da jogabilidade móvel. Suas parcerias diretas com montadoras de prestígio garantiram a presença de modelos exóticos e hipercarros raros de marcas como Bugatti, W Motors, Ferrari e Lamborghini, permitindo que o público interagisse com o design dos carros mais exclusivos do planeta em partidas rápidas do cotidiano.
Ao unir a acessibilidade dos dispositivos móveis ao espetáculo das corridas estilo arcade, com destaque à mecânica de saltos e piruetas, a franquia rompeu as barreiras do mercado de games tradicional. “Asphalt” consolidou-se como a maior vitrine automotiva das plataformas portáteis, garantindo que a paixão por velocidade e supercarros alcançasse bilhões de pessoas em qualquer lugar e a qualquer momento.
7. “iRacing” (2008)

Lançado pela iRacing.com Motorsport Simulations para PC, “iRacing” colocava o jogador no cockpit de carros de competição em circuitos reais escaneados a laser com precisão milimétrica. O título foi o responsável por redefinir o conceito de simulação e profissionalizar os eSports automobilísticos.
Pioneiro na recriação digital fiel de autódromos e na modelagem dinâmica de pneus e suspensão, o jogo estabeleceu uma estrutura competitiva séria e sem precedentes. Com um sistema rigoroso de classificação de conduta (Safety Rating) e comissários virtuais, a plataforma exige que o piloto respeite regras de ultrapassagem, bandeiras de sinalização e limites de pista, exatamente como ocorre nos boxes de uma categoria oficial do automobilismo.
Ao conectar o ambiente virtual ao automobilismo real, a plataforma apagou as fronteiras entre os dois mundos, transformando-se na ferramenta oficial de treino e preparação para pilotos profissionais de categorias como a Fórmula 1, NASCAR e Stock Car. Personalidades do topo do automobilismo, como Gabriel Bortoleto e Max Verstappen, frequentemente correm no “iRacing” e fazem lives disputando corridas na plataforma.
8. “Real Racing” (2009)

Lançado pela Firemint (posteriormente adquirida pela Electronic Arts), “Real Racing” colocava o jogador no controle de carros de corrida e superesportivos em circuitos fechados diretamente de seus dispositivos Apple, já que lançou exclusivamente para IOS. O título foi o responsável por provar que a simulação automobilística tinha espaço nos smartphones.
A franquia se destacou ao romper com o preconceito de que jogos para celulares não podiam entregar uma experiência automobilística técnica. Com gráficos impressionantes para a época e a inclusão de circuitos licenciados do mundo real, como Laguna Seca, Spa-Francorchamps e o lendário traçado das 24 Horas de Le Mans, o game permitiu que os entusiastas treinassem pontos de frenagem, traçados ideais e gerenciamento de pneus utilizando o acelerômetro e a tela sensível ao toque dos seus aparelhos.
Ao unir a precisão das pistas do esporte a motor à praticidade dos celulares, a franquia aproximou o público da rotina dos autódromos e da pilotagem profissional. “Real Racing” se tornou a referência máxima de simulação nas plataformas mobile, provando que a paixão técnica pela velocidade podia ser vivenciada com rigor, sem a necessidade de um console de mesa ou computador.
9. “Forza Horizon” (2012)

Lançado pela Playground Games e Xbox Game Studios, “Forza Horizon” colocava o jogador no coração de um festival gigante de música e automobilismo no Colorado, acelerando por estradas abertas e cenários paradisíacos. O título foi o responsável por redefinir a indústria de jogos de corrida e de carros. O jogo explora mundos abertos deslumbrantes ao volante dos carros mais cobiçados do planeta.
Com a evolução da franquia para novos cenários ao redor do mundo, como a Europa, Austrália e México, o game se consolidou como o grande quintal virtual da cultura automotiva contemporânea. Ele digitalizou e expandiu a cultura dos encontros de carros (car meets), permitindo que entusiastas se reunissem em tempo real para exibir modificações mecânicas, pinturas personalizadas e fazer viagens em grupo, além de dar visibilidade a preparadoras renomadas do mundo real, como a Hoonigan e a Liberty Walk.
Ao unir a liberdade de exploração em mapa aberto à diversidade da cultura “petrolhead” moderna, a franquia tornou-se o maior ponto de encontro da comunidade automotiva do século XXI. “Forza Horizon” é um dos elementos que mais influenciou e influencia os jovens entusiastas de hoje ao tirar o peso do conhecimento árduo de fatores mecânicos e físicos do jogador, e permitir que ele apenas desfrute de encontros e viagens em mundo aberto.
10. “Assetto Corsa” (2014)

Lançado pelo estúdio italiano Kunos Simulazioni para PC, Assetto Corsa veio para ser o ponto de encontro entre o “Gran Turismo” e o “iRacing”: se o primeiro é um simulador com alma de arcade e o segundo é o simulador sério que até os pilotos de Fórmula 1 utilizam para treinar, o “Assetto Corsa” é o exato meio do caminho. O jogo trouxe a precisão do force feedback nos volantes, o dinamismo de suspensão e a liberdade de modificação (mods) para perto do jogador, porém com a liberdade de ser criativo dentro da plataforma.
Desenvolvido em um escritório situado ao lado de um autódromo real na Itália, o jogo transformou-se no maior ecossistema “sandbox” do automobilismo digital. Sua comunidade recriou milhares de veículos, roncos de motor e estradas do mundo real, permitindo que os entusiastas simulassem com extrema fidelidade desde a cultura do drift em estradas de montanha no Japão e até rachas noturnos em autoestradas expressas, mantendo viva e vibrante a cena da modificação virtual.
Ao unir o rigor da física automobilística à criatividade ilimitada de sua própria comunidade, o simulador tornou-se uma plataforma viva da cultura automotiva.
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