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“Resumo de SP” e “mandar pra polícia”: veja provas da operação contra o PCC

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
“Resumo de SP” e “mandar pra polícia”: veja provas da operação contra o PCC

A Operação Janus, realizada nesta terça-feira (21) pelo Ministério Público de São Paulo, prendeu 11 pessoas envolvidas em um grupo apontado como operador financeiro do PCC (Primeiro Comando da Capital). Mensagens e áudios obtidos durante a investigação mostram o esquema da facção e a “corrupção sistêmica de policiais”, segundo o MP.

A ação foi conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e é desdobramento das operações Bazaar e Recidere. Para os promotores, os investigados movimentavam recursos de origem ilícita em benefício de integrantes da facção e recorriam à própria organização criminosa para resolver disputas particulares, por meio do “tribunal do crime”. 

O pedido de 18 mandados de prisão e 18 mandados de busca e apreensão, que embasou a operação, tem 120 páginas e foi protocolado em 22 de junho na 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital. Nele, os promotores anexaram mensagens de texto, áudios transcritos, planilhas e capturas de tela extraídas de celulares apreendidos nas operações Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas.

O objetivo declarado é demonstrar a prática do crime de promoção e financiamento de organização criminosa — conduta prevista na Lei nº 12.850/2013, que pune quem sustenta financeiramente o grupo sem necessariamente integrá-lo.

O alvo central é o empresário Cléber Azevedo dos Santos, apontado como operador financeiro e descrito nas próprias mensagens como “companheiro” do PCC. Segundo a peça, “companheiro” designa quem não é “irmão” — integrante formal —, mas se submete às regras e à hierarquia da facção.

A casa, a dívida e o “resumo de SP”

Segundo o Gaeco, Cléber vendeu por R$ 4 milhões um imóvel na Riviera de São Lourenço a Marcelo de Morais Oliveira. R$ 2 milhões teriam sido abatidos de um valor já entregue anteriormente, mas o restante não foi pago. Em maio de 2023, o vendedor relatou a um interlocutor salvo como “Zé São Paulino” um encontro na zona sul de São Paulo.

“Não teve acordo ele mando seguir os trâmites achando que ia me assustar”, escreveu. Um mês depois, em conversa com outro contato, ele descreveu o problema em outros termos: “Problema com umas ideias do comando de uma casa que tenho na Riviera e já faz um mês que estou sem dormir e vamos resolver no resumo de SP”.

Os promotores traduzem a expressão: “resumo” designa o mecanismo paralelo de resolução de conflitos usado pela facção, que a peça chama de “tribunal do crime”.

Mensagens Cléber • Reprodução/Denúncia MP-SP

O áudio de dez minutos

Em 30 de junho de 2023, Cléber enviou a “Zé São Paulino” um áudio em que narra a disputa do início ao fim e pede que o caso seja apreciado na zona norte da capital. Ele cita o sócio “Léo” — identificado como Leonardo Meirelles, doleiro condenado na Lava Jato e hoje foragido — e descreve uma agressão sofrida em seu restaurante em Santana.

“Peço que seja aqui essas ideias para ser resolvida (…) desde já agradeço a atenção dada pelos irmãos aí”, conclui.

Na avaliação do Ministério Público, o áudio evidencia adesão às normas e à hierarquia do PCC. Na mesma mensagem, o empresário se refere a si e ao comprador como “companheiros” da facção.

“Vai ficar tudo amarrado no cativeiro”

Entre os arquivos extraídos, o Gaeco localizou um grupo chamado “Assunto pertinente a casa Riviera”, com uma gravação do encontro. A peça atribui a autoria da gravação a Alexandre Viriato da Silva, o “Gordão”, preso nesta terça.

Em 9 de junho de 2023, um áudio enviado a Cléber traz a frase: “esses cara lá tirando, hora que chegar lá vai ficar tudo amarrado no cativeiro”. A resposta registrada no print é uma sequência de risadas.

Para os promotores, a disposição de manter pessoas em cativeiro partiu de Antonio Carlos Sampaio, o “Compadre”, condenado por organização criminosa, em diálogo com Viriato.

A peça também aponta mensagem em que Cléber lista valores a serem pagos a “Kaka”, “Buiu”, “Minhoca”, “Gordão”, “Waguinho” e “Podrão”. Os dois últimos não foram identificados.

Valores • Reprodução/Denúncia MP-SP

O encontro presencial teria ocorrido em 11 de novembro de 2023, na capital. Uma tela de análise do celular mostra que o endereço foi enviado a seis conversas distintas. Em uma delas, o interlocutor pergunta: “Vai ser agora ???”. A resposta: “As 13:00 hj”. E o encerramento: “Fecho”.

