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O que acontece se os estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb forem fechados?

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
O que acontece se os estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb forem fechados?

Os Houthis, alinhados ao Irã, declararam na segunda-feira (20) um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, abrindo uma possível nova frente contra os Estados Unidos no conflito com o Irã e aumentando a ameaça ao abastecimento global de energia e ao comércio para além da região do Golfo.

Veja por que isso é importante e o que significa para o conflito com o Irã e para a crise energética global.

Qual é a dimensão do risco para os mercados globais de energia?

O Iêmen está situado no estreito de Bab el-Mandeb — a porta de entrada sul do Mar Vermelho — e o fechamento dessa passagem abriria uma nova frente na crise energética e no conflito mais amplo do Irã com os EUA.

Com o fluxo em Ormuz já prejudicado, o Mar Vermelho tornou-se uma rota alternativa crucial para o escoamento de petróleo e outros produtos do Golfo. Uma interrupção grave significaria o fechamento simultâneo das duas principais rotas de exportação de petróleo do Oriente Médio.

“As consequências em cadeia são enormes”, afirmou Naveen Das, analista sênior da Kpler, plataforma de dados e análises.

“Preços de energia, preços de alimentos, custos de transporte, inflação em geral — o mesmo cenário que tivemos no início, mas talvez com um agravante, já que bloqueamos mais uma válvula de escape para a energia.”

O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz pelo Irã, após ataques de Israel e dos EUA em 28 de fevereiro, interrompeu a maior parte das exportações de petróleo e outros produtos do Golfo, elevando os preços e provocando um choque energético global.

A Arábia Saudita reagiu desviando mais de 70% de suas exportações diárias habituais de petróleo bruto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Os navios que partem de Yanbu com destino à Europa seguem para o norte, passando pelo Canal de Suez. Aqueles que se dirigem à Ásia seguem para o sul, passando por Bab el-Mandeb.

Os embarques a partir de Yanbu registraram uma média de 4 milhões de barris por dia nas últimas semanas, segundo dados da Kpler e da Signal Ocean — um aumento em relação aos cerca de 973 mil barris por dia registrados um ano antes.

O volume total de petróleo que transitou pelo estreito de Bab el-Mandeb somou 7,4 milhões de barris por dia em junho — o que representa cerca de 7% da produção global de petróleo —, segundo dados da Kpler; o número é superior aos 4,2 milhões de barris por dia registrados no ano anterior.

Isso serviu como uma tábua de salvação para o mercado de energia, ajudando a conter os preços globais do petróleo. A Arábia Saudita estuda ampliar seu oleoduto de petróleo bruto em direção à costa do Mar Vermelho, conforme noticiou a Reuters na semana passada.

Quando os Houthis iniciaram os ataques a navios no Mar Vermelho, em novembro de 2023, as exportações de petróleo do Golfo fluíam livremente.

Existem rotas alternativas?

Quatro petroleiros alteraram suas rotas de navegação no Mar Vermelho na quarta-feira (22); dois deles indicaram o Canal de Suez como novo destino após os Houthis alertarem as embarcações para evitarem navegar em direção a portos da Arábia Saudita, segundo dados de rastreamento de navios.

Um quinto navio — um transportador de veículos — parece ter desviado sua rota no Golfo de Aden na quarta, após indicar o porto saudita de Jidá como próximo destino, segundo dados de navegação.

“Alguns embarcadores com maior tolerância a riscos podem continuar passando pelo estreito de Bab el-Mandeb e assumir o risco, mas é mais provável que vejamos cargas sendo redirecionadas para o norte, através do Canal de Suez”, disse Naveen Das, da Kpler, acrescentando que essa rota resulta em tempos de viagem mais longos e em volumes de carga menores.

“Cargas menores significam taxas de frete mais baixas, custos adicionais e prazos de transporte mais longos”, afirmou ele.

Quais serão os impactos para os consumidores?

Assim como no caso do bloqueio do Estreito de Ormuz, o fechamento da passagem do Mar Vermelho levará a um aumento de custos para os consumidores.

