O presidente americano, Donald Trump, anunciou a imposição de tarifas de 50% sobre centenas de produtos canadenses, em um movimento que ameaça reacender uma disputa comercial com um dos aliados mais próximos e principais parceiros econômicos dos Estados Unidos. O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna comenta o tema.
As taxas entrarão em vigor em 30 dias e abrangem cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses.
Segundo a Casa Branca, a medida foi adotada sob o argumento de que o Canadá tem mantido práticas comerciais generalizadas e não recíprocas, que teriam prejudicado agricultores, fabricantes e trabalhadores americanos. Lourival detalhou os três eixos que motivaram as novas tarifas.
Retaliação às bebidas alcoólicas, automóveis e lácteos
A primeira frente da disputa envolve as bebidas alcoólicas. Lourival Sant’Anna explicou que o Canadá teria barrado quase completamente a entrada de bebidas alcoólicas fabricadas nos Estados Unidos em seu território, com exceção de duas províncias canadenses.
Em resposta, Washington impôs tarifas de 50% sobre uma série de produtos canadenses, como madeira e celulose, e não diretamente sobre as bebidas canadenses.
A segunda parte das novas tarifas diz respeito ao setor automotivo. “Como o Canadá adotou tarifas de 25% para os automóveis americanos, os Estados Unidos adotaram uma série de tarifas de 50% também para uma série de produtos relacionados com a indústria automobilística”, afirmou Sant’Anna.
A medida não se restringe a automóveis acabados, mas abrange também componentes ligados ao setor. Já a terceira frente envolve os lácteos: os Estados Unidos alegam que o Canadá oferece condições mais favoráveis à União Europeia para a entrada de queijo europeu no país do que para produtos similares americanos.
Por isso, componentes usados na fabricação de queijos passarão a ser taxados em 50% para entrar nos Estados Unidos.
Canadá e China como alvos prioritários
Sant’Anna destacou que Jameson Greer, representante comercial dos Estados Unidos, afirmou à CNBC que o Canadá e a China são os únicos países que adotaram retaliações contra os Estados Unidos.
“Deixou bastante claro que o Canadá é um foco especial das tarifas americanas por causa disso, assim como a China”, disse o analista. Ele acrescentou que, no caso chinês, a existência de minerais críticos dos quais os Estados Unidos dependem resultou em um tratamento “um pouco mais negociado”.
Brasil pode ser alvo de tarifa por trabalho forçado
Além das tarifas ao Canadá, Sant’Anna trouxe informações sobre uma possível nova tarifa que o governo americano deve anunciar sobre produtos brasileiros. A medida teria como base uma investigação relacionada ao trabalho forçado na cadeia produtiva.
Segundo o analista, a tarifa pode chegar a 12,5% no caso do Brasil, valor superior à alíquota de 10% aplicada a outros países.
Sant’Anna explicou que o governo americano utilizou a chamada sessão 301 para fundamentar a medida, argumentando que os Estados Unidos seriam o único país a impedir efetivamente que o trabalho forçado entre em sua cadeia de produção.
“Não é necessariamente que o país tenha trabalho forçado, mas que ele importe produtos para, por sua vez, fazer produtos que ele vai exportar, que teriam um componente de trabalho forçado”, detalhou.
Países que assumiram compromissos contra o trabalho forçado em sua cadeia de valor, como membros da União Europeia, Equador e Indonésia, ficariam com a alíquota de 10%. O Brasil, segundo Sant’Anna, receberia 12,5% porque os Estados Unidos consideram que o país não possui uma lei específica sobre o tema para a sua cadeia de valor.