“Preciso de 50 mil pra poder mandar pra polícia”

Outro conjunto de mensagens trata do destino do dinheiro. Em 15 de setembro de 2021, Robson Martins de Souza escreveu a Bruno Ramos Fernandes: “Tem vivo preciso pagar o 39 13 e seccional” — referência a delegacias e a uma seccional de polícia.

Na sequência, ele detalhou: “39 750 / 13 750 / Seccional 1500” e acrescentou que o repasse mensal deveria ser lançado também para um terceiro, “pois metade desse pagamento é dele”.

Segundo a peça, Bruno Ramos Fernandes declarou em depoimento que as quantias citadas nessas conversas apresentam um dígito a menos que os valores reais.

Em junho de 2025, o mesmo interlocutor recebeu de Cléber: “Preciso de 50 mil pra poder mandar pra polícia”, seguido de “Chegando aí separa e me avisa”. Um áudio do mês seguinte registra pedido de R$ 100 mil em espécie porque um cliente “precisa pagar os policia”.

Transcrição de áudio • Reprodução/Denúncia MP-SP

Em abril de 2022, Cléber já havia escrito ao operador financeiro Amjad Ahmad, o “Amim”: “Chefão estou precisando do dinheiro pra pagar a polícia e não tenho. Vc tem como me mandar o nosso saldo por favor ??”.

Coronéis citados nas conversas

Os relatórios anexados registram menções a oficiais da Polícia Militar. Em uma transcrição, um funcionário do grupo pergunta a Cléber: “Como chama o CORONEL mesmo?”. A resposta cita nominalmente o coronel Pereira Martins, então diretor de ensino, e o coronel José Augusto Coutinho, apontado como comandante da Rota à época.

O funcionário responde que conhecia o oficial apenas por um apelido. A peça registra ainda que Cléber e Robson participavam de um grupo chamado “Aniversário general”, ativo ao menos até novembro de 2023, e que o coronel Pereira Martins teria se disposto a intermediar contatos com autoridades.

Uma planilha de despesas do grupo, enviada em dezembro de 2019, traz linha referente a outubro daquele ano com pagamento de R$ 1.000 em espécie a um oficial identificado como coronel Patrício.

Mensagens e transcrição • Reprodução/Denúncia MP-SP

Nenhum dos oficiais citados foi alvo da operação. Eles não foram denunciados nem indiciados no âmbito deste procedimento.

O “banco” da facção

As mensagens também descrevem a estrutura financeira. Em áudio anexado, Cléber comenta a origem dos recursos movimentados pela fintech Akron, operada por ele e por Leonardo Meirelles: “tem a criptomoeda, mas (…) tem a pirâmide, né, é três coisas, né: criptomoeda, pirâmide e o dinheiro dos caras das drogas”.

A peça descreve ainda a prestação de serviços a Leonardo Monteiro Moja, o “Léo do Moinho”, apontado como principal liderança do PCC na região central de São Paulo e preso em agosto de 2024. Em uma das conversas, Antonio Carlos Ubaldo Junior informa que “a sacola que ele mandou” continha R$ 498.500.

Sobre quem conferiu o dinheiro, ele acrescenta que a pessoa “só mexe com o dinheiro do Cléber vivo” — “vivo”, no vocabulário do grupo, designa dinheiro em espécie.

Também consta mensagem em que Moja indica duas chaves Pix para receber R$ 5 mil e R$ 11.356, esta última destinada a um restaurante registrado em nome de sua mulher.

Segundo o Gaeco, a contadora Meire Bomfim da Silva Poza, também condenada na Lava Jato, recebia R$ 70 mil mensais para manter sua estrutura contábil à disposição do grupo.

Mensagens • Reprodução/Denúncia MP-SP

O que pede o Ministério Público

Além das prisões e das buscas, o Gaeco requereu arresto, sequestro e bloqueio de bens de 19 pessoas físicas e quatro empresas, além do imóvel de Bertioga que originou a disputa. A prisão preventiva foi pedida com base nos artigos 311, 312 e 313 do Código de Processo Penal — medida cautelar que antecede o julgamento e não representa condenação.

Os promotores sustentam que o PCC se enquadra como organização criminosa ultraviolenta, categoria prevista na Lei nº 15.358/2026, o que segundo eles reforça o cabimento da custódia.

Os citados são investigados e não foram condenados pelos fatos apurados neste procedimento. Vale a presunção de inocência.

A CNN Brasil tenta contato com a defesa dos citados. O espaço segue aberto.

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