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Brasil tem uma morte para cada três casos de tentativas de feminicídio

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Brasil tem uma morte para cada três casos de tentativas de feminicídio

Enquanto o Brasil bate recorde de feminicídios, outro indicador revela a dimensão da violência contra as mulheres. Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de feminicídio, um aumento de 5,9% em relação ao ano anterior, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quarta-feira (23).

Os dados mostram que, para cada feminicídio consumado registrado no país, houve, em média, 2,7 tentativas de assassinato.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, esse indicador revela que milhares de mulheres escaparam da morte, mas permanecem expostas ao risco de novos ataques.

A coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, afirma que os números precisam ser interpretados à luz da definição jurídica da tentativa de homicídio.

Na definição do Código Penal, a tentativa ocorre porque circunstâncias alheias à vontade do autor impediram a consumação do crime. Ou seja, ele não desistiu de matar; ele não conseguiu.

Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Segundo a pesquisadora, isso significa que essas mulheres continuam em situação de alto risco e precisam ser tratadas como prioridade pelas políticas públicas de proteção. “É uma população que demanda atenção imediata, porque a violência já chegou ao seu nível mais extremo e só não terminou em morte por fatores que escaparam ao controle do agressor”, afirma.

Na avaliação dos pesquisadores, as mulheres que hoje aparecem nas estatísticas de tentativa de feminicídio podem representar parte das vítimas de feminicídio consumado nos próximos anos caso não recebam proteção efetiva. Por isso, o estudo defende que essas sobreviventes sejam tratadas como grupo prioritário pelas políticas públicas de prevenção, com monitoramento contínuo e fortalecimento da rede de proteção.

Tentativas fazem parte de um ciclo de violência

O levantamento mostra que o feminicídio costuma ser o desfecho de uma sequência de agressões. Para cada feminicídio registrado no Brasil, foram contabilizados, em média, 501,9 registros de ameaça, 182,2 casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, 84 registros de descumprimento de medida protetiva de urgência, 78,8 casos de perseguição (stalking), 38,7 episódios de violência psicológica e 2,7 tentativas de feminicídio.

Segundo Brandão, esses indicadores demonstram que a violência contra a mulher raramente começa com a tentativa de assassinato. “O feminicídio é o desfecho de um ciclo de violências que, muitas vezes, já era conhecido pelas instituições. O desafio é conseguir interromper essa escalada antes que ela termine em morte”, afirma.

Para os pesquisadores, esses indicadores mostram que a morte raramente ocorre de forma repentina.

Na maioria dos casos, ela é precedida por sucessivos episódios de violência que poderiam permitir uma intervenção do Estado antes do desfecho fatal.

Norte e Centro-Oeste lideram

As maiores taxas de tentativas de feminicídio foram registradas nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde todos os estados apresentaram indicadores acima da média nacional.

O Amapá liderou o ranking, com 14,9 tentativas por 100 mil mulheres, quase quatro vezes a média brasileira. Em seguida aparecem Mato Grosso, com taxa de 12,5, e Acre, com 12,3.

Quando são analisados em conjunto os feminicídios consumados e tentados, o padrão regional permanece. O Centro-Oeste apresentou a maior taxa de violência letal de gênero do país, com 9,8 vítimas por 100 mil mulheres, seguido pela Região Norte, com 8,0. Já o Sudeste (4,2), o Nordeste (4,8) e o Sul (5,2) registraram os menores índices, evidenciando profundas desigualdades na distribuição da violência letal contra mulheres.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados reforçam que o enfrentamento ao feminicídio depende menos da resposta ao crime consumado e mais da capacidade do Estado de identificar mulheres em situação de risco, fortalecer a rede de proteção e interromper o ciclo da violência antes que ele termine em morte.

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