Naveen Das afirmou que a economia global pode conseguir suportar um fechamento de uma ou duas semanas, mas qualquer situação de longo prazo poderia causar problemas.

“No final das contas, os custos serão repassados ​​aos consumidores”, disse ele. “Se durar algo entre três semanas e um mês, começaremos a sentir o impacto.”

Quem são os Houthis e por que eles estão fechando rotas de energia do Mar Vermelho?

Os Houthis surgiram como um movimento militar, político e religioso no norte do Iêmen, na década de 1990, travando uma guerra de guerrilha contra o governo em Sanaa.

Eles estão em guerra civil há mais de uma década contra o governo reconhecido internacionalmente e apoiado pela Arábia Saudita, tendo atacado vizinhos do Golfo com mísseis e drones.

No entanto, uma trégua de 2022 entre as partes em conflito no país se manteve em grande parte até a semana passada, quando o governo do Iêmen reconhecido internacionalmente afirmou ter atacado o aeroporto de Sanaa para impedir o pouso de um avião iraniano.

​​Os Houthis alegaram que a Arábia Saudita era a responsável e, em resposta, dispararam mísseis contra o aeroporto de Abha, na região montanhosa do sudoeste do reino.

Um alto funcionário Houthi, Mohammad al-Farah, alertou então, em entrevista ao site da emissora iraniana Press TV, que se a situação continuasse a escalar, o estreito de Bab el-Mandeb seria fechado.

O Irã apoia os Houthis como parte de seu “Eixo de Resistência” regional, que inclui o Hezbollah do Líbano e milícias xiitas iraquianas, embora seus laços com o movimento iemenita sejam menos claros do que com esses outros grupos.

Os Houthis não reconhecem o Líder Supremo do Irã como sua autoridade religiosa máxima da mesma forma que o Hezbollah e os grupos iraquianos o fazem. Suas motivações são principalmente internas, embora o grupo esteja ideologicamente alinhado ao Irã.

Os EUA afirmam que o Irã armou, financiou e treinou os Houthis com a ajuda do Hezbollah. Os Houthis negam atuar como representantes do Irã e dizem desenvolver suas próprias armas. Não está claro até que ponto a postura do grupo em relação a Bab el-Mandeb e ao Mar Vermelho decorre de suas próprias prioridades estratégicas ou é adotada em nome do Irã.

O que aconteceu quando os Houthis atacaram navios no Mar Vermelho outras vezes?

Após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 e a campanha devastadora de Israel em Gaza, os Houthis começaram a disparar contra Israel e contra embarcações no Mar Vermelho, alegando agir em apoio aos palestinos.

Os ataques prejudicaram gravemente o transporte marítimo global, levando a Maersk, a Hapag-Lloyd e outras grandes empresas a desviar suas rotas para contornar a África — um trajeto muito mais longo e custoso.

O tráfego no Mar Vermelho não se recuperou desde então; dados da Autoridade do Canal de Suez mostram que o movimento pelo canal caiu 52% em 2025 em relação aos níveis de 2023, atingindo seu patamar mais baixo em pelo menos 50 anos.

Uma missão liderada pelos EUA para restaurar a livre navegação no Mar Vermelho envolveu ataques repetidos a alvos Houthis e uma campanha defensiva que abateu centenas de drones e mísseis.

No entanto, alguns ataques Houthis continuaram até o verão passado, cessando completamente apenas com o cessar-fogo em Gaza, em outubro.

No mês passado, os Houthis anunciaram que baniriam do Mar Vermelho navios ligados a Israel, após o país retomar ataques militares contra o Irã.

Contudo, essa ameaça nunca foi concretizada, e as empresas de transporte marítimo Maersk e Hapag-Lloyd estão retomando algumas rotas pelo Mar Vermelho que haviam abandonado durante os ataques Houthis no ano passado, informou a Maersk neste mês.

Quem são os Houthis, grupo do Iêmen apoiado pelo Irã?

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