O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2024, o maior número da série histórica, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (23) e revelam que, enquanto o país avança na redução geral das mortes violentas, os crimes contra mulheres seguem na contramão dessa tendência. Ao CNN 360°, Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, comenta o tema.
Samira apresentou uma análise abrangente dos resultados. Segundo ela, o cenário geral das mortes violentas intencionais traz boas notícias, mas os dados relacionados à violência contra a mulher são motivo de profunda preocupação.
Mortes violentas intencionais recuam, mas desigualdade persiste
O anuário registrou 40.775 mortes violentas e intencionais em 2025, com uma taxa abaixo de 20 por 100 mil habitantes — patamar considerado historicamente relevante para o país. “A gente teve uma redução só no último ano de 8,2% na taxa de mortes violentas intencionais”, destacou Samira Bueno.
Para efeito de comparação, em 2017, ano considerado o mais violento da história brasileira, foram registrados 64 mil assassinatos.
Apesar da tendência positiva, a especialista ressaltou que a redução é profundamente desigual entre os estados. Enquanto Santa Catarina, São Paulo e Distrito Federal apresentam taxas de mortalidade inferiores a 10 por 100 mil habitantes, vários estados ainda registram índices acima de 35 ou até 40 mortos por 100 mil.
O Amapá foi apontado como o estado mais violento do país pelo sexto ano consecutivo, seguido pela Bahia. Além disso, sete unidades da federação registraram crescimento da violência letal no período, com destaque para o Rio Grande do Norte, que apresentou alta de quase 20%.
Rondônia, Acre, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro também foram na contramão da tendência nacional.
Feminicídios e violência doméstica batem recordes históricos
Os dados de feminicídio representam o lado mais alarmante do relatório. Com crescimento de 4% em relação ao ano anterior, os casos atingiram novo recorde com mais de 1.570 mulheres vítimas.
“As mortes de mulheres por serem mulheres estão na contramão desse processo”, afirmou Samira Bueno.
O cenário é ainda mais grave quando associado a outros indicadores: as tentativas de feminicídio cresceram quase 6%, o descumprimento de medidas protetivas de urgência aumentou 16% e o crime de perseguição — o stalking — cresceu 30%.
“Em todos esses indicadores, a gente está falando de recordes da série histórica”, ressaltou a especialista.
Samira Bueno apontou um hiato significativo entre a legislação de proteção à mulher, considerada robusta, e a efetiva implementação de políticas públicas.
“O grande desafio do Estado brasileiro hoje é fazer com que o que está previsto na Lei Maria da Penha há 20 anos vire realidade para milhões de mulheres”, afirmou.
A especialista também destacou que metade das vítimas de feminicídio no Brasil reside em cidades com menos de 100 mil habitantes, enquanto os equipamentos especializados de proteção — como Casas da Mulher Brasileira, Delegacias da Mulher e Varas Especializadas — estão concentrados nos grandes centros urbanos.
“As mulheres que residem nas cidades menores sequer encontram espaços para buscar ajuda”, alertou.
Golpes digitais crescem 430% desde 2018
O anuário também trouxe dados preocupantes sobre crimes patrimoniais, especialmente os golpes e fraudes digitais. Desde 2018, esse tipo de crime cresceu 430%, e somente no último ano foram registrados 258 golpes por hora — o equivalente a um golpe a cada 15 segundos.
Samira Bueno ressaltou que há subnotificação significativa, já que muitas vítimas não registram boletim de ocorrência. Foram mais de 2,2 milhões de ocorrências registradas, mas isso resultou em apenas pouco mais de 60 mil processos penais e menos de 5 mil pessoas presas por estelionato.
“Esse é um crime que está completamente fora de controle, em grande medida porque é um crime que compensa, porque a gente não tem conseguido responsabilizar os autores”, avaliou a especialista.
Uma pesquisa de vitimização realizada com o Datafolha, divulgada pelo Fórum três meses antes do anuário, indicou que o crime mais temido pela população brasileira atualmente é perder dinheiro em golpes ou fraudes, para 85% dos entrevistados — ultrapassando, pela primeira vez, o medo de ser assassinado.
Samira Bueno criticou a ausência do tema na agenda pública: “O poder público não está fazendo esse debate, o governo federal não está fazendo. É quase como se esse problema não existisse”.
Sistema prisional superlotado e ineficaz, aponta especialista
O Brasil conta atualmente com 964.700 pessoas encarceradas e um déficit de quase 300 mil vagas no sistema prisional. Apesar dos números expressivos, Samira Bueno avalia que o modelo de privação de liberdade não tem surtido o efeito esperado.
“O Brasil prende muito e prende mal”, afirmou. Segundo ela, o sistema prisional é ocupado majoritariamente por autores de roubos e tráfico de drogas, mas não necessariamente pelos grandes líderes do crime organizado.
A especialista citou ainda o fato de que lideranças de facções criminosas continuam comandando suas organizações de dentro das prisões, por meio de acesso a telefones.
Para Samira Bueno, uma reforma completa do sistema penitenciário é o grande desafio para a segurança pública nas próximas décadas, com foco tanto no isolamento efetivo dos criminosos quanto na ressocialização após o cumprimento da pena.

