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“Que te violem”: brasileiros revelam ameaças de argentinos após fim da Copa

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
“Que te violem”: brasileiros revelam ameaças de argentinos após fim da Copa

Estudantes brasileiros que vivem na Argentina relatam ter recebido ameaças de morte e de estupro, ofensas racistas e a divulgação de seus dados pessoais depois da final da Copa do Mundo, vencida pela Espanha diante da seleção argentina no domingo (19).

Segundo os alunos ouvidos pela reportagem, a hostilidade começou após um veículo de imprensa local publicar fotos e perfis de redes sociais de brasileiros que não torceram pela Argentina na decisão. As publicações os classificavam como ingratos por estudar no país.

A partir daí, os dados dos estudantes passaram a circular em redes sociais, sobretudo no X (antigo Twitter). Endereços, números de documento e perfis foram reunidos e compartilhados. Uma planilha com informações de brasileiros foi divulgada na plataforma, de acordo com os relatos.

“Medo de pisar na rua”

Uma estudante de medicina que vive no país há quatro anos afirma ter recebido mais de mil mensagens em um único dia, por SMS, ligações, e-mail e aplicativos. Ela diz ter encontrado o próprio endereço, retirado de um documento argentino, exposto na internet.

“Recebi ameaças de morte, de linchamento, de que vão me encontrar na rua e me matar. Até foto de arma recebi”, relata. “Minha família e eu estamos com medo até de sair de casa.”

A jovem conta que passou a torcer pela Espanha após considerar xenofóbico o comportamento de parte da torcida argentina. Afirma não ter desrespeitado símbolos nacionais e diz ter antecipado uma viagem ao Brasil por segurança. “Tenho medo de pisar na rua”, diz. Segundo ela, os pais cogitam adiar o retorno ao Brasil para permanecer ao seu lado.

“Ameaçaram a minha família”

Outra brasileira, que estudou na Argentina desde 2022 e hoje vive no Paraguai, cancelou uma viagem que faria ao país nesta semana. Ela contou à CNN que passou a receber ataques após publicar, em suas redes, uma comemoração pelo título espanhol.

“Passaram a me ameaçar de estupro, de morte, a dizer que, se me pegassem na rua, iam me matar”, afirma. “Ameaçaram a minha família e mandaram e-mails para a minha antiga faculdade pedindo minha expulsão.”

A estudante diz ter desativado as redes sociais após receber dezenas de solicitações de mensagem com ofensas. Relata que comentários com termos racistas foram publicados em seus vídeos.

Mensagens de ameaça

Entre as mensagens às quais a reportagem teve acesso, há ofensas raciais e ameaças diretas. Em uma delas, escrita em espanhol, um usuário diz: “ingrata, volte a comer bananas no seu país”. Em outra: “macaca de m*, filha da p*, tomara que te estuprem”.

Um dos textos, enviado em português, afirma: “Quando eu te vir na universidade, pode ter certeza de que você vai sofrer. (…) Seu macaco brasileiro de m*, volte para o seu país”. A mensagem inclui ameaça de morte e de agressão a animais de estimação.

Outras mensagens vieram acompanhadas de foto de arma de fogo. “Na Argentina não brincamos”, diz uma delas. Um usuário escreveu que o endereço, o telefone e as redes de uma das vítimas haviam sido divulgados.

Os estudantes afirmam que argentinos também enviaram e-mails e fizeram ligações a faculdades para pedir a expulsão de brasileiros. Sete pessoas teriam sido expostas inicialmente, mas o número de perfis divulgados aumentou nos dias seguintes, segundo os relatos.

Retaliação

De acordo com os alunos, episódios de racismo e xenofobia já ocorriam no ambiente universitário e se intensificaram após a decisão. Alguns evitam se identificar por receio de retaliação.

Ao menos uma das vítimas afirma que pretende registrar boletim de ocorrência na polícia argentina e procurar o consulado brasileiro. As condutas relatadas — ameaça, ofensa racial e divulgação de dados pessoais — podem configurar crimes na legislação argentina.

Como os fatos ocorreram em território argentino, eventual apuração penal cabe às autoridades locais. O consulado do Brasil presta assistência a cidadãos no exterior, incluindo orientação jurídica e apoio em casos de violência.

A reportagem preserva a identidade das vítimas a pedido delas, por segurança. As mensagens e capturas de tela foram cedidas pelos próprios estudantes à CNN Brasil.